A elevada heterogeneidade da esclerose sistêmica representa um grande desafio para o manejo clínico e para o desenho de estudos clínicos. Novos dados apresentados no Congresso Anual da EULAR 2026 (Aliança Europeia de Associações de Reumatologia) destacam a importância dos desfechos clínicos e do monitoramento precoce da atividade da doença. Isso inclui uma nova forma de estratificar pacientes de acordo com um índice de atividade da doença no momento da inclusão no estudo, uma abordagem que pode contribuir para o enriquecimento das coortes utilizadas em ensaios clínicos.
Em uma apresentação oral realizada na quinta-feira, 4 de junho, foram divulgados resultados de uma análise observacional longitudinal da base de dados EUSTAR — um grande banco de dados multicêntrico online que acompanha prospectivamente mais de 25 mil pacientes em mais de 200 centros internacionais. O objetivo foi caracterizar o comprometimento de órgãos, a progressão da doença e o tempo até a ocorrência desses eventos, estratificando os participantes conforme um índice modificado de atividade da doença (mDAI): pontuação inferior a 2,5 no início do estudo (doença inativa) versus pontuação igual ou superior a 2,5 (doença ativa).
Dos 3.214 pacientes incluídos, 59,1% apresentavam doença inativa. Os pacientes com doença ativa no início do acompanhamento apresentaram maiores taxas acumuladas de comprometimento orgânico e multissistêmico após um ano, reforçando a relevância do monitoramento da atividade da doença. Esse achado foi particularmente evidente para comprometimento cutâneo, úlceras digitais/gangrena, doença pulmonar intersticial e envolvimento cardíaco, com menor tempo mediano para ocorrência desses eventos nos pacientes com doença ativa em comparação aos pacientes com doença inativa. Pacientes com doença ativa também necessitaram com maior frequência de terapia imunossupressora, medicamentos biológicos e antifibróticos em monoterapia quando comparados aos pacientes com doença inativa.
Apresentando o trabalho durante o congresso em Londres, Tânia Santiago afirmou:
“Este estudo fornece novos conhecimentos sobre a história natural da esclerose sistêmica, estratificada pelo mDAI, destacando a importância da avaliação precoce da atividade da doença.”
Um pôster apresentado por Corrado Campochiaro e colaboradores abordou aspectos que devem ser considerados na comunicação de medidas de desfecho em estudos intervencionistas sobre úlceras digitais — uma iniciativa de um comitê da World Scleroderma Foundation. As úlceras digitais são uma das manifestações mais dolorosas e incapacitantes da esclerose sistêmica, mas ainda existe falta de uniformidade em sua definição e na forma como são relatadas nos estudos.
O trabalho, baseado em uma revisão sistemática da literatura, identificou sete domínios considerados essenciais para a padronização dos relatórios em ensaios clínicos. Esses domínios incluem:
- Definição e classificação uniformes das úlceras digitais;
- Critérios claros de inclusão e exclusão para participação nos estudos;
- Medidas padronizadas de desfecho relacionadas à cicatrização da úlcera digital principal e à melhora funcional;
- Desfechos secundários envolvendo dor, funcionalidade, qualidade de vida e resultados relatados pelos pacientes;
- Relato detalhado de terapias de base e tratamentos concomitantes;
- Protocolos de manejo local das feridas, cronograma e frequência das avaliações, com intervalos definidos;
- Acompanhamento de longo prazo para monitorar recorrências das úlceras.
Os autores também destacam que o desenho e a análise dos estudos devem considerar fatores sazonais e ambientais, como o impacto do clima. Segundo eles, a adoção dessas recomendações poderá aumentar a qualidade, a consistência e a interpretabilidade dos estudos intervencionistas, além de facilitar metanálises mais robustas, melhorar a comparabilidade entre pesquisas e apoiar o desenvolvimento de terapias eficazes e centradas no paciente.
Conforme destacado na atualização de 2023 das diretrizes da EULAR, a agenda futura de pesquisa inclui a avaliação de novas intervenções para o manejo das manifestações vasculares, musculoesqueléticas e gastrointestinais, além da calcinose e do tratamento local das úlceras digitais. Nesse contexto, os novos achados apresentados na EULAR 2026 são considerados relevantes. A área continua evoluindo, com medicamentos aprovados e intervenções vasculares mais precoces, o que exige métodos de avaliação cada vez mais refinados.
Fontes dos estudos
- Santiago T. et al. Valor clínico do índice modificado de atividade da doença da EUSTAR para estratificação de desfechos clínicos: uma análise observacional longitudinal da base de dados EUSTAR. Apresentado na EULAR 2026.
- Campochiaro C. et al. Aspectos a considerar na comunicação de medidas de desfecho em estudos intervencionistas sobre úlceras digitais na esclerose sistêmica: iniciativa da World Scleroderma Foundation. Apresentado na EULAR 2026.
Sobre a EULAR
A EULAR é a organização europeia que reúne sociedades científicas, associações de profissionais de saúde e organizações de pessoas com doenças reumáticas e musculoesqueléticas. Seu objetivo é reduzir o impacto dessas doenças na vida das pessoas e na sociedade, além de promover melhorias no tratamento, prevenção e reabilitação. A entidade também fomenta a excelência em educação e pesquisa em reumatologia, incentiva a aplicação dos avanços científicos na prática clínica e defende o reconhecimento das necessidades das pessoas que convivem com doenças reumáticas e musculoesqueléticas junto às instituições da União Europeia.
Fonte: EULAR Press Release
*Cobertura de imprensa de EULAR 2026, realizado pela jornalista, Priscila Torres com incentivo social da Abbvie do Brasil.
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