Uma estratégia de “reinicialização” imunológica oferece potencial curativo?
Os tratamentos atuais para artrite reumatoide dependem, em grande parte, da imunossupressão contínua, em vez da restauração da tolerância imunológica, tornando rara a remissão sustentada sem o uso de medicamentos. Relatos recentes sugerem que a terapia com células CAR-T direcionadas ao CD19 pode representar uma abordagem eficaz. O Congresso EULAR 2026 (Aliança Europeia de Associações de Reumatologia) foi o cenário ideal para a apresentação de novos dados nessa área promissora.
Em uma apresentação oral realizada em 3 de junho, Fredrik Albach apresentou resultados do mivocabtagene autoleucel — uma terapia CAR-T autóloga, totalmente humana e direcionada ao CD19 — provenientes da fase 1 do estudo prospectivo aberto COMPARE, envolvendo seis pacientes com artrite reumatoide ativa, refratária ao tratamento e positiva para anticorpos antipeptídeos citrulinados (ACPA).
De forma geral, o tratamento foi bem tolerado. A síndrome de liberação de citocinas (CRS) limitou-se a eventos leves a moderados, sem ocorrência de síndrome de neurotoxicidade associada a células efetoras imunes (ICANS) ou toxicidades inesperadas. As células CAR-T expandiram-se rapidamente e atingiram seu pico em até três semanas, seguido de declínio gradual. Houve depleção eficaz de células B no sangue e nos tecidos. Também foi observada redução expressiva dos autoanticorpos, com diminuição mediana superior a 90% e normalização sustentada dos níveis de ACPA em quatro pacientes e do fator reumatoide IgM em cinco pacientes.
Todos os participantes apresentaram redução da atividade da doença, com queda mediana de 49% no escore DAS28-CRP. As respostas ACR20, ACR50 e ACR70 foram alcançadas por cinco, quatro e dois pacientes, respectivamente. Metade dos participantes atingiu remissão sustentada sem necessidade de imunossupressão contínua. A repopulação das células B não resultou no reaparecimento de células B de memória ACPA-positivas, aumento dos autoanticorpos ou piora da atividade da doença. Com exceção de um paciente que precisou retornar ao uso de glicocorticoides devido a uma recaída moderada após a retirada do tratamento, todos permaneceram sem imunossupressão até o encerramento da coleta de dados, com acompanhamento de 24 a 36 semanas.
Outro grupo apresentou a primeira experiência multicêntrica com terapia CAR-T de alvo duplo (CD19/BCMA) em 11 pacientes com esclerose sistêmica refratária. Todos os participantes alcançaram rápida aplasia de células B, e os escores de espessamento da pele melhoraram significativamente em relação aos valores basais. Cerca de 73% atingiram baixa atividade da doença. A incapacidade funcional, medida pelo HAQ-DI, caiu de 1,0 para 0,2, enquanto as avaliações globais realizadas por médicos e pacientes também apresentaram melhora.
Além da fibrose cutânea, a progressão pulmonar também foi alvo da terapia. Foram observadas evidências de estabilização ou melhora do volume pulmonar e da transferência de oxigênio. Tomografias computadorizadas de alta resolução confirmaram regressão das alterações intersticiais em 80% dos pacientes que apresentavam doença pulmonar intersticial no início do estudo. Nenhuma recaída foi registrada durante o acompanhamento. Um paciente com síndrome de sobreposição necessitou de retratamento, mas alcançou remissão após a segunda infusão.
Ao apresentar os resultados, Yajing Zhang, do Hospital GoBroad Boren, em Pequim, afirmou:
“A terapia CAR-T de alvo duplo CD19/BCMA induz remissão clínica profunda e sustentada na esclerose sistêmica refratária. Ao atuar de forma eficaz tanto sobre a fibrose cutânea quanto sobre a progressão pulmonar, essa estratégia de ‘reinicialização’ imunológica oferece verdadeiro potencial curativo, abrindo caminho para estudos de fase 2 que poderão redefinir o futuro manejo dessa doença grave.”
Considerando que a terapia CAR-T direcionada ao CD19 remodela profundamente a imunidade adaptativa e pode alterar os níveis séricos de IgA, Yuichi Maeda e colaboradores investigaram os efeitos da terapia sobre o microbioma intestinal e a IgA fecal em pacientes com lúpus eritematoso sistêmico grave, esclerose sistêmica ou miopatia inflamatória idiopática que receberam zorpcabtagene autoleucel.
Comparados a indivíduos saudáveis, os pacientes apresentavam diversidade microbiana intestinal significativamente reduzida antes do tratamento, condição que permaneceu reduzida seis meses após a terapia. Também foram observadas diferenças importantes na composição da microbiota, incluindo aumento da presença de espécies do gênero Streptococcus. Curiosamente, esse crescimento excessivo diminuiu após o tratamento, atingindo níveis comparáveis aos observados em indivíduos saudáveis. A atividade imunológica da mucosa intestinal também foi reduzida, evidenciada pela diminuição dos níveis de IgA fecal.
Os pesquisadores observaram que alguns pacientes apresentaram recuperação tardia das células B CD19+, e esses indivíduos tinham níveis basais significativamente menores de IgA fecal. Em contrapartida, os níveis séricos de IgA, IgG e a diversidade microbiana intestinal não se associaram a esse desfecho. Os resultados sugerem que baixos níveis de IgA da mucosa antes da terapia podem predispor a uma recuperação imunológica mais lenta após o tratamento com CAR-T. Além disso, tanto a IgA quanto a IgG direcionadas contra bactérias intestinais permaneceram reduzidas seis meses após a terapia, indicando uma atenuação sustentada das respostas imunes humorais contra microrganismos intestinais. Os autores concluíram que essas alterações imunológicas e microbiológicas podem contribuir para a remissão prolongada da doença e sugerem que o estado imunológico da mucosa intestinal pode ser um importante regulador da recuperação imunológica após a terapia CAR-T.
Os CAR-T convencionais de segunda geração, que utilizam os domínios CD28 ou 4-1BBζ, frequentemente produzem sinalização acima dos níveis fisiológicos, o que pode levar a toxicidades significativas, como CRS e ICANS. Para enfrentar esse desafio, foi desenvolvido um novo construto denominado E-CAR, que incorpora o domínio citoplasmático CD3ε com o objetivo de otimizar a transdução de sinais, recrutando reguladores negativos fisiológicos e reduzindo a sinalização tônica.
Em um estudo piloto apresentado por Xiaobing Wang e colaboradores, envolvendo o primeiro uso em seres humanos dessa tecnologia em quatro pacientes com lúpus eritematoso sistêmico ou esclerose sistêmica, os resultados demonstraram remissão profunda em nível tecidual e perfil de segurança superior ao observado em modelos convencionais. Os pesquisadores também observaram diferenciação das células E-CAR-T para um fenótipo de memória residente em tecidos, o que pode representar um novo mecanismo para manutenção prolongada do controle da doença, mesmo após a eliminação das células na circulação periférica.
Em conjunto, esses achados reforçam o conceito de uma “reinicialização” imunológica capaz de beneficiar uma proporção significativa de pacientes com diferentes doenças reumáticas e musculoesqueléticas.
Fontes dos estudos
- Albach FN et al. Terapia com células CAR-T CD19 em artrite reumatoide ativa, refratária ao tratamento e positiva para ACPA: dados da fase 1 do estudo COMPARE. Apresentado na EULAR 2026.
- Cheng F et al. Remissão sustentada na esclerose sistêmica refratária com terapia CAR-T de alvo duplo. Apresentado na EULAR 2026.
- Maeda Y et al. Reinicialização imunológica e alterações microbianas: dinâmica da microbiota intestinal após terapia CAR-T CD19 em doenças autoimunes. Apresentado na EULAR 2026.
-
Wang X et al. Primeira experiência em humanos com terapia autóloga anti-CD19 E-CAR-T utilizando um novo domínio CD3ε em doenças autoimunes refratárias. Apresentado na EULAR 2026.
Sobre a EULAR
A EULAR é a organização europeia que reúne sociedades científicas, associações de profissionais de saúde e organizações de pessoas com doenças reumáticas e musculoesqueléticas (RMDs). Seu objetivo é reduzir o impacto dessas doenças sobre os indivíduos e a sociedade, além de melhorar o tratamento, a prevenção e a reabilitação. A entidade promove a excelência em educação e pesquisa em reumatologia, incentiva a aplicação dos avanços científicos na prática clínica e defende o reconhecimento das necessidades das pessoas que vivem com essas doenças junto às instituições da União Europeia.
Fonte: EULAR Press Release
*Cobertura de imprensa de EULAR 2026, realizado pela jornalista, Priscila Torres com incentivo social da Abbvie do Brasil.
Descubra mais sobre Artrite Reumatóide
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.





























