Painel “HTA As A System Shaper” discutiu como PROs, RWE, inteligência artificial, governança e confiança podem transformar a avaliação de tecnologias em saúde em instrumento de mudança dos sistemas
Istambul, Turquia — A necessidade de transformar dados gerados por pacientes e evidências do mundo real em informação confiável para decisões de avaliação de tecnologias em saúde foi um dos pontos centrais de debate durante o Congresso HTAi 2026, realizado entre os dias 6 e 10 de junho, em Istambul, na Turquia.
No painel identificado como “HTA As A System Shaper”, especialistas discutiram como a Health Technology Assessment, conhecida internacionalmente pela sigla HTA, pode deixar de ser apenas um processo técnico de avaliação de medicamentos, dispositivos e intervenções, para assumir um papel mais estratégico na organização dos sistemas de saúde. A discussão conectou três dimensões essenciais: a mudança para decisões centradas no paciente, os obstáculos causados pela fragmentação das orientações sobre dados e a busca por modelos capazes de harmonizar o uso de evidências em diferentes países.
A sessão foi moderada por Clifford Goodman, especialista em políticas de saúde e avaliação de tecnologias. Entre os nomes associados ao debate estão Eva Turk, pesquisadora e líder de grupo de pesquisa na CDHS University of Applied Sciences St Pölten; Grammati Sarri, pesquisadora com atuação em evidências do mundo real e métodos para HTA; Valentina Strammiello, reconhecida por sua atuação na agenda de participação e dados centrados no paciente; e Klaus Pugner, executivo da Takeda com trajetória em acesso, HTA, economia da saúde e evidências do mundo real.
A discussão partiu de uma constatação comum aos sistemas de saúde: há crescente reconhecimento sobre a importância dos dados relatados pelos pacientes, como desfechos, sintomas, qualidade de vida e impactos na rotina, mas ainda existem barreiras relevantes para que essas informações sejam efetivamente utilizadas nos processos decisórios. Os painelistas destacaram que os chamados PROs — resultados relatados pelos pacientes — e as evidências do mundo real, ou RWE, podem ampliar a compreensão sobre o valor de uma tecnologia, especialmente quando os estudos clínicos tradicionais não capturam plenamente a experiência cotidiana das pessoas que vivem com uma condição de saúde.
Uma das apresentações abordou a chamada mudança de paradigma em HTA: a passagem de um modelo centrado quase exclusivamente em dados clínicos controlados para uma abordagem que combine evidências científicas, dados de vida real, registros, informações de sistemas de saúde e experiência dos pacientes. Segundo o debate, essa integração é fundamental para que decisões sobre incorporação, reembolso e acesso reflitam não apenas eficácia e custo, mas também impacto na vida diária, equidade e valor para a sociedade.
Ao mesmo tempo, os especialistas alertaram que o caminho ainda é marcado por forte fragmentação. Foram apontadas dificuldades como falta de padronização, baixa interoperabilidade entre bases de dados, problemas de infraestrutura, dúvidas sobre qualidade e representatividade das informações, ausência de governança clara e resistência de alguns tomadores de decisão em utilizar dados que não sigam formatos tradicionais. Em países com maior desigualdade ou sistemas de informação menos integrados, como ocorre em diferentes realidades da América Latina, a confiança nos dados foi apresentada como um desafio adicional.
O painel também discutiu o chamado “efeito dominó” da fragmentação. Quando não há padrões claros para coleta e análise de dados, pesquisadores, pacientes, indústria, gestores e agências de HTA passam a trabalhar com expectativas distintas. Isso desestimula a geração de evidências, reduz a comparabilidade entre estudos, dificulta o uso de registros e pode atrasar o acesso dos pacientes a tecnologias de saúde que poderiam trazer benefícios concretos.
Nesse contexto, foi apresentada a proposta de um caminho mais estruturado, associada ao conceito de INVEST Blueprint, com foco em infraestrutura, governança, valor, equidade, padronização e confiança. A ideia debatida foi a de que os dados de saúde precisam ser tratados como um ativo coletivo, com regras claras, transparência e capacidade técnica para apoiar decisões públicas. A padronização, nesse sentido, não foi apresentada como um exercício burocrático, mas como condição para que a experiência do paciente seja considerada de maneira legítima e comparável nos processos de HTA.
Outro ponto relevante foi a relação entre inovação digital e modelos de negócio. Durante a etapa de perguntas, participantes provocaram o painel sobre o uso de gamificação, dispositivos digitais, inteligência artificial e dados de mundo real em soluções comerciais voltadas à indústria farmacêutica. A resposta dos especialistas apontou que o potencial dessas ferramentas existe, mas precisa ser acompanhado de governança, validação metodológica, transparência e modelos de colaboração público-privada que não substituam o interesse público por uma lógica puramente comercial.

A inteligência artificial apareceu como oportunidade e risco. Por um lado, pode apoiar a organização de grandes volumes de dados, inclusive informações desestruturadas que hoje permanecem pouco aproveitadas nos sistemas de saúde. Por outro, os painelistas defenderam cautela: tecnologia não deve ser usada para acelerar decisões sem qualidade, nem para ampliar vieses já existentes. O uso de IA em HTA, segundo o debate, precisa estar conectado a critérios de responsabilidade, proteção de dados, equidade e finalidade pública.
A sessão também reforçou que a participação dos pacientes não pode ser vista como etapa simbólica ou acessória. Para que dados relatados pelos pacientes sejam úteis, é necessário envolvê-los desde o início: na definição das perguntas de pesquisa, na escolha dos desfechos relevantes, na construção dos instrumentos de coleta e na interpretação dos resultados. A experiência vivida, quando organizada com método e governança, pode ajudar os sistemas de saúde a compreenderem impactos que muitas vezes não aparecem nos indicadores tradicionais.
Ao final, o painel deixou uma mensagem central: a HTA só conseguirá atuar como verdadeira “modeladora de sistemas” se for capaz de integrar diferentes fontes de evidência, reduzir a fragmentação metodológica e construir confiança entre pacientes, gestores, pesquisadores, pagadores, indústria e sociedade. Em um cenário de pressão orçamentária, inovação acelerada e demanda crescente por equidade, a avaliação de tecnologias em saúde passa a ser chamada não apenas a decidir sobre produtos, mas a orientar escolhas mais justas, sustentáveis e alinhadas às necessidades reais das pessoas.
Sobre a HTAi
A Health Technology Assessment international (HTAi) é uma sociedade científica e profissional global dedicada ao fortalecimento da Avaliação de Tecnologias em Saúde (ATS). A organização reúne pesquisadores, agências de ATS, gestores, formuladores de políticas públicas, profissionais de saúde, indústria, pacientes e cidadãos, promovendo a troca internacional de conhecimento e experiências para apoiar decisões em saúde baseadas em evidências, com foco em inovação, sustentabilidade, equidade e impacto na vida das pessoas.
Programa oficial do HTAi 2026:
https://htai.eventsair.com/htai-2026-istanbul-annual-meeting/program-agenda
Declaração de transparência: Priscila Torres, jornalista, coordenadora de advocacy da BioRed Brasil e do Grupar-BR, e autora do Blog Artrite Reumatoide, participou do HTAi 2026, em Istambul, a convite da Sun Pharma Brasil. Esta reportagem reflete sua análise jornalística independente sobre os debates acompanhados durante o evento.
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