Os glicocorticoides são a pedra angular do tratamento inicial das vasculites, sendo utilizados para controlar rapidamente a inflamação e proteger órgãos vitais. A EULAR (Aliança Europeia de Associações de Reumatologia) possui recomendações que abrangem o uso de glicocorticoides nas vasculites associadas ao ANCA (AAV) e nas vasculites de grandes vasos, incluindo a arterite de células gigantes (ACG). No entanto, as evidências sobre seu uso continuam crescendo, especialmente em relação aos efeitos de longo prazo.
A EULAR recomenda a combinação de glicocorticoides com rituximabe ou ciclofosfamida para indução da remissão em casos de AAV com risco de vida ou de comprometimento de órgãos, seguida de redução gradual da dose dos glicocorticoides. A introdução de agentes biológicos, como o rituximabe, para manutenção da remissão na AAV reduziu a taxa de recaídas, mas ainda não está claro se o uso concomitante de glicocorticoides em baixa dose durante esse período oferece benefício adicional sem aumentar os riscos. Novos achados ajudam a esclarecer como o uso de glicocorticoides em baixa dose influencia o risco de recaídas e de dano crônico durante o tratamento de manutenção da AAV.
Os dados analisados envolveram 171 pacientes que receberam tratamento de manutenção em três centros de referência na Grécia, com seguimento mediano de pouco mais de sete anos. Ao todo, ocorreram 65 recaídas graves em 48 pacientes (8,1 por 100 pacientes-ano). O uso de rituximabe esteve associado a menor risco de recaídas graves, enquanto maior atividade da doença no diagnóstico esteve associada a risco aumentado. O uso concomitante de glicocorticoides em doses inferiores a 7,5 mg por dia não apresentou efeito protetor contra recaídas graves, mas esteve associado a maior risco de acúmulo de danos e hospitalizações.
Ao apresentar os resultados no Congresso EULAR 2026, em Londres, Katerina Chavatza afirmou:
“A adição de glicocorticoides em baixa dose ao tratamento padrão de manutenção não reduziu o risco de recaídas graves, mas esteve associada a um risco aumentado de dano crônico e hospitalização. Esses achados apoiam a retirada mais precoce e mais agressiva dos glicocorticoides após a remissão em pessoas com AAV.”
Apesar dos avanços terapêuticos, pacientes com ACG continuam expostos a quantidades significativas de glicocorticoides e apresentam recaídas frequentes e respostas variáveis ao tratamento. Um estudo apresentado no congresso por Omar Dhrif e colaboradores propôs a primeira definição de ACG de difícil tratamento, incluindo fatores de risco que podem predispor os pacientes a essa evolução clínica.
O grupo analisou 546 pacientes do French Large Vessel Vasculitis Study Group que preenchiam os critérios de classificação ACR/EULAR 2022 para ACG e possuíam acompanhamento mínimo de 24 meses, além de histórico completo das doses mensais de glicocorticoides e das recaídas. A definição proposta inclui três elementos:
- Pacientes que receberam pelo menos um agente imunossupressor e nos quais não foi possível suspender o tratamento após 24 meses devido à atividade persistente da doença;
- Incapacidade de reduzir a dose de glicocorticoide para menos de 5 mg por dia devido à atividade persistente da doença;
- Ocorrência de pelo menos duas recaídas durante o acompanhamento.
Nessa coorte, a ACG de difícil tratamento representou 9,7% dos pacientes e apresentou um fenótipo distinto, caracterizado por maior envolvimento de vasculite de grandes vasos, maior predominância do sexo feminino e dificuldade de reduzir os glicocorticoides após seis meses. Pacientes com doença de difícil tratamento necessitaram de dose de manutenção de 8,8 mg/dia de glicocorticoides aos 24 meses, em comparação com 2,68 mg/dia entre aqueles sem essa condição. Além disso, a dose utilizada aos seis meses foi capaz de prever a progressão para ACG de difícil tratamento em mulheres com vasculite de grandes vasos.
A definição proposta neste estudo contempla importantes necessidades ainda não atendidas na ACG, incluindo recaídas recorrentes e insuficiente redução do uso de glicocorticoides. Os resultados reforçam a relevância clínica de identificar a doença de difícil tratamento como um subgrupo distinto, o que pode orientar estratégias especializadas de manejo, incluindo a introdução precoce de medicamentos poupadores de glicocorticoides quando as metas terapêuticas não forem alcançadas após seis meses de tratamento. Os autores destacam que os achados são promissores, mas que o modelo preditivo necessita de validação externa em coortes independentes.
Fontes dos estudos
- Chavatza K. et al. Em pacientes com vasculites associadas ao ANCA, glicocorticoides em baixa dose adicionados ao tratamento de manutenção não reduzem o risco de recaídas graves e estão associados a maior risco de dano crônico e hospitalização. Apresentado na EULAR 2026.
- Dhrif O. et al. Identificação da arterite de células gigantes de difícil tratamento: resultados de uma coorte francesa de vasculite de grandes vasos. Apresentado na EULAR 2026.
Sobre a EULAR
A EULAR é a organização europeia que reúne sociedades científicas, associações de profissionais de saúde e organizações de pessoas com doenças reumáticas e musculoesqueléticas (RMDs). Seu objetivo é reduzir o impacto dessas doenças sobre os indivíduos e a sociedade, além de melhorar o tratamento, a prevenção e a reabilitação. A entidade promove a excelência em educação e pesquisa em reumatologia, incentiva a aplicação dos avanços científicos na prática clínica e defende o reconhecimento das necessidades das pessoas que vivem com essas doenças junto às instituições da União Europeia.
Fonte: EULAR Press Release
*Cobertura de imprensa de EULAR 2026, realizado pela jornalista, Priscila Torres com incentivo social da Abbvie do Brasil.
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