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Home Colunas da Pri

PARE/EULAR 2026: osteoartrite é apresentada como desafio global de prevenção e cuidado integral

por Priscila Torres
30/06/2026
em Colunas da Pri, Eular
PARE/EULAR 2026: osteoartrite é apresentada como desafio global de prevenção e cuidado integral

Especialista reforçou que a doença não pode ser reduzida ao “desgaste” articular e defendeu estratégias precoces, controle do peso, educação em saúde e tratamentos personalizados.

A osteoartrite, forma mais comum de artrite no mundo, foi apresentada no PARE/EULAR 2026 como um dos grandes desafios globais da reumatologia contemporânea. Sem cura definitiva e associada a dor, perda de mobilidade, impacto funcional e desigualdades no acesso ao cuidado, a condição foi discutida a partir de uma mensagem central: prevenir, diagnosticar mais cedo e tratar melhor exige olhar para além da articulação.

Durante a apresentação, o pesquisador destacou que a osteoartrite afeta cerca de 600 milhões de pessoas no mundo e permanece como uma das principais causas de sofrimento musculoesquelético. Embora ainda seja frequentemente entendida pelo senso comum como uma doença do envelhecimento ou como simples “desgaste” articular, a palestra mostrou que essa visão é insuficiente. A osteoartrite envolve cartilagem, osso subcondral, sinóvia, inflamação de baixo grau, metabolismo, força muscular, biomecânica, peso corporal, dor crônica e dimensões emocionais da experiência de adoecer.

A metáfora do iceberg foi utilizada para ilustrar esse ponto. Acima da linha da água estão os sinais mais conhecidos: dor, rigidez, limitação de movimento e alterações estruturais visíveis em exames. Abaixo da superfície, porém, estão fatores menos evidentes, mas decisivos, como obesidade, idade, sexo, comorbidades metabólicas, inflamação sistêmica, sensibilização da dor, aspectos psicossociais e o modo como cada pessoa convive com a doença.

Uma doença complexa

Um dos pontos mais fortes da apresentação foi a crítica à leitura puramente estrutural da osteoartrite. Durante décadas, a progressão da doença foi interpretada principalmente pela escala de Kellgren-Lawrence, usada para classificar alterações radiográficas. No entanto, o pesquisador ressaltou que a osteoartrite não pode ser explicada apenas pelo grau de dano visto em imagem.

A dor, por exemplo, nem sempre acompanha de forma linear a gravidade estrutural. Há pessoas com importantes alterações radiográficas e poucos sintomas, enquanto outras apresentam dor intensa mesmo com alterações consideradas iniciais. Esse desencontro reforça a necessidade de incorporar fatores clínicos, funcionais, emocionais e sociais ao cuidado.

Na apresentação, foram descritos dois arquétipos clínicos que ajudam a entender essa complexidade. De um lado, uma osteoartrite menos complexa, em uma pessoa mais jovem, fisicamente ativa, com lesão articular localizada e poucas comorbidades. De outro, uma osteoartrite mais complexa, comum em pessoas mais velhas, com obesidade, doenças metabólicas, múltiplas comorbidades, sensibilização da dor e maior impacto psicossocial.

Essa distinção é importante porque aponta para um futuro em que os pacientes não serão tratados como um grupo homogêneo. A osteoartrite, segundo a palestra, deve ser compreendida como uma coleção de diferentes fenótipos clínicos e endótipos moleculares. Em outras palavras, há diferentes “tipos” de osteoartrite, com mecanismos biológicos distintos, que podem exigir estratégias terapêuticas também diferentes.

A janela de oportunidade antes da progressão

Outro eixo da apresentação foi a ideia de intervenção precoce. Assim como ocorreu em outras doenças reumáticas, a osteoartrite começa a ser discutida a partir do conceito de “janela de oportunidade”: um período em que identificar risco, sintomas iniciais ou alterações ainda discretas pode permitir intervenções capazes de retardar ou modificar a evolução da doença.

A prevenção primária foi apresentada como a atuação antes do dano estrutural evidente. Nesse campo, entram fatores de risco modificáveis, como controle do peso, fortalecimento muscular, atividade física adequada, prevenção de lesões articulares, proteção biomecânica e enfrentamento das desigualdades em saúde.

A prevenção secundária foi descrita como a intervenção nos primeiros sinais da doença, especialmente após lesões articulares, como as lesões do ligamento cruzado anterior. Nesses casos, reabilitação neuromuscular, correção de padrões de movimento, fortalecimento, uso de órteses quando indicado e acompanhamento adequado podem ser decisivos para reduzir o risco de progressão.

Já a prevenção terciária foi associada à osteoartrite estabelecida. Nesse estágio, o objetivo é reduzir dor, preservar função, evitar piora da mobilidade, proteger a articulação e melhorar a qualidade de vida. A palestra reforçou que, mesmo quando a doença já está instalada, há espaço para cuidado ativo e não apenas para espera pela substituição articular.

Obesidade vai além do IMC

A obesidade ocupou lugar central na apresentação. O especialista destacou que o peso corporal é um dos fatores modificáveis mais importantes na osteoartrite, sobretudo pelo impacto mecânico nas articulações de carga, como joelhos e quadris. Mas a discussão foi além do IMC.

A obesidade foi apresentada como uma condição biologicamente complexa. O tecido adiposo não atua apenas como reserva de energia; ele também participa de processos inflamatórios. Adiposidade, citocinas, leptina e outros mediadores podem contribuir para inflamação de baixo grau, alterações metabólicas e ativação de vias que influenciam dor e degeneração articular.

A palestra também abordou a tentativa recente de classificar diferentes subgrupos de obesidade, incluindo padrões relacionados ao apetite, à saciedade, à fome emocional e ao gasto energético. Essa abordagem pode ajudar a explicar por que estratégias uniformes de perda de peso nem sempre funcionam da mesma forma para todos.

Nesse contexto, os agonistas do receptor de GLP-1, como a semaglutida, foram citados como uma área de grande interesse científico. Em estudo mencionado durante a sessão, o uso semanal de semaglutida em pessoas com obesidade e osteoartrite de joelho foi associado à perda de peso sustentada ao longo de 68 semanas e à redução significativa da dor. Um ponto considerado especialmente relevante foi a diminuição gradual do uso de analgésicos, incluindo paracetamol, anti-inflamatórios e, em pequeno número de participantes, opioides.

O especialista ponderou que ainda há muito a ser investigado, especialmente para compreender se esses medicamentos atuam apenas pela perda de peso ou se também podem ter efeitos anti-inflamatórios e protetores sobre tecidos articulares. Mesmo assim, a mensagem foi clara: a interface entre obesidade, metabolismo e osteoartrite tende a ocupar espaço crescente nas pesquisas e nas futuras estratégias de cuidado.

Educação, exercício e proteção articular seguem como fundamentais

Apesar do entusiasmo com novas possibilidades terapêuticas, a apresentação reforçou que o cuidado da osteoartrite continua começando por educação, tratamento não farmacológico e mudanças sustentáveis no estilo de vida.

A educação em saúde foi apresentada como parte essencial do tratamento. Pessoas com osteoartrite precisam compreender a doença, reconhecer fatores de risco, saber como proteger suas articulações, manter-se em movimento com segurança e participar das decisões sobre o próprio cuidado.

O fortalecimento muscular, especialmente dos grupos musculares que estabilizam as articulações, foi destacado como medida fundamental. A atividade física, quando bem orientada, não deve ser vista como ameaça, mas como ferramenta de preservação funcional. A proteção articular, o uso de órteses em situações específicas, a redução de carga quando necessária e a reabilitação individualizada também foram apontados como componentes importantes.

A mensagem se aproxima de uma mudança cultural: a osteoartrite não deve ser tratada como destino inevitável do envelhecimento, mas como uma condição que pode ser prevenida, acompanhada e manejada com intervenções adequadas ao perfil de cada pessoa.

Nos minutos finais, a apresentação avançou para o campo das terapias voltadas à cartilagem e à modificação da doença. Foram citadas linhas de pesquisa envolvendo fatores de crescimento, inibidores de vias moleculares, terapias relacionadas à senescência celular, biomateriais, terapias celulares, células-tronco, células pluripotentes induzidas e exossomos.

A regeneração de cartilagem foi apresentada como uma área de intensa investigação, mas ainda marcada por limites importantes. Técnicas como microfratura, ACI e MACI já têm aplicação clínica em contextos específicos, enquanto estratégias com exossomos, senolíticos, senomórficos e produtos celulares permanecem em diferentes fases de pesquisa.

O pesquisador explicou que, nas terapias celulares, a expectativa não está apenas em “recriar” cartilagem, mas também em modular o ambiente inflamatório da articulação. O chamado secretoma das células-tronco — conjunto de substâncias liberadas por essas células — pode influenciar a biologia da sinóvia, da cartilagem e de outros tecidos articulares. Ainda assim, a apresentação foi cautelosa: há grande esforço científico, mas a transição entre promessa experimental e benefício clínico consistente exige estudos robustos.

Também foram mencionadas tentativas anteriores de inibir enzimas catabólicas envolvidas na degradação da cartilagem. Muitas falharam, mas contribuíram para ampliar o conhecimento sobre os mecanismos da doença. Esse aprendizado, segundo a palestra, ajuda a orientar uma nova geração de pesquisas mais focadas em subgrupos de pacientes e mecanismos específicos.

O futuro do tratamento pode estar na estratificação dos pacientes

A conclusão da apresentação foi uma das mensagens mais importantes para pacientes, profissionais de saúde e formuladores de políticas públicas: a osteoartrite não é uma doença única. Esse reconhecimento pode mudar o futuro do cuidado. Se diferentes pessoas têm diferentes mecanismos de dor, inflamação, dano estrutural, obesidade, fragilidade muscular, envelhecimento biológico ou comorbidades metabólicas, então o tratamento também precisa deixar de ser uniforme.

A estratificação de pacientes — por fenótipos clínicos, biomarcadores, imagem, função, dor e características metabólicas — pode abrir caminho para terapias mais personalizadas. Essa abordagem também pode ajudar a selecionar melhor participantes para estudos clínicos, identificar quem tem maior risco de progressão e definir quais intervenções têm maior chance de funcionar em cada perfil.

No PARE/EULAR 2026, a osteoartrite foi apresentada não apenas como um problema de cartilagem, mas como uma condição de saúde pública, marcada por dor, desigualdade, envelhecimento, obesidade, mobilidade e qualidade de vida. A palestra reforçou que o futuro do cuidado dependerá de uma combinação entre prevenção, educação, reabilitação, inovação terapêutica e escuta qualificada das pessoas que vivem com a doença.

Sobre PARE/EULAR

PARE é a comunidade da EULAR formada por organizações nacionais de pessoas com artrite, reumatismo e outras doenças reumáticas e musculoesqueléticas. Sua missão é garantir que a voz das pessoas que vivem com essas condições seja ouvida na pesquisa, na assistência, na educação, na formulação de políticas públicas e nas decisões que afetam sua vida cotidiana.

EULAR, European Alliance of Associations for Rheumatology, é a Aliança Europeia de Associações de Reumatologia. A entidade reúne sociedades científicas, profissionais de saúde e organizações de pacientes, promovendo pesquisa, educação, advocacy e melhores práticas no cuidado das doenças reumáticas e musculoesqueléticas. O Congresso Europeu de Reumatologia é um dos principais encontros internacionais da área, reunindo especialistas, pesquisadores, profissionais de saúde, pacientes e representantes da sociedade civil.

Declaração de transparência

A jornalista Priscila Torres, coordenadora de advocacy da BioRed Brasil e do Grupar-BR e autora do Blog Artrite Reumatoide, participou do PARE/EULAR 2026, em Londres, a convite da AbbVie do Brasil. Esta reportagem reflete sua análise jornalística independente sobre os debates acompanhados durante o evento.

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