Em Londres, especialistas e representantes de pacientes defenderam que alterações hormonais sejam incorporadas às consultas de reumatologia para evitar diagnósticos incompletos, subtratamento e invisibilidade de sintomas vividos por mulheres com doenças reumáticas
Durante o Congresso Europeu de Reumatologia, o EULAR 2026, a programação do PARE trouxe para o centro do debate um tema ainda pouco abordado nas consultas de rotina: o impacto dos hormônios e do envelhecimento na vida de pessoas com doenças reumáticas e musculoesqueléticas. Na sessão “Hormones and RMDs: How Aging Affects Health in Women and Men”, especialistas e representantes de pacientes discutiram como a menopausa pode modificar sintomas, funcionalidade, qualidade de vida, percepção de dor e risco de comorbidades em mulheres que convivem com doenças inflamatórias reumáticas.
A sessão revelou uma lacuna importante no cuidado: muitas mulheres chegam à meia-idade convivendo com artrite reumatoide, lúpus, artrite psoriásica, síndrome de Sjögren, esclerose sistêmica ou outras condições imunomediadas, mas nem sempre encontram, na prática clínica, espaço para falar sobre menopausa, ondas de calor, distúrbios do sono, fadiga, dor articular, alterações de humor, perda de força muscular, piora funcional ou mudanças corporais. O resultado, segundo os debatedores, é uma zona cinzenta em que sintomas hormonais podem ser confundidos com atividade da doença — ou, no caminho inverso, uma crise inflamatória pode ser atribuída equivocadamente à transição hormonal.
A primeira apresentação, conduzida por Anja, abordou as relações biológicas entre menopausa, estrogênio e doenças reumáticas inflamatórias. A palestrante destacou que a redução hormonal pode afetar tecidos musculoesqueléticos, cartilagem, sistema nervoso, percepção de dor e risco de doenças associadas. A mensagem foi clara: a menopausa não deve ser tratada como um evento isolado da saúde reumatológica.
Segundo a exposição, a queda do estrogênio pode ter impacto sobre dor, função, inflamação, saúde óssea e risco cardiovascular. Em mulheres com lúpus eritematoso sistêmico, por exemplo, a menopausa foi apresentada como fator de atenção adicional para doença cardiovascular e osteoporose. Em artrite reumatoide, a discussão apontou para possível piora funcional após a menopausa. A palestrante também chamou atenção para a menopausa precoce, associada a maior risco de desenvolvimento de algumas doenças reumáticas inflamatórias e a piores desfechos em mulheres que já vivem com essas condições.
A terapia de reposição hormonal também entrou no debate, mas sem simplificações. O ponto central foi a necessidade de avaliação individualizada, considerando idade, sintomas, estabilidade da doença, comorbidades e risco de trombose. A mensagem não foi a de indicar ou contraindicar de forma ampla, mas de reconhecer que a decisão deve ser compartilhada, cuidadosa e baseada no perfil clínico de cada paciente.
Na sequência, Mary Gillespie apresentou a conferência “Bridging the Gap: Menopause and Rheumatic Musculoskeletal Disease”, defendendo que a menopausa seja incorporada de forma estruturada à prática reumatológica. A palestrante partiu de uma constatação frequente nos consultórios: mulheres relatam que “a dor mudou”, “a fadiga está diferente”, “o sono piorou” ou “o corpo não responde mais da mesma forma”, mas muitas saem sem resposta porque seus exames inflamatórios não explicam tudo.
Para Gillespie, a pergunta que precisa entrar na consulta é direta: trata-se de inflamação, menopausa ou das duas coisas ao mesmo tempo? A resposta exige uma reumatologia mais integrada, capaz de olhar não apenas para marcadores laboratoriais e articulações inflamadas, mas também para saúde hormonal, sono, fadiga, dor, humor, função, peso, ossos, coração e qualidade de vida.
A palestrante defendeu que a menopausa não seja vista como “mais uma tarefa” em consultas já curtas, mas como uma variável clínica essencial para compreender melhor a experiência das mulheres. Ao citar a necessidade de “fazer cada contato contar”, ela reforçou que uma pergunta bem colocada pode mudar o rumo do cuidado, reduzir sofrimento e evitar que pacientes sejam encaminhadas de um especialista a outro sem coordenação.
Um dos pontos mais fortes da apresentação foi a crítica ao cuidado fragmentado. Muitas pacientes são orientadas a procurar o ginecologista quando mencionam sintomas de menopausa, enquanto o ginecologista pode não se sentir seguro para discutir o impacto desses sintomas em doenças reumáticas ou nos medicamentos utilizados. Entre um serviço e outro, a paciente permanece no meio do caminho, tentando interpretar sozinha sinais que podem afetar tratamento, adesão, funcionalidade e bem-estar.
A perspectiva dos pacientes ganhou força com a participação de Cathy Antonopoulou, apresentada como parceira de pesquisa, defensora de pacientes e especialista em comunicação em saúde, com longa experiência em advocacy, educação e engajamento de pacientes. Representando a experiência de organizações gregas ligadas às doenças reumáticas e à menopausa, ela trouxe ao debate a voz de mulheres que vivem essa intersecção diariamente.
Sua apresentação mostrou que mulheres com doenças reumáticas não vivenciam a menopausa separadamente da artrite, do lúpus, da síndrome de Sjögren ou de outras condições. Para essas pacientes, dor, fadiga, ondas de calor, rigidez, alterações de sono e piora funcional acontecem no mesmo corpo, no mesmo cotidiano e, muitas vezes, no mesmo período da vida em que já existe uma doença crônica instalada.
Cathy destacou relatos frequentes recebidos por associações de pacientes: mulheres que passaram anos sem entender por que os sintomas pioraram durante a menopausa; pacientes orientadas pelo reumatologista a procurar o ginecologista e, depois, pelo ginecologista a retornar ao reumatologista; pessoas que descobriram em fóruns online informações que gostariam de ter recebido de seus próprios profissionais de saúde.
A representante de pacientes foi enfática ao dizer que a menopausa ainda é cercada por tabu. Mesmo sendo uma experiência universal para mulheres, muitas não se sentem confortáveis para abordar o tema, especialmente quando já convivem com uma doença reumática. Por isso, defendeu o papel das associações de pacientes na produção de materiais educativos em linguagem acessível, webinars, grupos de apoio, sessões de perguntas anônimas, campanhas de conscientização e espaços seguros para troca de experiências.
Mais do que apoiar indivíduos, ela afirmou que as organizações de pacientes têm o papel de mudar sistemas. Isso inclui colocar a menopausa na agenda da reumatologia, defender fluxos de encaminhamento entre reumatologistas, ginecologistas, psicólogos e outros profissionais, estimular registros de dados sobre menopausa em doenças reumáticas e garantir que desfechos relatados pelos pacientes sejam considerados em pesquisas e políticas de saúde.
A última apresentação, conduzida por Sharon Petford, enfermeira especialista em reumatologia vinculada ao NHS e pesquisadora em formação doutoral, reforçou a necessidade de transformar uma preocupação reconhecida em prática clínica organizada. A palestrante destacou a falta de evidências inclusivas e estruturadas sobre menopausa em mulheres com doenças reumáticas e apontou que essa lacuna limita a capacidade dos profissionais de oferecer um cuidado mais completo.
Sharon chamou atenção para a necessidade de uma abordagem proativa. Em vez de esperar que a paciente levante espontaneamente o tema, os serviços de reumatologia deveriam identificar sistematicamente mulheres em perimenopausa ou menopausa, perguntar sobre sintomas, verificar uso de terapia hormonal quando aplicável, avaliar riscos e integrar essas informações ao plano de cuidado.
A sessão deixou evidente que a menopausa não é apenas um tema ginecológico. Para mulheres com doenças reumáticas, ela pode influenciar dor, sono, fadiga, função, mobilidade, saúde óssea, saúde cardiovascular, saúde mental e percepção de atividade da doença. Ignorar essa variável significa correr o risco de tratar parcialmente uma realidade clínica complexa.
O debate também reforçou uma mudança de paradigma: a reumatologia centrada na pessoa precisa reconhecer o curso de vida dos pacientes. Do diagnóstico à vida adulta, da saúde reprodutiva ao envelhecimento, das decisões terapêuticas à funcionalidade no trabalho e na vida social, as doenças reumáticas atravessam fases diferentes — e cada fase impõe perguntas próprias.
Ao final, a mensagem da sessão foi direta: mulheres com doenças reumáticas precisam de cuidado de menopausa que leve suas condições a sério. Isso não significa substituir o olhar do reumatologista pelo do ginecologista, nem transformar toda consulta em uma consulta hormonal. Significa reconhecer que inflamação, hormônios, dor, fadiga e qualidade de vida podem estar conectados — e que a paciente não deve ser deixada sozinha para organizar essas respostas.
Sobre PARE/EULAR
PARE é a comunidade da EULAR formada por organizações nacionais de pessoas com artrite, reumatismo e outras doenças reumáticas e musculoesqueléticas. Sua missão é garantir que a voz das pessoas que vivem com essas condições seja ouvida na pesquisa, na assistência, na educação, na formulação de políticas públicas e nas decisões que afetam sua vida cotidiana.
EULAR, European Alliance of Associations for Rheumatology, é a Aliança Europeia de Associações de Reumatologia. A entidade reúne sociedades científicas, profissionais de saúde e organizações de pacientes, promovendo pesquisa, educação, advocacy e melhores práticas no cuidado das doenças reumáticas e musculoesqueléticas. O Congresso Europeu de Reumatologia é um dos principais encontros internacionais da área, reunindo especialistas, pesquisadores, profissionais de saúde, pacientes e representantes da sociedade civil.
Declaração de transparência
A jornalista Priscila Torres, coordenadora de advocacy da BioRed Brasil e do Grupar-BR e autora do Blog Artrite Reumatoide, participou do PARE/EULAR 2026, em Londres, a convite da AbbVie do Brasil. Esta reportagem reflete sua análise jornalística independente sobre os debates acompanhados durante o evento.
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