Direto de Londres, o Congresso Europeu de Reumatologia 2026 — EULAR 2026 — abriu sua conferência de imprensa reforçando uma mensagem central: a reumatologia vive um momento de intensa produção científica, transformação digital e compromisso crescente com o cuidado centrado nas pessoas que convivem com doenças reumáticas e musculoesqueléticas.
A mediação da coletiva destacou que o objetivo era apresentar as informações mais recentes do congresso e responder às perguntas da imprensa internacional sobre os principais avanços em reumatologia.
O Prof. Xenofon Baraliakos, presidente da EULAR, abriu a coletiva celebrando os números históricos desta edição. Segundo ele, o EULAR 2026 já se configura como um congresso de recordes, com mais de 14.100 inscritos, representantes de quase 130 países, cerca de 190 sessões científicas, mais de 530 palestrantes e mais de 5.700 resumos científicos. Para Baraliakos, esses números demonstram a força global da reumatologia e a capacidade da EULAR de reunir ciência, assistência, educação e advocacy em torno das doenças reumáticas.
O presidente também chamou atenção para os periódicos científicos da EULAR, especialmente o Annals of the Rheumatic Diseases, tradicional publicação de alto impacto na área, e o EULAR Rheumatology Open, periódico de acesso aberto lançado recentemente, com foco também em inovação digital e inteligência artificial. Outro destaque foi a plataforma MyEULAR, lançada no ano anterior, que já reúne mais de 20 mil usuários registrados e concentra conteúdos de pesquisa, educação, oportunidades de financiamento e informações do congresso. Baraliakos destacou ainda que a plataforma recebeu reconhecimento internacional na área de tecnologia, reforçando o papel da EULAR na democratização do conhecimento.

Na sequência, a Profª Laure Gossec, presidente eleita da EULAR, apresentou a iniciativa RheumaFacts, criada para reunir dados comparáveis entre países sobre acesso ao cuidado, força de trabalho em reumatologia, qualidade de vida e desigualdades enfrentadas por pessoas com doenças reumáticas e musculoesqueléticas. Ela ressaltou que a EULAR não atua apenas na pesquisa e educação, mas também na defesa de políticas públicas baseadas em evidências. A primeira fase do RheumaFacts reuniu dados de 36 países, permitindo compreender melhor as desigualdades no acesso a reumatologistas, fisioterapia, psicologia e outros componentes do cuidado.
Laure Gossec também apresentou avanços científicos em espondiloartrite axial, destacando a atualização dos critérios de classificação desenvolvidos em colaboração entre grupos internacionais como ASAS e SPARTAN. Um dos pontos mais relevantes foi o papel crescente da ressonância magnética na classificação e no diagnóstico, especialmente por sua maior associação com a sacroileíte e por evitar exposição à radiação quando comparada aos exames radiográficos convencionais.
Ainda em sua fala, a presidente eleita abordou estudos em artrite psoriásica, com foco em medicina personalizada e no impacto das comorbidades. Um estudo explorou o uso de biópsia de tecido sinovial para orientar a escolha terapêutica, indicando melhores resultados em atividade mínima da doença ou remissão quando a terapia foi guiada por características teciduais. Outro estudo avaliou intervenções dietéticas e perda de peso em pessoas com artrite psoriásica ativa e obesidade, reforçando o conceito de que a doença deve ser compreendida também sob a ótica imunometabólica.
O Prof. Christopher Edwards apresentou dois projetos estratégicos da EULAR. O primeiro foi o Certificado Europeu de Reumatologia, um exame internacional desenvolvido para padronizar competências e apoiar a formação de reumatologistas. O primeiro exame está previsto para 18 de novembro de 2026, em formato online, com 90 questões de múltipla escolha, voltado principalmente a profissionais em fase final de treinamento. O segundo destaque foi o Fundo Global de Equidade da EULAR, criado para apoiar projetos voltados à ampliação do acesso ao cuidado reumatológico, especialmente em países e comunidades de baixa e média renda. Segundo Edwards, a primeira chamada recebeu 53 candidaturas, evidenciando a demanda global por iniciativas que reduzam desigualdades em saúde.
A representante da comunidade de pacientes, Souzi Makri, vice-presidente PARE da EULAR, reforçou a importância da experiência vivida pelas pessoas com doenças reumáticas na construção da pesquisa, das recomendações clínicas e das políticas de saúde. Ela destacou o papel dos Patient Research Partners, pacientes parceiros de pesquisa que não atuam como participantes de estudos, mas como colaboradores ativos ao lado de pesquisadores e especialistas. Desde 2010, a EULAR reconhece formalmente a importância da participação de pacientes no desenvolvimento de recomendações sobre diagnóstico e manejo das doenças reumáticas.
Souzi também apresentou experiências práticas de apoio aos pacientes, como um serviço multidisciplinar da Associação Dinamarquesa de Reumatismo, que oferece orientação por telefone com reumatologista, enfermeiro, terapeuta ocupacional, nutricionista, advogado, fisioterapeuta e assistente social. Outro destaque foi a discussão sobre menopausa e doenças reumáticas, tema ainda pouco abordado nas consultas, apesar de sua relevância para mulheres com artrite reumatoide e outras condições. Também foram apresentados projetos sobre participação no trabalho, apoio entre pares e ampliação do acesso à fisioterapia.

A Drª Rikke Helene Moe, vice-presidente HPR da EULAR, trouxe a perspectiva dos profissionais de saúde em reumatologia, destacando que, mesmo com avanços farmacológicos importantes, muitas pessoas ainda convivem com dor, fadiga, limitações funcionais e impacto significativo na vida diária. Por isso, a educação do paciente, as intervenções não farmacológicas, o cuidado interdisciplinar e o apoio às famílias são componentes fundamentais do tratamento. Entre os estudos citados, estiveram intervenções educacionais, programas digitais e estratégias para reduzir o tempo até o diagnóstico, especialmente em doenças como a espondiloartrite axial, em que o atraso no diagnóstico ainda pode levar anos.
Durante a sessão de perguntas, jornalistas questionaram a colaboração entre reumatologistas, dermatologistas e outras especialidades no cuidado de doenças imunomediadas, como artrite psoriásica e lúpus, além dos desafios de acesso a medicamentos inovadores. Laure Gossec destacou que clínicas conjuntas e melhor comunicação entre especialistas podem beneficiar pacientes com quadros complexos, evitando que a responsabilidade de coordenar o cuidado recaia sobre a própria pessoa doente. Xenofon Baraliakos acrescentou que a EULAR não define políticas nacionais de reembolso, mas pode produzir dados, evidências e recomendações para apoiar discussões sobre acesso, preço e equidade. Ele também ressaltou a colaboração crescente da EULAR com a Agência Europeia de Medicamentos.
A conferência de imprensa do EULAR 2026 deixou evidente que o futuro da reumatologia passa por quatro caminhos inseparáveis: ciência de alta qualidade, inovação tecnológica, formação profissional e participação ativa dos pacientes. Mais do que apresentar novos estudos, o congresso reafirma que a reumatologia precisa enfrentar desigualdades, reduzir atrasos diagnósticos, ampliar o acesso ao cuidado interdisciplinar e reconhecer a experiência de vida dos pacientes como parte essencial da produção de conhecimento.
Os principais destaques do Congresso Europeu de Reumatologia 2026 — EULAR 2026 serão divulgados em breve no Blog Artrite Reumatoide e nos canais do GRUPAR-BR, com cobertura especial sobre acesso, inovação, cuidado centrado no paciente e avanços científicos que podem impactar a vida de pessoas com doenças reumáticas no Brasil e no mundo.
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