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Home Colunas da Pri

Workshop global da HTAi 2026, conhecimento dos pacientes é defendido como eixo para decisões mais justas em saúde

por Priscila Torres
26/06/2026
em Colunas da Pri, Eventos, HTAI, Notícias
Workshop global da HTAi 2026, conhecimento dos pacientes é defendido como eixo para decisões mais justas em saúde

Encontro realizado em Istambul reuniu representantes de pacientes, especialistas em avaliação de tecnologias em saúde, governo, academia e indústria para discutir como a experiência vivida pode fortalecer sistemas de saúde orientados às necessidades das comunidades

Em uma sala marcada pela diversidade de sotaques, países, experiências e sistemas de saúde, uma pergunta simples abriu um dos debates mais relevantes do HTAi 2026: o que precisa acontecer para que um medicamento, uma tecnologia ou um procedimento chegue, de fato, até o paciente? A questão, lançada aos participantes do workshop WS12 – “Strengthening Health Technology Assessment With Patient Knowledge To Shape Health Systems For Community Needs”, conduziu uma jornada de oito horas sobre acesso, participação social e avaliação de tecnologias em saúde. Realizado no domingo, 7 de junho, das 9h às 17h, dentro da trilha Stakeholder Engagement in HTA, o workshop foi liderado pelo Patient and Citizen Involvement Interest Group da HTAi, grupo internacional dedicado ao fortalecimento da participação de pacientes e cidadãos nos processos de Health Technology Assessment, conhecida no Brasil como Avaliação de Tecnologias em Saúde, ou ATS.

Mais do que uma atividade introdutória, o encontro se transformou em um laboratório vivo de aprendizagem entre pares. Representantes de diferentes jurisdições foram convidados a compartilhar como seus países avaliam, aprovam, financiam ou deixam de financiar tecnologias em saúde. O resultado foi uma fotografia global de desigualdades, avanços e desafios: em muitos lugares, a aprovação regulatória não garante acesso; em outros, o reembolso demora anos; em alguns países, o paciente ainda não tem espaço formal para falar; e, em experiências mais avançadas, sua voz começa a ser reconhecida como elemento indispensável para decisões mais legítimas, transparentes e conectadas à vida real.

A ATS para além dos números

O workshop foi desenhado como uma simulação de HTA, com atividades interativas, troca de experiências e consulta a uma obra de referência de acesso aberto sobre participação de pacientes em avaliação de tecnologias em saúde. A proposta foi apresentar, de forma acessível, como o conhecimento produzido pelas comunidades de pacientes pode contribuir em diferentes momentos do ciclo decisório: desde a definição de necessidades não atendidas até a análise de valor, impacto, qualidade de vida, preferências, experiências com tratamentos e barreiras concretas de acesso.

A discussão partiu de uma premissa central: a ATS não pode ser vista apenas como um exercício técnico de análise de evidências clínicas e econômicas. Ela também precisa responder a perguntas sociais e humanas. O tratamento melhora indicadores clínicos, mas também permite que a pessoa volte a trabalhar? Reduz dor, fadiga, dependência ou isolamento? É viável para quem mora longe de centros especializados? Exige deslocamentos frequentes? Está disponível no tempo certo? Respeita as diferenças territoriais, culturais e econômicas? Essas dimensões, muitas vezes invisíveis nos ensaios clínicos, emergem da experiência vivida. Por isso, a participação do paciente não deve ser tratada como concessão simbólica, mas como parte da construção de evidências mais completas e decisões mais justas.

Um grupo global com duas décadas de construção

Na abertura, foi apresentado o trabalho do grupo de interesse da HTAi voltado ao envolvimento de pacientes e cidadãos. Criado em 2005, o grupo completou duas décadas de atuação consolidando metodologias, ferramentas, guias e espaços de cooperação internacional. Atualmente, reúne centenas de membros de dezenas de países, incluindo representantes da academia, indústria, governos, agências de ATS, organizações de pacientes e consultorias.

Entre os materiais desenvolvidos pelo grupo, foram destacados modelos de submissão de contribuições de pacientes, guias para participação em processos de avaliação, valores e padrões para envolvimento significativo e recursos voltados a apoiar países com diferentes níveis de maturidade institucional. A ideia não é impor um modelo único, mas oferecer caminhos práticos para que cada sistema de saúde possa incorporar, de maneira estruturada, a perspectiva das pessoas afetadas pelas decisões.

O livro de acesso aberto discutido durante o workshop também foi apresentado como instrumento de capacitação global. Com contribuições de mais de uma centena de autores, incluindo pacientes e representantes de organizações, a publicação reúne experiências, métodos e abordagens adotadas em diferentes jurisdições. Para os participantes, a obra funciona como ponte entre teoria e prática: mostra que participação social exige método, preparo, escuta, devolutiva e compromisso institucional.

A pergunta que revelou o abismo entre aprovação e acesso

A dinâmica inicial convidou os participantes a responderem, a partir de suas realidades nacionais, o que precisa acontecer para que um medicamento chegue ao paciente. A resposta, embora variada, revelou um ponto comum: entre a descoberta científica e o uso real há um percurso longo, caro e, muitas vezes, excludente. Foi lembrado que o desenvolvimento de medicamentos pode levar mais de uma década. Antes de chegar ao mercado, uma tecnologia passa por identificação de alvo terapêutico, estudos pré-clínicos, ensaios clínicos em fases sucessivas, avaliação de segurança, eficácia, qualidade de fabricação e autorização regulatória. Mas a autorização para comercialização, por si só, não significa que o paciente terá acesso ao tratamento.

É neste ponto que entra a ATS. Depois que uma tecnologia é considerada segura e eficaz pela autoridade regulatória, os sistemas de saúde precisam decidir se irão financiá-la, para quem, em quais condições e com qual impacto orçamentário. Essa decisão costuma envolver análise de efetividade clínica, custo-efetividade, impacto financeiro, comparação com alternativas existentes e avaliação de necessidades não atendidas. O problema é que, quando essa avaliação acontece sem a voz dos pacientes, corre-se o risco de reduzir o valor de uma tecnologia a indicadores que não captam integralmente o sofrimento, as prioridades e as consequências práticas da doença na vida cotidiana.

Relatos internacionais expõem barreiras comuns

Os relatos apresentados por participantes de diferentes países deram concretude ao debate.

Na Turquia, foi descrito um sistema em que a autorização regulatória pode ocorrer a partir de aprovações internacionais, como FDA ou EMA, mas a avaliação e o reembolso permanecem diretamente vinculados ao Ministério da Saúde. A crítica apresentada foi a ausência de independência plena da estrutura de HTA e a demora para que medicamentos reembolsados cheguem efetivamente aos pacientes. A tensão é conhecida: quando o Estado paga por quase tudo, a resposta oficial muitas vezes é que o acesso já existe; na prática, porém, a lentidão pode transformar uma cobertura formal em uma espera angustiante.

Na Jordânia, o tratamento oncológico para cidadãos jordanianos foi descrito como coberto pelo governo, mas o diagnóstico e os exames ainda podem gerar custos relevantes. O país opera com diferentes canais de atenção, incluindo setor governamental, militar e instituições especializadas, como centros vinculados à Fundação King Hussein. Essa segmentação faz com que o acesso a medicamentos novos varie conforme o canal de atendimento, criando diferenças dentro do próprio sistema.

Do Egito veio o relato de um processo fortemente conduzido pelas empresas farmacêuticas, que negociam com comitês governamentais e direcionam informações aos médicos prescritores. A paciente ou organização de pacientes, segundo o relato, ainda permanece à margem do processo decisório. A esperança manifestada foi que esse cenário mude nos próximos anos, com maior reconhecimento do papel das comunidades afetadas.

No Marrocos, uma representante de pacientes com câncer descreveu a dificuldade de acesso a terapias inovadoras, especialmente medicamentos de alto custo, terapias-alvo e imunoterapias. Mesmo quando há algum nível de cobertura, pacientes podem precisar pagar primeiro e aguardar reembolso, algo inviável para muitas famílias. Em situações excepcionais, cada pessoa precisa demonstrar individualmente que aquele tratamento é sua única alternativa, enfrentando um caminho administrativo pesado no momento em que já convive com o impacto físico, emocional e financeiro da doença.

Do Quênia, o relato foi direto: acesso é uma palavra repetida por todos, mas ainda distante para grande parte dos pacientes. O câncer foi apontado como uma das principais causas de morte em ascensão, reforçando a urgência de estruturas de avaliação, financiamento e priorização capazes de responder às necessidades da população.

A Bélgica apresentou um exemplo de participação em construção. Após aprovação pela EMA, os medicamentos passam por uma comissão de reembolso que analisa valor científico, impacto econômico e orçamento. Desde 2025, foi relatada a presença formal de grupos guarda-chuva de pacientes na comissão, ainda sem direito a voto, além de questionários enviados a organizações específicas da doença avaliada. O desafio, no entanto, permanece: os questionários são longos, os prazos curtos e nem sempre as organizações dispõem das informações necessárias para contribuir de forma robusta.

Na Suíça, apesar de ser um país de alta renda e sede de grandes empresas farmacêuticas, foram apontadas barreiras relacionadas à aprovação adicional pela Swissmedic, ao tamanho do mercado, ao custo elevado do sistema e à dificuldade de participação direta de pacientes, especialmente em doenças raras, gravidez ou terapias pediátricas.

A Austrália trouxe a perspectiva dos dispositivos médicos e procedimentos, com um sistema público universal, mas sujeito a filas, e um setor privado caro. O relato mostrou que algumas tecnologias ficam em zonas cinzentas de financiamento: não são medicamentos clássicos, não são dispositivos implantáveis tradicionais, e por isso enfrentam obstáculos adicionais para reembolso.

Escócia e Reino Unido: participação estruturada e desafios de representatividade

A apresentação sobre o Scottish Medicines Consortium (SMC), ofereceu uma visão mais detalhada sobre o caminho entre regulação, ATS e acesso no sistema público escocês. Foi explicado que, no Reino Unido, a autorização regulatória envolve a MHRA, enquanto a avaliação de tecnologias para financiamento no sistema público passa por órgãos como o NICE, na Inglaterra e no País de Gales, e o SMC, na Escócia. O SMC avalia medicamentos a partir de submissões feitas pela indústria. Seu comitê reúne cerca de 28 membros, incluindo clínicos, farmacêuticos, economistas da saúde, gestores do NHS e representantes públicos. Esses membros públicos participam da decisão e contribuem com uma visão da sociedade, embora não representem uma doença específica.

Além disso, representantes de organizações de pacientes podem participar das reuniões, apresentar contribuições, responder perguntas e ajudar o comitê a compreender o impacto real da condição e do tratamento. A experiência escocesa mostra que há diferentes camadas de participação: a perspectiva pública mais ampla, a contribuição de organizações de pacientes e a evidência gerada a partir de experiências vividas. Para doenças raras, foi apresentado o chamado Ultra Orphan Pathway, voltado a tecnologias destinadas a populações muito pequenas. Nesses casos, a Escócia pode permitir acesso gerenciado enquanto coleta evidências do mundo real. Após um período de uso, os dados são reavaliados para apoiar uma decisão mais definitiva sobre financiamento. Essa abordagem reconhece que, em doenças raras, os ensaios clínicos tradicionais nem sempre conseguem produzir o mesmo volume de evidência disponível para doenças comuns.

O Brasil como referência em participação social

Um dos momentos de maior destaque do workshop foi a apresentação da experiência brasileira. O Brasil foi citado como exemplo importante de participação social institucionalizada, com base constitucional e presença formal da sociedade nas estruturas de formulação, acompanhamento e controle das políticas públicas de saúde. Foi explicado que, no Brasil, a Anvisa atua na aprovação regulatória de medicamentos e tecnologias, enquanto a Conitec avalia a incorporação ao Sistema Único de Saúde. Antes de uma tecnologia chegar ao SUS, é necessário que ela passe por um processo de avaliação que considera evidências científicas, aspectos econômicos, impacto orçamentário e contribuições sociais.

A participação do Conselho Nacional de Saúde na Conitec foi apresentada como expressão concreta da democracia sanitária brasileira. O CNS não apenas acompanha políticas: ele integra a estrutura de controle social do SUS, participa da avaliação de políticas públicas, debate financiamento, programas e prioridades do Ministério da Saúde. A participação de Priscila Torres, da BioRed Brasil, trouxe ao debate a dimensão da representação coletiva. Ao apresentar a atuação de um movimento que reúne dezenas de associações de pacientes em diferentes áreas terapêuticas — câncer, doenças cardiovasculares, diabetes, reumatologia, doenças raras e oncologia —, a fala brasileira mostrou que a experiência do paciente não se limita ao depoimento individual. Ela também pode ser organizada, sistematizada e apresentada como contribuição coletiva para decisões nacionais.

O Brasil foi lembrado como país de dimensões continentais, onde a descentralização entre União, estados e municípios pode gerar diferenças na qualidade do cuidado. Ainda assim, a avaliação nacional pela Conitec, as diretrizes clínicas e as compras centralizadas foram apontadas como mecanismos para buscar equidade, reduzindo desigualdades territoriais e ampliando a previsibilidade do acesso. A experiência brasileira também evidenciou uma contradição comum em sistemas universais: mesmo com políticas públicas estruturadas, pacientes ainda recorrem ao Judiciário para obter tecnologias não disponíveis ou não reembolsadas. Esse fenômeno mostra que a incorporação formal é fundamental, mas não suficiente. É preciso garantir orçamento, logística, pactuação federativa e implementação no tempo real da necessidade do paciente.

Paciente não é apenas fonte de história: é fonte de evidência

Ao longo do workshop, os facilitadores reforçaram que o envolvimento de pacientes deve ser entendido em duas dimensões complementares. A primeira é a participação direta nos processos de ATS: pacientes e organizações podem ser consultados, participar de reuniões, apresentar depoimentos, responder questionários, enviar contribuições em consultas públicas, compor comitês ou colaborar na definição de perguntas relevantes para avaliação. A segunda é a produção de evidência baseada no paciente. Isso inclui estudos de experiência, pesquisas de preferência, desfechos relatados por pacientes, experiências relatadas por pacientes, relatos de carga da doença, barreiras de adesão, impacto no trabalho, na família, na saúde mental, no autocuidado e na autonomia. Essa distinção é importante porque amplia o lugar do paciente. Ele não participa apenas para emocionar o comitê ou “humanizar” a decisão. Ele pode produzir conhecimento, orientar perguntas de pesquisa, revelar desfechos negligenciados, identificar necessidades não atendidas e indicar se uma tecnologia é viável na prática.

A pergunta central, no entanto, permaneceu aberta: a participação dos pacientes tem realmente mudado decisões? Em várias jurisdições, pacientes dedicam tempo, energia e recursos para preparar submissões, responder questionários e participar de reuniões. Mas ainda há dificuldade em demonstrar, de forma transparente, como essa contribuição influencia a deliberação final. O desafio global é fazer com que a escuta deixe de ser apenas processo e se torne impacto mensurável.

O desafio dos dados qualitativos

Um dos pontos mais sensíveis do debate foi a dificuldade que muitos sistemas têm para lidar com evidências qualitativas. A ATS tradicional foi historicamente construída em torno de ensaios clínicos, análises estatísticas, modelos econômicos e indicadores mensuráveis. A experiência do paciente, por outro lado, muitas vezes chega em forma de narrativa, entrevista, grupo focal, survey, estudo observacional ou relato de vida. Isso não significa que seja menos rigorosa. Significa que exige outros métodos de coleta, análise e interpretação.

Os participantes discutiram que pesquisas conduzidas por organizações de pacientes podem ser consideradas evidência, desde que apresentem método, clareza, transparência e relação com a pergunta decisória. Grandes organizações podem contar com apoio acadêmico para produzir estudos mais robustos, mas sistemas de ATS também precisam reconhecer que nem todas as comunidades têm os mesmos recursos. Em doenças raras, grupos pequenos e países de baixa ou média renda, a ausência de grandes estudos não deve ser confundida com ausência de necessidade. A equidade exige que a ATS desenvolva formas proporcionais de considerar diferentes tipos de conhecimento.

Da consulta passiva à parceria ativa

O workshop mostrou que o mundo da ATS está diante de uma transição. Durante anos, pacientes foram chamados apenas ao final do processo, quando decisões já estavam praticamente desenhadas. Hoje, cresce a compreensão de que sua participação precisa ocorrer desde o início, na definição das perguntas, na identificação dos desfechos que importam, na discussão sobre aceitabilidade dos riscos, na avaliação de impacto social e na implementação das decisões. Essa mudança exige capacitação dos dois lados. Pacientes e organizações precisam compreender os processos de ATS, os critérios de avaliação, as etapas regulatórias e as formas de apresentar evidências. Por outro lado, agências, governos e especialistas precisam aprender a escutar, valorizar e incorporar esse conhecimento de maneira real, sem transformar a participação em formalidade.

O valor do workshop esteve justamente nessa troca horizontal. Iniciantes em ATS puderam aprender com especialistas; representantes de países com processos mais estruturados ouviram realidades de países onde o acesso ainda é frágil; pacientes perceberam que seus desafios locais fazem parte de uma agenda global; e tomadores de decisão foram lembrados de que cada avaliação técnica tem consequências concretas sobre vidas, famílias e comunidades.

As decisões sobre tecnologias não são neutras

Realizado no contexto do HTAi 2026, cujo tema central discute a ATS como instrumento capaz de moldar sistemas de saúde, o WS12 reforçou que as decisões sobre tecnologias não são neutras. Elas definem prioridades, distribuem recursos, orientam políticas públicas e determinam quem terá acesso à inovação e quem continuará esperando. Ao colocar o conhecimento dos pacientes no centro da discussão, o workshop apresentou uma mensagem clara: sistemas de saúde mais justos não serão construídos apenas com evidência clínica e análise econômica. Eles precisam incorporar os valores, as necessidades e as experiências das comunidades que dependem dessas decisões.

A ATS do futuro deverá ser mais participativa, transparente, responsiva e comprometida com equidade. Isso significa reconhecer que o paciente não é apenas destinatário da política pública. É sujeito de conhecimento, ator social, produtor de evidência e parte legítima da governança em saúde. Ao final do encontro, a pergunta inicial continuava ecoando: o que precisa acontecer para que uma tecnologia chegue ao paciente? A resposta construída coletivamente em Istambul foi mais ampla do que uma etapa regulatória ou uma decisão de reembolso. Para que a tecnologia chegue ao paciente, é preciso ciência, avaliação, financiamento, governança, implementação e, sobretudo, escuta qualificada. É preciso reconhecer que nenhuma decisão sobre saúde será plenamente justa se não considerar quem vive, no corpo e na rotina, as consequências dessa decisão. O WS12 deixou como legado uma convocação: transformar a participação do paciente de promessa em prática, de consulta em parceria, de relato individual em evidência reconhecida, e de presença simbólica em poder real de influência sobre os sistemas de saúde.

 

Voz do paciente precisa entrar antes da decisão, e não apenas no fim do processo

Segunda parte do encontro aprofundou o papel da experiência vivida, dos dados de mundo real e da participação de pacientes em comitês de avaliação e reembolso de tecnologias em saúde

A segunda etapa do workshop “Strengthening Health Technology Assessment With Patient Knowledge To Shape Health Systems For Community Needs”, realizado durante o HTAi 2026, em Istambul, ampliou uma reflexão iniciada pela manhã: se a Avaliação de Tecnologias em Saúde, conhecida internacionalmente como HTA e no Brasil como ATS, define quais tratamentos serão financiados pelos sistemas de saúde, então a experiência de quem vive com a doença não pode chegar tarde demais ao processo.

Depois de discutir os diferentes caminhos de acesso a medicamentos em países como Brasil, Turquia, Jordânia, Marrocos, Egito, Quênia, Bélgica, Austrália, Canadá, Escócia e Suíça, o workshop avançou para uma questão ainda mais profunda: em que momento o conhecimento do paciente deve ser incorporado? A resposta construída ao longo das apresentações e debates foi clara: a participação do paciente não deve se limitar ao momento da decisão de incorporação ou reembolso. Ela precisa atravessar todo o ciclo de vida da tecnologia — desde o desenho dos ensaios clínicos, a escolha dos desfechos, a definição dos comparadores, a produção de evidências, a avaliação econômica, a decisão de financiamento, o acesso gerenciado e a coleta de dados de mundo real. Em outras palavras, quando o paciente é chamado apenas no final, muitas vezes já é tarde.

O limite dos ensaios clínicos tradicionais

A discussão começou com uma provocação sobre o modelo tradicional de produção de evidências. Em muitas áreas terapêuticas, especialmente nas doenças mais prevalentes, os ensaios clínicos contam com milhares de participantes, acompanhamento estruturado, comparadores definidos e desfechos consolidados. Esse modelo permite avaliar segurança, eficácia e benefício clínico com maior robustez estatística. Mas esse padrão nem sempre é possível. Nas doenças raras, por exemplo, os estudos costumam ter poucos participantes, curta duração e muitas incertezas. Em algumas condições, não existe tratamento aprovado para comparação. Em outras, a nova tecnologia é avaliada contra placebo, cuidado de suporte, corticoides, terapias não específicas ou simplesmente contra a ausência de alternativa terapêutica.

Esse cenário desafia os modelos tradicionais de HTA. Como medir o valor de uma tecnologia quando não há comparador ideal? Como avaliar benefício clínico quando os desfechos tradicionais não capturam o que realmente muda na vida da pessoa? Como decidir sobre reembolso quando a evidência é promissora, mas ainda limitada? Foi nesse ponto que o workshop reforçou a importância da evidência produzida a partir da experiência dos pacientes. Em contextos de incerteza, o conhecimento de quem vive com a condição pode ajudar a interpretar o que significa benefício, risco, tolerabilidade, impacto funcional e melhora real da qualidade de vida.

“Eu não tenho endpoints. Eu tenho vida”

Um dos momentos mais marcantes da discussão foi a reflexão sobre os chamados “endpoints”, ou desfechos dos estudos clínicos. Para os pesquisadores, endpoints são medidas usadas para avaliar se uma tecnologia funciona: redução de tumor, controle de pressão arterial, sobrevida, remissão, melhora de biomarcadores, redução de crises, entre outras. Mas, para os pacientes, a pergunta costuma ser outra. O tratamento permite viver mais? Permite viver melhor? Reduz dor? Diminui fadiga? Evita internações? Permite trabalhar? Reduz a dependência de cuidadores? Facilita a rotina? Pode ser administrado em casa? Exige deslocamentos frequentes? Traz efeitos adversos que inviabilizam a vida cotidiana?

A provocação foi direta: pacientes não vivem em endpoints. Vivem em dias, sintomas, limitações, responsabilidades familiares, trabalho, escola, deslocamentos, custos indiretos, medos e expectativas. Por isso, uma tecnologia segura e eficaz do ponto de vista clínico pode não ser aceitável ou viável na vida real se exigir internações frequentes, múltiplas infusões, monitoramento complexo, efeitos adversos difíceis de manejar ou suporte que o sistema de saúde não consegue oferecer. A avaliação do valor terapêutico precisa considerar não apenas se a tecnologia funciona, mas como ela se encaixa na vida de quem precisa dela.

Qualidade de vida ainda disputa espaço com custo e orçamento

O workshop também abordou uma tensão central da ATS: a distância entre o que importa para o paciente e o que costuma pesar nas decisões de financiamento. Para os pagadores e sistemas de saúde, a pergunta inevitável é: o tratamento é acessível do ponto de vista orçamentário? O sistema consegue pagar? Qual é o impacto sobre o orçamento público ou privado? Quanto custa oferecer essa tecnologia a uma população elegível? Essa discussão é legítima. Nenhum sistema de saúde tem recursos infinitos. Porém, o alerta feito durante o workshop foi que a análise econômica não pode ignorar dimensões sociais, familiares e produtivas. Um tratamento pode reduzir hospitalizações, permitir retorno ao trabalho, diminuir dependência de cuidadores, reduzir uso de serviços de emergência e melhorar autonomia. Mas, muitas vezes, esses ganhos aparecem fora do orçamento específico do medicamento.

Esse é um dos grandes desafios: uma tecnologia pode gerar economia ou valor para o sistema de saúde como um todo, para a sociedade e para as famílias, mas ainda assim ser vista como cara dentro do orçamento farmacêutico. A fala dos participantes evidenciou que os sistemas de HTA precisam evoluir para captar melhor esse “valor ampliado” dos tratamentos. Isso inclui qualidade de vida, produtividade, cuidado informal, impacto sobre cuidadores, participação social, estigma, autonomia, saúde mental e capacidade de retomar projetos de vida.

O paciente precisa participar antes do desenho do estudo

Um dos consensos mais fortes do workshop foi que o envolvimento do paciente precisa ocorrer antes mesmo do início dos ensaios clínicos. Quando pacientes participam apenas na fase de reembolso, podem tentar explicar ao comitê que determinado desfecho não traduz sua realidade. Mas, nesse momento, o estudo já foi desenhado, os dados já foram coletados e as lacunas já estão instaladas. O paciente chega para defender uma evidência que não ajudou a construir.

Por isso, os participantes defenderam o envolvimento precoce das comunidades de pacientes no desenvolvimento clínico das tecnologias. Essa participação pode ajudar a definir desfechos relevantes, identificar comparadores adequados, prever barreiras de adesão, discutir formas de administração, avaliar tolerabilidade, antecipar necessidades de suporte e tornar os estudos mais conectados ao mundo real. Em áreas como câncer, doenças raras, doenças neurológicas, doenças imunomediadas e condições crônicas incapacitantes, essa discussão é ainda mais urgente. Há tecnologias inovadoras, terapias personalizadas e tratamentos de alto custo chegando aos sistemas de saúde, mas muitos instrumentos de avaliação continuam baseados em medidas antigas, pouco sensíveis ou incapazes de refletir mudanças importantes para os pacientes.

A pergunta que emergiu do debate foi contundente: como convencer academia, indústria, reguladores e agências de HTA a criarem novos instrumentos de medida, validados com participação de pacientes, quando os instrumentos existentes já não capturam adequadamente a vida real? A resposta apontou para a co-criação. Não basta pedir que os pacientes respondam questionários. É preciso que pacientes, pesquisadores, médicos, estatísticos, especialistas em desfechos relatados por pacientes, indústria e tomadores de decisão construam juntos novas formas de medir valor. Outro ponto central foi a valorização da evidência qualitativa. Nem tudo que importa pode ser traduzido em números. Estigma, medo, isolamento, impacto familiar, vergonha, perda de autonomia, dificuldade de manter vínculos sociais ou sofrimento relacionado à imprevisibilidade da doença muitas vezes não aparecem nos indicadores tradicionais.

Ainda assim, esses elementos moldam profundamente a experiência do adoecimento. Durante o debate, foi destacada a necessidade de desenvolver estruturas mais claras para que a evidência qualitativa seja considerada nos processos de HTA. Hoje, muitos comitês ainda têm dificuldade de incorporar relatos, entrevistas, grupos focais, estudos de experiência e pesquisas conduzidas por organizações de pacientes. A consequência é que aspectos essenciais da vida com a doença podem ser reconhecidos como importantes, mas não necessariamente influenciar a decisão final. A ausência de metodologia não deve ser usada como desculpa para ignorar a experiência vivida. Pelo contrário: deve impulsionar o desenvolvimento de novos métodos, mais transparentes e mais adequados à complexidade das decisões em saúde.

Mundo real: a evidência não termina na incorporação

A segunda parte do workshop também aprofundou o papel dos dados de mundo real e da experiência real de uso das tecnologias. Em alguns casos, especialmente nas doenças raras ou em terapias inovadoras, os sistemas de saúde podem conceder acesso condicional ou gerenciado. Isso significa permitir que pacientes recebam a tecnologia enquanto dados adicionais são coletados. Se o tratamento não funcionar, o sistema pode rever a decisão. Se funcionar, a evidência produzida na prática pode fortalecer a continuidade do financiamento e melhorar o entendimento sobre quem mais se beneficia.

Essa abordagem exige participação ativa dos pacientes. São eles que vivenciam os efeitos do tratamento ao longo do tempo, identificam mudanças na rotina, relatam eventos adversos, apontam dificuldades de acesso, adesão e administração, e ajudam a compreender se o benefício observado no estudo se sustenta na vida real. O recado foi claro: o envolvimento do paciente não é um episódio. Não começa e termina na consulta pública ou na reunião do comitê. Deve ser contínuo, acompanhando o ciclo de vida da tecnologia.

Filipinas: quando a lei obriga a presença da sociedade civil

Um dos painéis trouxe experiências concretas de representantes de pacientes que ocupam espaços formais em comitês de avaliação e reembolso. Chris Munoz, das Filipinas, apresentou uma perspectiva relevante ao relatar que, com a Lei de Atenção Universal à Saúde de 2019, tornou-se mandatória a presença de representante da sociedade civil no conselho de HTA do país. Esse detalhe foi destacado como decisivo. Em muitas jurisdições, a participação de pacientes depende de boa vontade, convite eventual ou abertura institucional. Nas Filipinas, a legislação criou uma obrigação: o governo precisa incluir a sociedade civil na estrutura de decisão. A experiência filipina também revelou que aprovar uma tecnologia sem mecanismo de reembolso pode ser inútil para os pacientes. Se um medicamento entra no formulário nacional, mas os hospitais não têm como ser reembolsados, a recomendação positiva não se converte em acesso real.

Por isso, a estratégia relatada foi aproximar o Departamento de Saúde e o seguro nacional de saúde, buscando construir uma lógica em que a recomendação venha acompanhada de mecanismo de financiamento. A participação do paciente, nesse contexto, ajuda a lembrar que uma decisão técnica só tem sentido se alcançar a pessoa certa, no momento certo e com possibilidade real de uso. Chris também explicou que o conselho avalia segurança e eficácia antes de avançar para custo e impacto ético, legal e social. Quando há falhas no sistema de implementação, como baixa cobertura de uma campanha ou ineficiência na entrega de uma tecnologia, a recomendação pode apontar ajustes. Afinal, não basta comprar: é preciso fazer chegar.

Taiwan: do “quarto ao lado” à presença no comitê

A experiência de Taiwan foi apresentada por Eric, representante da Taiwan Young Patient Association e integrante do comitê de avaliação do sistema nacional de seguro de saúde. Seu relato mostrou a trajetória de uma participação conquistada gradualmente. Em 2008, quando a agência de HTA foi criada em Taiwan, pacientes não participavam do processo. Em 2015, surgiu uma plataforma para compartilhamento de opiniões de pacientes. A partir dela, as contribuições passaram a ser incluídas nos relatórios de HTA. Em 2019, pacientes conquistaram o direito de participar do comitê, ainda que inicialmente sem voto.

Antes disso, segundo o relato, o processo era percebido como uma “caixa-preta”. A sociedade sabia quais tecnologias eram aprovadas ou rejeitadas, mas não compreendia como os valores eram discutidos, quais resultados eram esperados ou que critérios guiavam a avaliação. A entrada dos representantes de pacientes permitiu que as opiniões coletadas na plataforma fossem lidas, contextualizadas e defendidas durante as reuniões. Ainda assim, o papel é desafiador. Um representante pode ter origem em uma área, como oncologia, mas ser chamado a apresentar perspectivas de doenças raras, autoimunes ou outras condições. Isso exige formação, preparo, escuta ativa e responsabilidade ética para representar experiências diversas. O caso de Taiwan também trouxe uma reflexão importante: nem sempre a cadeira precisa ser chamada formalmente de “representante de paciente”. Em um sistema nacional de seguro que atende toda a população, a representação pode ser pensada de forma mais ampla, incluindo segurados, usuários e cidadãos. O ponto central é garantir diversidade, legitimidade e capacidade de traduzir necessidades reais para dentro do processo decisório.

Cinco centímetros que mudam uma vida

Um dos exemplos mais potentes apresentados no debate mostrou por que a visão do paciente é indispensável. Foi citado o caso de uma tecnologia capaz de promover pequeno ganho de estatura em pessoas com uma condição que compromete o crescimento. Para alguns decisores, a pergunta poderia parecer simples: por que pagar milhões para que alguém cresça apenas alguns centímetros?

Mas, do ponto de vista do paciente e da família, esses centímetros poderiam significar conseguir usar o banheiro com autonomia, realizar higiene pessoal sem ajuda integral, reduzir a dependência dos pais ou cuidadores e transformar a rotina de cuidado de uma família inteira. Esse exemplo sintetiza o que a evidência clínica isolada pode não revelar. Para o sistema, o desfecho pode parecer pequeno. Para o paciente, pode representar dignidade, autonomia e independência. É exatamente aí que a participação do paciente muda a qualidade da decisão.

Linguagem simples para fortalecer a participação

Outra proposta discutida foi o uso de resumos em linguagem simples, conhecidos como plain language summaries. Esses documentos traduzem informações técnicas de dossiês de HTA para uma linguagem mais acessível aos pacientes e organizações. A proposta não substitui a participação estruturada, mas pode fortalecê-la. Quando uma organização de pacientes recebe informações claras, compreensíveis e não enviesadas sobre a tecnologia em avaliação, consegue contribuir melhor. Isso reduz a assimetria de informação entre indústria, técnicos, agências e sociedade civil.

Foi mencionado que alguns sistemas, como NICE e SMC, já utilizam esse tipo de resumo, e que há interesse em expandir pilotos para outras jurisdições, incluindo países da Ásia e da América Latina. Para países como o Brasil, onde a participação social é uma diretriz constitucional e a consulta pública é um instrumento consolidado da Conitec, a linguagem simples é uma agenda estratégica. Não há participação qualificada sem informação acessível. E não há equidade quando apenas especialistas conseguem compreender o que está em debate.

O workshop também trouxe uma provocação política: para que a qualidade de vida, a produtividade e o impacto social sejam considerados, não basta convencer apenas o comitê técnico. É preciso dialogar com os formuladores de política, gestores, ministérios da saúde, áreas econômicas e instâncias responsáveis pelo orçamento. A saúde não pode ser vista apenas como gasto. Tratamentos adequados podem permitir que pessoas retornem ao trabalho, reduzam afastamentos, mantenham autonomia, diminuam a dependência de cuidadores e participem mais plenamente da sociedade. Esse elo entre saúde e riqueza ainda é subestimado em muitos processos decisórios.

Para os pacientes jovens, esse tema é especialmente relevante. Em Taiwan, por exemplo, foi destacada a importância de demonstrar que investir em jovens com doenças crônicas ou graves pode permitir retorno ao trabalho, continuidade dos estudos, participação familiar e contribuição social. Em sociedades que envelhecem rapidamente, apoiar a população jovem adoecida também é uma política de sustentabilidade social.

O que fica para o Brasil?

Para o Brasil, as discussões do workshop dialogam diretamente com os desafios da Conitec, das consultas públicas e da participação das organizações de pacientes nos processos de incorporação de tecnologias no SUS. O país já possui uma base institucional relevante: controle social, consultas públicas, perspectivas do paciente, participação do CNS e reconhecimento da importância da sociedade civil. Mas o debate internacional mostra que ainda há espaço para avançar em pontos fundamentais.

É necessário fortalecer a produção de evidência baseada no paciente, qualificar as contribuições das organizações, ampliar a devolutiva sobre como a participação influencia as decisões, desenvolver instrumentos para considerar evidências qualitativas, incorporar dados de mundo real e garantir linguagem simples nos processos técnicos. Também é preciso discutir de forma mais transparente o valor ampliado das tecnologias. No SUS, a incorporação não pode considerar apenas o preço do medicamento. Deve considerar também o impacto sobre hospitalizações, judicialização, capacidade laboral, cuidado familiar, deslocamentos, autonomia, desigualdades regionais e continuidade do tratamento. A experiência brasileira, reconhecida internacionalmente pela força da participação social, tem condições de liderar essa agenda. Mas liderança exige transformar a escuta social em método, evidência e influência concreta.

A mensagem final da segunda parte do workshop foi contundente: os pacientes não participam da ATS para emocionar os tomadores de decisão. Participam porque produzem conhecimento que nenhum ensaio clínico, planilha econômica ou modelo estatístico consegue capturar sozinho. Eles sabem o que significa atrasar um tratamento. Sabem o peso de uma infusão distante de casa. Sabem quando um efeito adverso impede a adesão. Sabem quando um pequeno ganho funcional muda a autonomia. Sabem quando uma tecnologia aparentemente equivalente, na prática, transforma a rotina.

A ATS do futuro precisará reconhecer esse conhecimento como parte legítima da decisão. O workshop WS12 mostrou que o debate global já não é mais se os pacientes devem participar. A pergunta agora é como garantir que participem de forma oportuna, estruturada, diversa, transparente e com impacto real. Porque o acesso não é apenas para aprovar uma tecnologia. Acesso é garantir que ela chegue, funcione, faça sentido para a vida das pessoas e seja sustentada por sistemas de saúde capazes de enxergar o paciente como sujeito de direitos, de conhecimento e de transformação.

 

O conhecimento do paciente começa nas perguntas que o sistema ainda não sabe fazer

Em atividade prática sobre uma nova tecnologia para Alzheimer, participantes discutiram como transformar dúvidas da vida real em evidências confiáveis para decisões de ATS

A continuidade do workshop “Strengthening Health Technology Assessment With Patient Knowledge To Shape Health Systems For Community Needs”, realizado durante o HTAi 2026, em Istambul, conduziu os participantes a uma etapa essencial da Avaliação de Tecnologias em Saúde: a construção das perguntas certas. Depois de debater o papel dos pacientes nos processos de decisão, a diferença entre aprovação regulatória e acesso real, os desafios do reembolso e a importância da experiência vivida, o encontro avançou para uma dinâmica prática. A proposta era simples, mas profundamente transformadora: diante de uma nova tecnologia em saúde, quais perguntas precisam ser respondidas para que uma decisão seja justa, confiável e conectada à realidade dos pacientes?

A resposta não veio de uma palestra expositiva. Veio da escuta, da troca entre grupos mistos e da tentativa de colocar, na mesma mesa, diferentes perspectivas: pacientes, representantes da indústria, especialistas, pessoas ligadas a sistemas de saúde, pesquisadores e participantes de organizações sociais. O exercício mostrou que o conhecimento do paciente não aparece apenas no momento de defender uma tecnologia. Ele começa antes, quando a sociedade é convidada a dizer o que realmente precisa saber.

O conhecimento que nasce da experiência

A abertura desta etapa do workshop trouxe uma reflexão importante: comunidades de pacientes acumulam conhecimento. Esse conhecimento, muitas vezes, é subestimado por sistemas de saúde que ainda valorizam quase exclusivamente a formação técnica, os títulos acadêmicos e a autoridade institucional. Mas quem vive com uma condição crônica, rara, progressiva ou incapacitante aprende todos os dias. Aprende sobre sintomas, efeitos de medicamentos, barreiras de acesso, formas de navegar no sistema, horários de atendimento, burocracias, serviços disponíveis, sinais de alerta, medos, expectativas e estratégias de sobrevivência.

O diagnóstico não encerra as perguntas. Ao contrário, ele inaugura uma vida inteira de dúvidas. O paciente pergunta sobre o tratamento, sobre o futuro, sobre a progressão da doença, sobre o risco de piora, sobre a segurança, sobre a rotina familiar, sobre os custos, sobre o transporte, sobre os efeitos adversos, sobre o que pode ou não fazer. Esse conjunto de perguntas é conhecimento. E o workshop mostrou que, quando organizado de forma adequada, ele pode orientar avaliações mais completas e decisões mais humanas.

Um dos pontos mais fortes da discussão foi o reconhecimento de que viver com uma doença não significa apenas receber um diagnóstico e uma prescrição. Entre o diagnóstico e o tratamento existe um caminho complexo, muitas vezes invisível para quem decide políticas públicas. O paciente precisa descobrir onde será atendido, quanto tempo levará para conseguir consulta, se o medicamento estará disponível, se o exame será autorizado, se haverá transporte, se poderá faltar ao trabalho, se terá acompanhante, se entenderá as orientações, se conseguirá retornar ao serviço e se aquela tecnologia realmente caberá em sua vida.

Essa capacidade de navegar o sistema de saúde também foi apresentada como uma forma de conhecimento. É um saber prático, construído na experiência concreta, que revela falhas e oportunidades que nem sempre aparecem nos relatórios técnicos. Da mesma forma, a comunidade de pacientes produz conhecimento coletivo. Quando uma pessoa encontra uma resposta, muitas vezes compartilha com outras. Quando uma dúvida não é respondida oficialmente, a rede de pacientes busca caminhos, troca informações, testa possibilidades e constrói formas próprias de orientação. Esse conhecimento comunitário, quando bem conduzido, pode ser um recurso valioso para a ATS. Ele mostra onde a política pública encontra a vida real.

Da pergunta individual à evidência coletiva

Na dinâmica proposta aos participantes, cada grupo deveria selecionar de três a cinco perguntas consideradas prioritárias. Mas havia uma condição fundamental: não bastava perguntar. Era preciso pensar como obter uma resposta confiável. Essa foi a virada metodológica do exercício. A pergunta do paciente, sozinha, já revela uma necessidade. Mas, para entrar em um processo de ATS, ela precisa ser transformada em evidência. Isso pode ocorrer por diferentes caminhos: revisão de literatura, dados de ensaios clínicos, registros de pacientes, estudos qualitativos, pesquisas com organizações, dados de mundo real, entrevistas, relatos sistematizados, plataformas de participação, estudos de preferência ou informações coletadas por serviços de saúde. O desafio, portanto, não era apenas listar dúvidas. Era construir uma ponte entre a experiência vivida e o processo decisório. Essa ponte é essencial para que pacientes não sejam chamados apenas para dar testemunhos emocionais, mas para contribuir com conhecimento organizado, relevante e útil para a decisão.

O caso hipotético: uma nova tecnologia para Alzheimer

Para orientar a atividade, foi apresentado um cenário hipotético envolvendo uma nova medicina para a doença de Alzheimer. A condição foi descrita como um distúrbio cerebral progressivo, que afeta memória, pensamento, orientação e qualidade de vida. O impacto não recai apenas sobre o paciente, mas também sobre familiares e cuidadores. O cenário previa uma população de pacientes geralmente acima de 65 anos, com oferta inicial para cerca de 500 pessoas. A tecnologia seria administrada em ambiente hospitalar, com revisões mensais, visitas regulares e exames para acompanhar o uso efetivo. O benefício principal apresentado era a possibilidade de retardar a progressão da doença por seis meses.

A partir desse caso, os grupos foram convidados a pensar como uma agência de ATS deveria avaliar a tecnologia. Rapidamente, ficou evidente que a pergunta “o medicamento funciona?” era necessária, mas insuficiente. Os participantes passaram a levantar questões sobre critérios de seleção dos pacientes, indicação futura, exames necessários, tipo de administração, segurança, efeitos adversos, comparadores, padrão atual de cuidado, impacto orçamentário, equidade, capacidade do sistema de saúde e viabilidade de implementação. A discussão revelou que uma avaliação de tecnologia não pode se limitar ao dado clínico principal. Ela precisa perguntar também se a tecnologia é possível, justa, acessível e sustentável.

Seis meses podem significar pouco para o sistema, e muito para uma família

Um dos pontos mais sensíveis do debate foi o significado do benefício clínico apresentado: retardar a progressão da doença por seis meses. Para um avaliador técnico, seis meses podem parecer um desfecho modesto. Para um sistema de saúde pressionado por orçamento, pode surgir a dúvida sobre o custo de financiar uma tecnologia com benefício limitado no tempo. Mas, para uma família que convive com Alzheimer, seis meses podem representar permanência de autonomia, reconhecimento de familiares, capacidade de realizar atividades básicas, menos sobrecarga do cuidador e mais tempo de convivência com qualidade. Essa diferença de interpretação está no centro da contribuição dos pacientes para a ATS.

O valor de uma tecnologia não pode ser medido apenas pela duração média de um efeito. É preciso compreender o que aquele tempo significa na trajetória da doença. Em condições progressivas, especialmente as que afetam cognição e independência, pequenos atrasos na deterioração podem ter grande impacto humano, familiar e social. A pergunta central passa a ser: o que muda na vida da pessoa, da família e do cuidado quando a progressão é adiada?

O peso invisível do cuidado

A atividade também evidenciou a importância dos cuidadores. No caso de Alzheimer, a experiência da doença ultrapassa o paciente. Ela reorganiza a rotina da família, exige acompanhamento contínuo, gera perda de renda, sobrecarga emocional, deslocamentos frequentes e necessidade de apoio para consultas, exames e administração do tratamento. Quando uma tecnologia exige ida mensal ao hospital, o impacto não é apenas clínico. Há tempo de deslocamento, custo de transporte, necessidade de acompanhante, espera no serviço, adaptação da rotina familiar e, em muitos casos, perda de dia de trabalho.

Participantes destacaram que essa “carga do tratamento” precisa ser considerada. Não basta saber se a tecnologia será oferecida em um hospital. É preciso saber em qual hospital, a que distância, com qual frequência, por quanto tempo, em que condições e com qual suporte. A conveniência, muitas vezes tratada como aspecto secundário, pode determinar adesão, continuidade e equidade. Para pacientes idosos, pessoas com deficiência, famílias de baixa renda ou moradores de áreas distantes, a forma de administração pode ser tão decisiva quanto o benefício clínico.

Outro debate importante envolveu a idade e a diversidade dos pacientes. O caso falava em pessoas acima de 65 anos, mas os participantes observaram que essa idade pode significar realidades muito diferentes em cada país. Em algumas sociedades, 65 anos é idade de aposentadoria. Em outras, muitas pessoas ainda trabalham, sustentam famílias e exercem papel econômico ativo. Há também diferenças de expectativa de vida, condições sociais, acesso a diagnóstico, presença de comorbidades e diversidade étnica, territorial e cultural.

O grupo discutiu que uma avaliação adequada precisa perguntar: quem participou dos estudos? A população avaliada representa os pacientes reais que receberão a tecnologia? Foram incluídas pessoas com comorbidades? Houve diversidade de idade, gênero, origem, condição social e contexto geográfico? Os resultados podem ser aplicados a pacientes de diferentes países e sistemas de saúde? Essa reflexão é especialmente relevante para o Brasil, onde desigualdades regionais, raciais, econômicas e territoriais influenciam fortemente o acesso ao diagnóstico, ao tratamento e ao cuidado contínuo. Uma tecnologia pode ser eficaz em um estudo, mas produzir desigualdade se for implementada sem considerar as condições reais da população que dela precisa.

Onde encontrar respostas confiáveis?

O exercício também mostrou que diferentes perguntas exigem diferentes fontes de evidência. Se a dúvida é sobre quem participou dos ensaios clínicos, a resposta pode estar nos estudos publicados e nos dossiês da tecnologia. Se a pergunta é sobre efeitos adversos, a evidência pode vir dos estudos clínicos, da farmacovigilância e dos dados de mundo real. Se a questão é sobre deslocamento, perda de renda, impacto nos cuidadores ou dificuldade de comparecer ao hospital, talvez a resposta precise vir de pesquisas com pacientes, registros, entrevistas, questionários ou estudos conduzidos por organizações sociais.

Esse ponto é fundamental. Muitas vezes, a evidência que importa para o paciente simplesmente não foi coletada pela empresa, pelo estudo clínico ou pelo sistema de saúde. Isso não significa que ela não exista. Significa que alguém precisa desenhar uma forma de captá-la. A ATS precisa reconhecer essa pluralidade de fontes. Ensaios clínicos respondem a perguntas essenciais, mas não respondem a todas. O mundo real complementa o estudo. A experiência do paciente complementa o desfecho clínico. A voz do cuidador complementa a análise de qualidade de vida. A logística de acesso complementa a avaliação de efetividade.

A experiência do paciente não é genérica

Um dos riscos discutidos no workshop é tratar “experiência do paciente” como uma expressão ampla demais, quase abstrata. Para que ela tenha utilidade na ATS, precisa ser especificada. Experiência com o quê? Com o diagnóstico? Com o tratamento? Com os efeitos adversos? Com o deslocamento? Com a perda de renda? Com a dependência de cuidador? Com a progressão da doença? Com o medo do futuro? Com a administração hospitalar? Com a falta de informação? Com a dificuldade de acesso?

Quanto mais específica for a pergunta, maior a chance de produzir evidência útil. No caso apresentado, por exemplo, seria possível investigar quanto tempo o paciente permanece no hospital, quanto custa o transporte, quantas horas o cuidador dedica ao tratamento, qual é a frequência de exames, quais sintomas retornam após determinado período, qual é a percepção de benefício e quais barreiras impedem a continuidade. Essa precisão transforma a experiência em dado relevante para a decisão.

O workshop também reforçou que grupos e organizações de pacientes podem ter papel estratégico na produção de evidências. Muitas comunidades já acumulam informações sobre jornada do paciente, dificuldades de acesso, lacunas assistenciais, impacto familiar e necessidades não atendidas. Essas informações podem ser organizadas por meio de pesquisas, formulários, registros, entrevistas, grupos focais, plataformas digitais e relatórios estruturados. Quando apresentadas com método e transparência, podem contribuir para que agências de ATS compreendam aspectos que não aparecem nos estudos tradicionais.

Para organizações de pacientes, o desafio é sair da contribuição reativa e avançar para a produção planejada de conhecimento. Isso significa identificar perguntas prioritárias antes da consulta pública, construir bancos de relatos, formar lideranças, aprender a interpretar relatórios técnicos e desenvolver parcerias com universidades e especialistas. Para os sistemas de ATS, o desafio é reconhecer esse conhecimento como legítimo e criar caminhos claros para que ele seja considerado.

A pergunta que todo paciente faz: como minha contribuição foi usada?

Na parte final da discussão, surgiu um ponto essencial para a credibilidade da participação social: a devolutiva. Pacientes e organizações dedicam tempo para participar, responder questionários, construir relatos, reunir dados e comparecer a reuniões. Mas, em muitos países, ainda não está claro como essas contribuições são usadas na decisão final. Essa ausência de retorno fragiliza a confiança. O workshop destacou que, se os sistemas de ATS pedem evidências aos pacientes, precisam informar como elas foram consideradas. Mesmo quando a decisão final não for favorável, é necessário explicar quais elementos foram incorporados, quais tiveram menor peso, quais lacunas permaneceram e como a contribuição poderá melhorar avaliações futuras. Participação sem devolutiva corre o risco de se tornar apenas formalidade. Participação com transparência fortalece a democracia sanitária.

A continuidade do workshop também trouxe uma reflexão realista: em um mundo ideal, todas as melhorias seriam implementadas rapidamente. Mas sistemas de saúde operam com limites institucionais, orçamentários e técnicos. Por isso, organizações de pacientes e agências de ATS precisam priorizar. A pergunta prática passa a ser: de toda a lista de sonhos, o que pode ser feito agora? Quais mudanças são mais urgentes? Quais são viáveis no curto prazo? Quais podem abrir caminho para transformações maiores?

Essa abordagem é especialmente importante para países com diferentes níveis de maturidade em ATS. Nem todos têm os mesmos recursos, equipes ou estruturas. Mas todos podem avançar em algum ponto: melhorar a linguagem dos documentos, ampliar consultas, incluir cuidadores, criar formulários específicos, promover capacitação, explicar decisões, construir registros ou envolver pacientes mais cedo no processo. O avanço não precisa ser perfeito para começar. Mas precisa ser contínuo.

O aprendizado para o Brasil

Para o Brasil, a atividade dialoga diretamente com os desafios da Conitec, do SUS, do controle social e das organizações de pacientes. O país já possui uma tradição importante de participação social. No entanto, a experiência internacional mostra que o próximo passo é qualificar cada vez mais a contribuição dos pacientes, especialmente na produção de evidências sobre vida real, jornada de cuidado, desigualdades territoriais, sobrecarga familiar, adesão, acesso e implementação.

No SUS, uma tecnologia incorporada precisa funcionar no cotidiano de um país continental. Isso exige perguntar, desde o início: quem terá acesso? Onde será administrada? Haverá centros suficientes? Como chegarão os pacientes do interior? O cuidador será considerado? Os exames estarão disponíveis? A fila será compatível com a necessidade clínica? Haverá financiamento, compra, distribuição e monitoramento? Essas perguntas não são periféricas. Elas definem se a incorporação será apenas uma decisão publicada ou uma política pública efetiva. A participação do paciente brasileiro, portanto, precisa ir além do relato de necessidade. Deve contribuir para apontar barreiras de implementação, propor critérios de equidade, identificar populações vulnerabilizadas e acompanhar se a tecnologia chegou ao paciente no tempo certo.

Quando o paciente pergunta, o sistema melhora

A continuidade do workshop no HTAi 2026 deixou uma mensagem poderosa: a qualidade de uma decisão em saúde depende também da qualidade das perguntas que são feitas. Se o sistema pergunta apenas quanto custa, pode ignorar quanto custa não tratar. Se pergunta apenas se o medicamento funciona, pode esquecer se ele é viável. Se pergunta apenas o resultado médio, pode perder o impacto sobre subgrupos. Se pergunta apenas sobre o paciente, pode esquecer o cuidador. Se pergunta apenas sobre o hospital, pode ignorar o caminho até ele.

Pacientes e comunidades ajudam a ampliar essas perguntas. Eles revelam o que o sistema não vê quando olha apenas para tabelas, curvas e modelos econômicos. Ao transformar dúvidas da vida real em evidências confiáveis, o workshop mostrou que o conhecimento do paciente não é um complemento decorativo da ATS. É uma condição para decisões mais completas, legítimas e orientadas às necessidades das comunidades. No centro da sala, o exercício sobre Alzheimer mostrou algo que vale para qualquer doença: uma tecnologia não deve ser avaliada apenas pelo que promete em um estudo, mas pelo que entrega na vida das pessoas. E, para saber isso, é preciso perguntar a quem vive a experiência.

Novos caminhos para incluir pacientes nas decisões sobre tecnologias em saúde

Última etapa do encontro discutiu como transformar escuta em decisão, evidência em deliberação e participação social em mudanças concretas nos sistemas de saúde

O encerramento do workshop “Strengthening Health Technology Assessment With Patient Knowledge To Shape Health Systems For Community Needs”, realizado durante o HTAi 2026, em Istambul, consolidou a principal mensagem construída ao longo de um dia inteiro de debates: envolver pacientes na Avaliação de Tecnologias em Saúde não basta. É preciso saber por que envolver, quem envolver, em qual momento, com qual objetivo e como aquilo que foi ouvido será usado na decisão.

Depois de uma jornada que percorreu o caminho entre aprovação regulatória e acesso, a produção de evidências, a experiência vivida, o impacto sobre cuidadores, os dados de mundo real e a simulação de perguntas para uma tecnologia hipotética em Alzheimer, a etapa final do workshop deslocou a discussão para um ponto ainda mais decisivo: a participação precisa gerar consequência. A presença do paciente em uma reunião, em uma consulta pública ou em um comitê não significa, por si só, participação efetiva. O verdadeiro desafio está em transformar essa presença em conhecimento incorporado ao processo decisório. E esse desafio, como ficou evidente nas falas finais, é global.

Da ATS técnica à ATS com impacto social

A discussão final partiu de uma provocação sobre o próprio papel da Avaliação de Tecnologias em Saúde. A ATS foi historicamente estruturada como um campo técnico, com forte ênfase em evidências clínicas, custo-efetividade, impacto orçamentário e comparação entre tecnologias. Esses elementos continuam essenciais. No entanto, o workshop mostrou que a comunidade internacional de HTA começa a discutir, cada vez mais, como esse campo pode deixar de ser apenas um instrumento técnico e passar a produzir diferença social.

A pergunta deixou de ser apenas: “esta tecnologia funciona e cabe no orçamento?” Passou a ser também: “esta tecnologia melhora trajetórias de cuidado, responde às necessidades das comunidades, reduz desigualdades, fortalece sistemas de saúde e reconhece a experiência de quem vive com a doença?”. Esse deslocamento é fundamental. A ATS não decide apenas sobre medicamentos, exames, dispositivos ou procedimentos. Ela interfere em caminhos de cuidado, prioridades públicas, acesso à inovação, uso de recursos e expectativas de vida. Quando uma tecnologia é incorporada, não incorporada ou restringida, essa decisão atravessa o cotidiano de pacientes, famílias, profissionais de saúde e gestores. Por isso, o conhecimento do paciente precisa ser compreendido não como complemento periférico, mas como parte da evidência necessária para avaliar valor.

Há evidência do paciente, mas nem sempre há espaço para ela

Um dos pontos sensíveis do encerramento foi a constatação de que já existe muita evidência produzida sobre a perspectiva dos pacientes. Empresas, pesquisadores, organizações sociais, universidades e comunidades de pacientes realizam estudos, entrevistas, pesquisas, levantamentos e análises sobre experiência vivida, preferências, qualidade de vida, adesão, carga do tratamento e impacto familiar. O problema é que, muitas vezes, essa evidência não encontra lugar formal nos dossiês de submissão ou nos processos de avaliação. Ela é usada durante o desenvolvimento de tecnologias, ajuda a orientar estratégias, informa decisões internas, mas nem sempre chega ao espaço em que o financiamento será deliberado. Essa lacuna representa uma perda para os sistemas de saúde. Quando a evidência do paciente não é sistematizada, preservada ou incorporada, o processo decisório desperdiça conhecimento. Estudos são feitos, relatos são coletados, comunidades são consultadas, mas a memória institucional se perde. O que poderia melhorar a avaliação de uma tecnologia acaba ficando à margem. O workshop chamou atenção para a necessidade de criar espaços formais para essa evidência. Não basta produzir conhecimento. É preciso que os sistemas de ATS saibam recebê-lo, analisá-lo, ponderá-lo e explicar como foi considerado.

Participação precisa ter propósito

A etapa final reforçou um princípio metodológico central: o envolvimento do paciente precisa começar pela definição do propósito. Antes de convidar pacientes, aplicar questionários ou abrir uma consulta, a agência, o comitê ou o pesquisador deve responder a algumas perguntas: o que queremos saber? Que decisão precisa ser informada? Qual lacuna de conhecimento existe? Que tipo de experiência pode ajudar? Quem são os pacientes ou cuidadores que precisam ser ouvidos? Em que momento do processo essa contribuição será mais útil? Como saberemos se o envolvimento alcançou seu objetivo?

Sem esse planejamento, a participação corre o risco de se tornar genérica. Pacientes são convidados, falam, entregam evidências, emocionam, alertam, mas o sistema não sabe exatamente o que fazer com aquilo. Esse ponto foi resumido por uma ideia simples e poderosa: todos pedem impacto, mas, se o objetivo nunca foi definido, torna-se quase impossível medir se o impacto aconteceu. A participação efetiva exige intencionalidade. Envolver por envolver pode cumprir uma formalidade. Envolver com propósito pode mudar a decisão.

Cada país precisa construir seu próprio caminho

Durante o debate, surgiu a pergunta sobre como países que ainda estão estruturando a participação de pacientes em ATS podem começar. A resposta não foi uma fórmula única. Ao contrário, o workshop reforçou que os modelos precisam ser adaptados ao contexto local. Há países com agências maduras de HTA, processos regulados e tradição de consulta pública. Há países onde a ATS ainda está em construção. Há sistemas centralizados, descentralizados, universais, privados, mistos, fragmentados ou dependentes de decisões ministeriais. Há lugares com organizações de pacientes consolidadas e outros onde essas comunidades ainda estão se formando.

Por isso, o envolvimento precisa respeitar o sistema em que será implementado. Um caminho sugerido foi a criação de conselhos ou grupos consultivos de pacientes, capazes de trabalhar com as agências na construção gradual dos processos. Esse modelo permite que o envolvimento não seja desenhado apenas por técnicos, mas co-criado com quem será convidado a participar. Também foi lembrado que não se faz tudo de uma vez. A participação pode começar por etapas: melhorar a linguagem dos documentos, criar espaços de escuta, organizar formulários, formar pacientes, capacitar técnicos, testar pilotos, avaliar resultados e ampliar progressivamente a influência da sociedade nas decisões. O importante é começar com clareza, método e compromisso.

Valores, padrões e avaliação do próprio processo

Outro ponto relevante do encerramento foi a necessidade de avaliar não apenas a tecnologia, mas o próprio processo de envolvimento. Sistemas de ATS costumam avaliar medicamentos, dispositivos e procedimentos com grande rigor. Mas raramente avaliam com a mesma atenção se a participação social foi adequada, inclusiva, transparente e útil. O workshop defendeu que os processos de envolvimento precisam ter valores, padrões, objetivos e mecanismos de avaliação. É necessário perguntar se os pacientes foram convidados no tempo certo, se receberam informação compreensível, se houve diversidade, se as barreiras de participação foram reduzidas, se cuidadores foram incluídos quando necessário, se houve devolutiva e se a contribuição influenciou a análise.

Também surgiu a discussão sobre compensação. Em muitos comitês, pesquisadores, técnicos, consultores, especialistas e equipes institucionais são remunerados pelo tempo dedicado ao processo. Já representantes de pacientes frequentemente participam de forma voluntária, mesmo quando precisam estudar documentos complexos, reunir evidências, preparar falas e representar comunidades inteiras. Essa assimetria precisa ser enfrentada. Reconhecer o tempo do paciente é também reconhecer o valor do seu conhecimento.

Conflito de interesses: barreira ou gestão necessária?

A gestão de conflitos de interesse apareceu como tema inevitável. Em processos de ATS, é comum que se questione a legitimidade de organizações de pacientes que receberam apoio financeiro de empresas, participaram de projetos, estudos ou eventos com diferentes atores do sistema. O workshop não tratou o tema de forma simplista. Pelo contrário, reconheceu que conflitos de interesse existem e precisam ser geridos com transparência. Mas também alertou para o risco de transformar o tema em justificativa para excluir pacientes e organizações do processo.

A pergunta correta não deve ser apenas “há conflito?”, mas: esse conflito foi declarado? Está documentado? É gerenciável? Impede a contribuição? Existem mecanismos de transparência? Há diversidade de vozes? O processo permite análise crítica das evidências apresentadas? Excluir pacientes sob a justificativa genérica de conflito pode empobrecer a decisão. O caminho mais adequado é estabelecer regras claras, declarações públicas, critérios de participação e mecanismos de equilíbrio. Transparência não deve ser usada para silenciar. Deve ser usada para qualificar a participação.

A diferença entre apresentar e incorporar

Um dos debates mais relevantes para a realidade brasileira foi a diferença entre apresentar a contribuição do paciente e incorporar essa contribuição na decisão. Esse ponto é central para o SUS, para a Conitec, para o controle social e para as organizações de pacientes. O Brasil possui instrumentos importantes de participação social, como consultas públicas, chamadas para perspectiva do paciente, representação social e instâncias de controle social. Mas o desafio não está apenas em abrir espaço para fala. Está em demonstrar como essa fala dialoga com o relatório técnico, a análise econômica, a deliberação e a recomendação final.

A participação pode ser descrita em um relatório, resumida em uma apresentação ou mencionada em uma reunião. Mas isso ainda não significa que tenha sido usada como elemento de decisão. Incorporar exige ir além. Exige analisar o conteúdo, identificar padrões, reconhecer evidências de vida real, cruzar relatos com dados disponíveis, apontar lacunas, explicar pesos e limites, e registrar de forma transparente como a perspectiva do paciente contribuiu para manter, alterar ou qualificar uma recomendação. Essa é uma das fronteiras mais importantes da ATS contemporânea: sair da escuta simbólica para a escuta metodologicamente integrada.

O Brasil diante do desafio de interpretar o que os pacientes trazem

A discussão final trouxe reflexões diretamente conectadas à realidade brasileira. O país avançou ao institucionalizar a participação social e ao ampliar mecanismos de contribuição em processos de incorporação. No entanto, ainda enfrenta o desafio de qualificar a análise daquilo que pacientes, cuidadores e organizações apresentam. Relatos de pacientes podem trazer dados sobre judicialização, barreiras territoriais, custos familiares, demora no acesso, falhas de implementação, ausência de centros especializados, dificuldade de deslocamento, impacto no cuidador e desigualdades regionais. Muitas vezes, essas informações são conhecidas pelas organizações muito antes de chegarem ao centro decisório.

A organização de pacientes conhece o território. Sabe onde a política não chega, onde o medicamento falta, onde o serviço existe no papel, mas não funciona na prática. Esse conhecimento é valioso para a ATS, especialmente em um país continental como o Brasil. Mas, para que esse conhecimento seja útil, o sistema precisa estar preparado para interpretá-lo. É necessário desenvolver métodos para análise qualitativa, leitura de relatos, identificação de evidências de mundo real, uso de dados territoriais e integração dessas informações ao processo deliberativo. O Brasil não precisa apenas envolver pacientes. Precisa também envolver a agência, os técnicos, os pesquisadores e os tomadores de decisão no aprendizado de como usar o que os pacientes trazem.

A última atividade prática do workshop colocou os participantes em uma posição ainda mais difícil: após discutir perguntas, evidências e perspectivas, era hora de simular a deliberação de um comitê. Os grupos foram convidados a pensar como avaliavam uma tecnologia e o que seria necessário para dizer “sim, este tratamento deve ser financiado” ou “não, ainda não há evidência suficiente”. A proposta não era forçar consenso, mas estimular a escuta de perspectivas diferentes. Essa dinâmica revelou a complexidade real das decisões em ATS. Mesmo quando todos reconhecem a necessidade dos pacientes, a decisão precisa lidar com incertezas, orçamento, capacidade de implementação, benefício clínico, impacto sobre serviços, evidência disponível e consequências futuras. A participação do paciente não elimina essas tensões. Ela as torna mais visíveis.

O exemplo escocês: quando a resposta é “não”, mas as perguntas permanecem

No encerramento, foi apresentado um exemplo semelhante ao cenário trabalhado durante o dia, inspirado em uma deliberação do Scottish Medicines Consortium, o SMC. A tecnologia avaliada tinha potencial benefício em uma condição de grande impacto, mas o comitê não pôde recomendá-la para uso no NHS. A justificativa apresentada foi a insuficiência de evidência clínica e econômica robusta. O benefício foi considerado existente, mas modesto, e havia incerteza sobre o significado real de um atraso de seis meses na progressão da doença. Também foram apontados custos adicionais relacionados ao medicamento, infusões, monitoramento, exames de imagem e carga de entrega para o sistema.

O comitê não estava apenas perguntando se o tratamento funcionava. Estava perguntando se o benefício era significativo na vida real, se durava além do período observado, qual seria o impacto sobre cuidadores, quais resultados de longo prazo poderiam ser esperados e se o custo representava bom uso dos recursos públicos. O mais importante é que essas perguntas eram muito parecidas com as perguntas levantadas pelos participantes do workshop. Isso demonstrou que pacientes, quando bem informados e envolvidos, são capazes de formular questões alinhadas às preocupações dos decisores. A diferença é que, em muitos casos, ainda não existem evidências suficientes para respondê-las. Esse foi um dos grandes aprendizados do dia: o paciente não está fora da racionalidade da ATS. Muitas vezes, ele está perguntando exatamente o que o comitê também precisa saber.

A negativa também pode ensinar

A decisão negativa apresentada no exemplo escocês não foi tratada como fracasso da participação. Ao contrário, foi analisada como oportunidade de aprendizado. Quando um comitê diz “não” por falta de evidência, isso pode indicar quais perguntas precisam ser respondidas em uma futura submissão. Pode orientar a coleta de dados de mundo real, a produção de estudos qualitativos, a análise da carga do cuidador, a mensuração de qualidade de vida, a revisão de modelos econômicos e a construção de evidências mais robustas.

Nesse sentido, a participação dos pacientes pode ajudar não apenas a defender uma tecnologia, mas a melhorar a qualidade das próximas avaliações. O problema é quando os pacientes entregam evidências e não recebem devolutiva sobre o que faltou, o que foi útil ou como poderiam fortalecer uma nova contribuição. Aí a participação perde potência. A ATS precisa aprender a transformar negativas em caminhos de aprimoramento.

O legado do WS12

Ao final do dia, o workshop deixou uma mensagem que ultrapassa a agenda do HTAi 2026: a participação dos pacientes precisa amadurecer de uma agenda de presença para uma agenda de impacto. Isso significa criar processos com objetivos claros, preparar pacientes e agências, reconhecer o conhecimento da experiência vivida, gerenciar conflitos de interesse com transparência, compensar adequadamente o tempo dedicado, avaliar o processo de envolvimento, usar evidências qualitativas e explicar como cada contribuição influenciou a decisão.

Significa também admitir que os sistemas de saúde ainda estão aprendendo. A escuta dos pacientes não ameaça a ciência. Ela amplia a ciência. Não substitui a análise econômica. Ela mostra o que a análise econômica pode estar deixando de fora. Não elimina a responsabilidade dos gestores. Ela ajuda a aproximar a decisão da realidade de quem será afetado por ela. A pergunta que encerra o workshop não é mais se pacientes devem participar. Essa etapa já foi superada. A pergunta agora é mais exigente: o que os sistemas de saúde fazem com aquilo que os pacientes sabem?

Para o Brasil, uma agenda de futuro

Para o Brasil, o encerramento do workshop deixa uma agenda concreta. O país precisa preservar e fortalecer sua tradição de participação social, mas também avançar em metodologias capazes de transformar contribuições em evidência reconhecida. Isso inclui aprimorar a análise qualitativa das consultas públicas, dar mais transparência sobre o uso da perspectiva do paciente nas recomendações, capacitar conselheiros e organizações, criar devolutivas mais claras, reconhecer dados de vida real, valorizar o conhecimento territorial das associações e construir formas de avaliar o impacto da participação social nas decisões da Conitec.

Também exige uma reflexão sobre equidade. A participação não pode ser privilégio de quem tem tempo, recurso, formação técnica ou proximidade com Brasília. Pacientes de diferentes regiões, escolaridades, condições econômicas e realidades de acesso precisam ter condições reais de contribuir. O SUS tem uma das maiores experiências de participação social do mundo. O desafio agora é transformar essa potência democrática em método, influência e implementação.

O encerramento do workshop não teve tom de conclusão definitiva. Teve tom de continuidade. Os facilitadores agradeceram a energia, a paixão e a diversidade trazidas pelos participantes. Houve convite para que as conversas seguissem durante a conferência, para que experiências fossem compartilhadas e para que novas colaborações nascessem a partir dali. A imagem final foi simbólica: participantes reunidos para uma foto, depois de um dia inteiro tentando responder como o conhecimento do paciente pode fortalecer a ATS e moldar sistemas de saúde mais próximos das comunidades.

A resposta, talvez, esteja justamente no processo vivido naquele domingo em Istambul. Pacientes, pesquisadores, gestores, indústria, agências e sociedade civil não estavam ali apenas para falar sobre participação. Estavam experimentando, na prática, o que significa construir perguntas, ouvir perspectivas, reconhecer incertezas, deliberar, discordar e aprender juntos. O WS12 terminou, mas a conversa que ele abriu continua. Porque a participação do paciente não é um evento. É uma mudança de cultura.

E, como toda mudança de cultura, exige tempo, método, coragem política e compromisso com a pergunta mais importante de todas: como garantir que as decisões em saúde sejam feitas com as pessoas, e não apenas sobre elas?

Priscila Torres, jornalista, coordenadora de advocacy da BioRed Brasil e do Grupar-BR, e autora do Blog Artrite Reumatoide, participou do HTAi 2026, em Istambul, a convite da Sun Pharma Brasil. Esta reportagem reflete sua análise jornalística independente sobre os debates acompanhados durante o evento.

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