No PARE/EULAR 2026, especialistas defenderam que a prevenção das doenças reumáticas e musculoesqueléticas deixe de ser um tema restrito ao debate técnico e passe a ocupar espaço nas campanhas públicas, na formação dos profissionais de saúde e nas políticas de governo.
Durante o PARE/EULAR 2026, a mensagem foi direta: quando se fala em doenças reumáticas e musculoesqueléticas, detectar cedo pode mudar toda a trajetória de uma pessoa. Foi a partir dessa ideia — “o precoce muda tudo” — que Sina Bugeja conduziu uma apresentação voltada a ampliar o olhar sobre prevenção, diagnóstico oportuno e advocacy em reumatologia.
A exposição colocou em evidência um ponto ainda pouco debatido nas políticas públicas de saúde: embora as doenças reumáticas e musculoesqueléticas afetem milhões de pessoas e possam causar dor crônica, incapacidade, perda de funcionalidade, sofrimento emocional e impacto social, elas ainda não ocupam o lugar que deveriam nas estratégias nacionais de prevenção.
Para Bugeja, falar em prevenção não significa apenas evitar que uma doença apareça. Significa também reconhecer sintomas iniciais, encaminhar rapidamente para avaliação especializada, reduzir danos, apoiar a funcionalidade e garantir que saúde mental, reabilitação e qualidade de vida façam parte do cuidado desde o início.
Três níveis de prevenção
A apresentação foi estruturada a partir dos três níveis clássicos de prevenção: primária, secundária e terciária. Na prevenção primária, o foco está em agir antes do desenvolvimento da doença, promovendo saúde musculoesquelética e reduzindo fatores de risco associados a processos inflamatórios, autoimunes e degenerativos.
Nesse campo, entram medidas amplamente conhecidas pela população, como atividade física, alimentação adequada, controle de peso, combate ao sedentarismo e hábitos saudáveis. O problema, segundo a palestrante, é que essas mensagens raramente são associadas às doenças reumáticas.
Quando campanhas públicas falam sobre dieta equilibrada e exercícios, a população costuma relacionar essas práticas à prevenção de doenças cardiovasculares, diabetes ou obesidade. Pouco se fala, porém, sobre a conexão entre estilo de vida, saúde musculoesquelética e risco de adoecimento reumático. Para Bugeja, essa ausência revela que as doenças reumáticas ainda não são percebidas como prioridade de saúde pública.
“Temos que levar essa mensagem para fora”, defendeu a palestrante, ao reforçar que documentos, recomendações e publicações científicas já existem, mas precisam alcançar a população e influenciar políticas públicas de forma mais concreta.
Diagnóstico precoce
Na prevenção secundária, quando a doença já está presente, mas ainda em fase inicial ou leve, a prioridade é detectar e tratar o mais cedo possível. A meta é evitar danos irreversíveis, preservar funcionalidade e melhorar os desfechos de longo prazo. Foi nesse ponto que a apresentação trouxe uma das críticas mais importantes: muitos pacientes passam por diferentes profissionais de saúde durante anos antes de chegarem a um reumatologista. Não necessariamente por negligência, mas porque os sintomas não são reconhecidos como sinais de uma possível doença reumática.
Rigidez matinal, dor e inchaço articular podem levantar suspeita de artrite reumatoide. Mas outros sinais, como fenômeno de Raynaud, fadiga inexplicada, dor difusa, alterações musculoesqueléticas persistentes ou sintomas sistêmicos em pessoas jovens, nem sempre são valorizados na atenção primária ou em serviços gerais de saúde.
Bugeja questionou o quanto médicos generalistas, equipes de enfermagem e outros profissionais da linha de frente são preparados, em sua formação, para reconhecer precocemente doenças reumáticas e musculoesqueléticas. Para ela, esse é um ponto decisivo: esses profissionais costumam ser a primeira porta de entrada do paciente no sistema de saúde. Se a suspeita não surge nesse primeiro contato, o encaminhamento atrasa. E, em reumatologia, atraso pode significar progressão da doença, dor persistente, perda funcional e maior risco de sequelas.
Rastreio e grupos de risco
Outro ponto levantado foi a necessidade de pensar em estratégias de rastreamento para grupos de maior risco. A palestrante citou exemplos como avaliação de densidade óssea para osteoporose e testes autoimunes em indivíduos com maior probabilidade de desenvolver determinadas condições.
A provocação foi clara: existem programas padronizados e suficientemente difundidos para identificar precocemente essas pessoas? Ou a prevenção ainda depende, em grande parte, da sorte de encontrar um profissional atento, bem treinado e capaz de conectar sinais aparentemente isolados? Ao defender o princípio “detectar cedo e tratar cedo”, Bugeja reconheceu que a frase é simples, mas sua aplicação exige mudança estrutural. Envolve educação da população, formação profissional, fluxos de encaminhamento mais ágeis, acesso a especialistas e maior visibilidade política para as doenças reumáticas.
Prevenir também é reduzir incapacidade
Na prevenção terciária, a doença já está estabelecida e pode ter causado danos. Nesse estágio, o objetivo passa a ser reduzir incapacidades, prevenir complicações, preservar autonomia e melhorar a qualidade de vida. A palestrante destacou a importância da reabilitação, do controle da dor, do apoio psicossocial e da saúde mental. Mas fez uma pergunta incômoda: por que a saúde mental muitas vezes aparece como um elemento secundário, quase tardio, no cuidado das pessoas com doenças reumáticas?
A experiência de viver com dor crônica, fadiga, limitações físicas, incertezas sobre o futuro, dificuldades no trabalho e impacto nas relações sociais não pode ser tratada como detalhe. Para muitos pacientes, sofrimento emocional e adoecimento físico caminham juntos. Ainda assim, o suporte psicológico nem sempre é incorporado de forma estruturada ao cuidado.
A apresentação também abordou o interesse dos pacientes por terapias complementares e alternativas. Bugeja reconheceu que muitas dessas abordagens não são suficientemente estudadas e que profissionais de saúde precisam agir com responsabilidade científica. No entanto, ela defendeu que ignorar ou desqualificar essas demandas não resolve o problema. Para a palestrante, é necessário ampliar o diálogo, investir em pesquisa e preparar profissionais para orientar os pacientes de forma segura, sem reduzir o cuidado apenas à prescrição medicamentosa.
Um dos pontos centrais da apresentação foi a necessidade de ampliar o conceito de cuidado. O caminho do paciente não pode ser compreendido apenas como uma sequência que leva ao diagnóstico e à prescrição de medicamentos. A prevenção deve acompanhar toda a jornada.
Isso significa orientar sobre hábitos de vida, atividade física adequada, nutrição, saúde mental, reabilitação, autocuidado, adesão ao tratamento, sinais de alerta e possibilidades de suporte. Significa também reconhecer que pacientes precisam de informação acessível e confiável para tomar decisões sobre sua saúde. Nesse sentido, profissionais de saúde da linha de frente têm papel estratégico. Mas, para isso, precisam estar mais bem informados sobre doenças reumáticas e musculoesqueléticas. A educação profissional, portanto, aparece como uma medida preventiva tão importante quanto a educação da população.
Advocacy como motor de mudança
A apresentação também colocou a advocacy — a defesa pública de uma causa — como ferramenta essencial para mudar o cenário. Para Bugeja, pacientes, organizações da sociedade civil e redes de apoio estão estrategicamente posicionados para impulsionar uma abordagem “de baixo para cima”.
A lógica é simples: se as doenças reumáticas não estão suficientemente presentes nas campanhas nacionais, nas políticas de prevenção e na consciência pública, é preciso ampliar sua visibilidade. E isso não acontecerá apenas por decisão dos governos. A mobilização social, a educação comunitária e a voz das pessoas que vivem com essas condições são fundamentais para pressionar por reconhecimento, pesquisa, financiamento e melhores políticas de cuidado. A palestrante reforçou que as doenças invisíveis seguem invisíveis quando não há esforço público para nomeá-las, explicá-las e mostrar seu impacto real. Dor, fadiga e limitação funcional nem sempre aparecem para quem vê de fora, mas podem transformar profundamente a vida de quem convive com uma doença reumática.
Ao final, a apresentação deixou uma mensagem política e prática: a prevenção das doenças reumáticas e musculoesqueléticas precisa entrar nas discussões nacionais de saúde. Não como nota de rodapé, mas como prioridade. Isso exige campanhas públicas, formação de profissionais, rastreamento em grupos de risco, encaminhamento precoce, cuidado multidisciplinar, apoio à saúde mental, pesquisa sobre intervenções relevantes para os pacientes e participação ativa das organizações de pacientes na construção de políticas.
No PARE/EULAR 2026, Sina Bugeja mostrou que prevenir, em reumatologia, é muito mais do que evitar doença. É reduzir atraso diagnóstico, impedir danos irreversíveis, proteger funcionalidade, acolher sofrimento emocional e garantir que cada pessoa tenha a chance de chegar ao cuidado certo no tempo certo. Afinal, quando o diagnóstico chega cedo, o tratamento começa cedo. E, para quem vive com uma doença reumática, esse tempo pode mudar tudo.
Sobre PARE/EULAR
PARE é a comunidade da EULAR formada por organizações nacionais de pessoas com artrite, reumatismo e outras doenças reumáticas e musculoesqueléticas. Sua missão é garantir que a voz das pessoas que vivem com essas condições seja ouvida na pesquisa, na assistência, na educação, na formulação de políticas públicas e nas decisões que afetam sua vida cotidiana.
EULAR, European Alliance of Associations for Rheumatology, é a Aliança Europeia de Associações de Reumatologia. A entidade reúne sociedades científicas, profissionais de saúde e organizações de pacientes, promovendo pesquisa, educação, advocacy e melhores práticas no cuidado das doenças reumáticas e musculoesqueléticas. O Congresso Europeu de Reumatologia é um dos principais encontros internacionais da área, reunindo especialistas, pesquisadores, profissionais de saúde, pacientes e representantes da sociedade civil.
Declaração de transparência
A jornalista Priscila Torres, coordenadora de advocacy da BioRed Brasil e do Grupar-BR e autora do Blog Artrite Reumatoide, participou do PARE/EULAR 2026, em Londres, a convite da AbbVie do Brasil. Esta reportagem reflete sua análise jornalística independente sobre os debates acompanhados durante o evento.
Descubra mais sobre Artrite Reumatóide
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.






























