Em plenária internacional, especialistas discutiram inovação, inteligência artificial, dados, experiência do paciente e novos critérios de valor nas decisões em saúde
A Avaliação de Tecnologias em Saúde (ATS) foi apresentada como uma ferramenta estratégica para orientar os sistemas de saúde diante dos desafios impostos pela inovação, pela transformação digital e pela necessidade de decisões mais sustentáveis e centradas nas pessoas. O tema esteve no centro da plenária “HTA as a Shaper of Tomorrow’s Health Systems”, realizada durante o Congresso HTAi 2026 — Health Technology Assessment international, que aconteceu entre os dias 6 e 10 de junho de 2026, em Istambul, na Turquia.
O painel reuniu especialistas internacionais para discutir como a ATS pode deixar de ser apenas uma etapa técnica de avaliação de medicamentos, dispositivos, procedimentos e tecnologias digitais, passando a atuar como instrumento de planejamento, governança e qualificação das decisões em saúde. A discussão acompanhou o tema central do congresso, “HTA as a System Shaper”, que propôs refletir sobre o papel da avaliação de tecnologias na organização dos sistemas de saúde do futuro.
A plenária contou com a participação de Diana Arsovic, CEO do Danish Life Cluster; Dalia Dawoud, Research Principal em HTA Policy and Strategy da Cytel; Jennifer Goldsack, CEO da Digital Medicine Society; Adam Skali, Director of Innovation & Scientific Program do eHealth Innovation Center (CIES); Rabia Sucu, Group Vice President for Science and Chief Scientific Officer da Turkish Red Crescent Investment; e Eva Turk, pesquisadora sênior e líder de grupo de pesquisa da University of Applied Sciences St Pölten.
Ao longo do debate, os painelistas destacaram que a velocidade da inovação em saúde exige novos modelos de avaliação, capazes de combinar rigor científico, transparência, segurança, efetividade e capacidade de adaptação. A expansão das soluções digitais, da inteligência artificial, da medicina personalizada e das terapias de alto custo foi apontada como um dos principais desafios para os sistemas de ATS, especialmente quando as decisões precisam ser tomadas em cenários de incerteza, com dados ainda limitados e grande expectativa de impacto clínico.
Um dos eixos centrais da discussão foi a importância dos dados para decisões baseadas em evidências. O painel reforçou que a medicina e a gestão em saúde dependem cada vez mais de informações confiáveis sobre desempenho, segurança, efetividade e impacto das tecnologias na vida real. Nesse contexto, as novas ferramentas digitais e a inteligência artificial foram apresentadas como possibilidades para apoiar o monitoramento em tempo real, a modelagem de incertezas e a geração de evidências complementares aos estudos tradicionais.
A experiência do paciente também ocupou lugar de destaque na plenária. A discussão apontou que o valor de uma tecnologia não pode ser medido apenas pelo seu desempenho técnico ou pelo preço de incorporação, mas deve considerar o impacto concreto na jornada de cuidado, na qualidade de vida, na autonomia, no acesso oportuno e na capacidade dos sistemas de responder às necessidades reais das pessoas. A mensagem central foi que pacientes não devem ser tratados apenas como destinatários finais das decisões, mas como participantes essenciais na construção das perguntas, das evidências e dos critérios de valor.
O debate também abordou o equilíbrio entre inovação, custo e sustentabilidade. Diante de tecnologias cada vez mais complexas e de alto impacto orçamentário, os especialistas ressaltaram que os sistemas de saúde precisam discutir preços, prioridades públicas e modelos de financiamento com responsabilidade e transparência. A incorporação de uma tecnologia, segundo a reflexão proposta no painel, deve responder não apenas se ela funciona, mas como será implementada, para quem estará disponível, em quais condições e com quais consequências para a equidade e a sustentabilidade do sistema.

Outro ponto destacado foi a necessidade de colaboração internacional. A troca de experiências entre países, agências de ATS, pesquisadores, gestores, profissionais de saúde, indústria, pacientes e cidadãos foi apresentada como uma condição essencial para fortalecer decisões mais legítimas e preparadas para os desafios futuros. Em um cenário de mudanças rápidas, a plenária ressaltou que redes de conhecimento, confiança e cooperação podem acelerar os aprendizados e apoiar sistemas de saúde mais resilientes.
Ao final, a plenária consolidou uma mensagem importante para o campo da ATS: avaliar tecnologias em saúde não é apenas decidir sobre a entrada ou não de uma inovação em determinado sistema. É também influenciar o desenho das políticas públicas, orientar prioridades, promover equidade, qualificar o uso dos recursos e garantir que a inovação esteja a serviço das pessoas e dos sistemas de saúde.
Sobre a HTAi
A Health Technology Assessment international (HTAi) é uma sociedade científica e profissional global dedicada ao fortalecimento da Avaliação de Tecnologias em Saúde (ATS). A organização reúne pesquisadores, agências de ATS, gestores, formuladores de políticas públicas, profissionais de saúde, indústria, pacientes e cidadãos, promovendo a troca internacional de conhecimento e experiências para apoiar decisões em saúde baseadas em evidências, com foco em inovação, sustentabilidade, equidade e impacto na vida das pessoas.
Programa oficial do HTAi 2026:
https://htai.eventsair.com/htai-2026-istanbul-annual-meeting/program-agenda
Declaração de transparência: Priscila Torres, jornalista, coordenadora de advocacy da BioRed Brasil e do Grupar-BR, e autora do Blog Artrite Reumatoide, participou do HTAi 2026, em Istambul, a convite da Sun Pharma Brasil. Esta reportagem reflete sua análise jornalística independente sobre os debates acompanhados durante o evento.
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