A esclerose sistêmica é uma doença rara do tecido conjuntivo caracterizada por manifestações autoimunes e vasculares, causando fibrose da pele e de órgãos internos. A EULAR – Aliança Europeia de Associações de Reumatologia – tem como foco a esclerose sistêmica por ser a doença reumática com as maiores taxas de morbidade e mortalidade. Novos dados apresentados no Congresso EULAR 2026 destacam complicações importantes da doença e trazem esperança para uma possível nova estratégia terapêutica.
O acometimento cardíaco primário (pCI) é um importante fator de morbidade e mortalidade em pessoas com esclerose sistêmica, e suas manifestações iniciais podem não ser reconhecidas, especialmente quando não há rastreamento sistemático na prática clínica. No Congresso EULAR 2026, em Londres, Shirkhan Amikishiyev apresentou dados sobre a prevalência basal e os correlatos clínicos do pCI no registro SOLAR, resumindo a incidência durante o acompanhamento de 372 pacientes.
No início do estudo, o pCI estava presente em 6,5% dos pacientes — um número relativamente pequeno que pode refletir as práticas de notificação do mundo real e a possibilidade de que a doença subclínica esteja sub-representada em registros. Os fatores associados incluíram idade mais avançada, subtipo cutâneo difuso, miosite, hipertensão arterial pulmonar, síndrome de sobreposição e hipertensão arterial, compondo um perfil clínico de maior risco.
Entre aqueles sem pCI no início do acompanhamento, cerca de 2% desenvolveram a condição posteriormente. O surgimento desses novos casos sugere que uma única avaliação inicial pode não identificar o envolvimento cardíaco em evolução, reforçando a necessidade de avaliações cardíacas estruturadas e repetidas em pacientes com esclerose sistêmica, especialmente aqueles com acometimento multissistêmico.
Um pôster apresentado no congresso também explorou aspectos relacionados à progressão da doença e ao prognóstico. Embora a abordagem Very Early Diagnosis of Systemic Sclerosis (VEDOSS) tenha melhorado a identificação precoce da esclerose sistêmica em pessoas com fenômeno de Raynaud, os modelos prognósticos atuais baseiam-se principalmente em características clínicas ou sorológicas isoladas, sem captar adequadamente as complexas interações entre fatores demográficos, perfis imunológicos, carga inflamatória e envolvimento subclínico de órgãos.
Vincenzo Venerito e colaboradores utilizaram uma técnica de aprendizado de máquina não supervisionado para identificar fenótipos clínicos distintos entre 238 pacientes com VEDOSS, com o objetivo de avaliar diferenças na velocidade e no momento da progressão da doença.
A análise identificou três grupos distintos:
Grupo 1: pacientes mais jovens, com início precoce do fenômeno de Raynaud, mínimo envolvimento clínico e subclínico de órgãos, baixos marcadores inflamatórios e baixa prevalência de autoanticorpos. Este grupo apresentou o menor risco de progressão para esclerose sistêmica definida (21,4%) e o maior período livre da doença.
Grupo 2: pacientes com idade intermediária no início do fenômeno de Raynaud, características vasculopáticas e cutâneas mais evidentes e maior prevalência de anticorpos anticentrômero. Esse grupo apresentou risco intermediário de progressão (39,4%) e evolução relativamente lenta da doença.
Grupo 3: pacientes mais velhos, com início mais tardio dos sintomas, maior carga inflamatória, acometimento cardiopulmonar e gastrointestinal precoce, maior prevalência de anticorpos antitopoisomerase e evidências de disfunção orgânica subclínica. Este grupo apresentou o maior risco de progressão (58,0%) e um tempo significativamente menor até a evolução da doença.
Segundo os autores, essa estratificação fenotípica pode contribuir para melhorar a precisão prognóstica precoce, permitindo monitoramento personalizado e estratégias terapêuticas adaptadas ao risco em pessoas com doença muito inicial.
A esclerose sistêmica é uma doença imunofibrótica. Um dos objetivos das recomendações da EULAR de 2023 é ampliar as opções terapêuticas para melhorar os desfechos clínicos. Recentemente, demonstrou-se que a inibição seletiva da PDE4B pode ser eficaz na fibrose pulmonar intersticial progressiva, levantando a hipótese de que seus efeitos fibroimunomoduladores possam representar uma estratégia promissora também para a esclerose sistêmica.
Até o momento, os padrões de expressão celular nos tecidos afetados pela doença não haviam sido avaliados de forma sistemática. Contudo, uma apresentação oral realizada em 5 de junho trouxe novas evidências. Para o pulmão, foram integrados dois conjuntos de dados de sequenciamento de RNA de célula única: um com amostras de doença pulmonar intersticial associada à esclerose sistêmica (ES-DPI) e outro com amostras de fibrose pulmonar idiopática (FPI), além de controles saudáveis.
Também foi realizado sequenciamento de RNA de célula única em células mononucleares do sangue periférico (PBMCs) de pacientes com doença precoce e ativa e de controles pareados por idade.
A análise revelou aumento da expressão de PDE4B em diversos tipos celulares, incluindo células T CD8+ e CD4+ na ES-DPI e na FPI quando comparadas aos controles, com regulação ainda mais elevada na ES-DPI em relação à FPI. Nas PBMCs, a expressão foi significativamente maior em células B, células T CD8+ e monócitos de pacientes com esclerose sistêmica.
Como outro órgão-alvo importante da doença, a pele também foi analisada por meio de dados de sequenciamento de RNA de célula única, revelando aumento da expressão de PDE4B em populações mieloides e linfoides de pacientes com esclerose sistêmica. Estudos de imuno-histoquímica confirmaram o aumento da expressão da proteína PDE4B na pele.
Ao apresentar os resultados, Astrid Hofman afirmou:
“De modo geral, a expressão da PDE4B surge como uma característica compartilhada entre diferentes tecidos na esclerose sistêmica, reforçando sua relevância como um potencial alvo terapêutico.”
Esses achados sugerem que a PDE4B pode representar um novo alvo terapêutico promissor para a esclerose sistêmica, abrindo caminho para futuras pesquisas e possíveis tratamentos direcionados.
Sobre a EULAR
A EULAR é a organização europeia que reúne sociedades científicas, associações de profissionais de saúde e organizações de pessoas com doenças reumáticas e musculoesqueléticas. Seu objetivo é reduzir o impacto dessas doenças na vida das pessoas e na sociedade, além de promover melhorias no tratamento, prevenção e reabilitação. A entidade fomenta a excelência em educação e pesquisa em reumatologia, promove a aplicação dos avanços científicos na prática clínica e defende o reconhecimento das necessidades das pessoas que convivem com doenças reumáticas e musculoesqueléticas junto às instituições da União Europeia.
Fonte: EULAR Press Release
*Cobertura de imprensa de EULAR 2026, realizado pela jornalista, Priscila Torres com incentivo social da Abbvie do Brasil.
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