Viver com uma dor que ninguém consegue ver é uma das formas mais profundas de solidão. Por muito tempo, a minha vida, para todos, era o sorriso e o trabalho nos bastidores; por dentro, era um corpo que parecia gritar a cada segundo.
A dor crônica tem essa crueldade: ela não aparece em exames de sangue e não dá sinais externos. Recentemente, o assunto ganhou as telas com a novela “Quem Ama Cuida”, da TV Globo, que mostra a saga da personagem vivida por Isabela Garcia para descobrir a fibromialgia.
É uma trama que tem dado muito o que falar e que cumpre um papel fundamental de utilidade pública e alerta social, mas a realidade fora das telas e da ficção é ainda mais complexa e avassaladora.
Antes do diagnóstico, passei por um verdadeiro labirinto. Foram quatro anos de uma peregrinação dolorosa, entre 2018 e 2022, consultando 27 médicos por todo o Brasil. Por conta de diagnósticos errados, enfrentei cirurgias desnecessárias e o uso excessivo de remédios fortes que não resolviam nada.
Como nada era detectado nos exames de imagem convencionais, ouvi de alguns profissionais que aquilo era “coisa da minha cabeça”. Cheguei a acreditar que o problema era comigo, que eu não sabia me comunicar ou explicar o que sentia de verdade. O peso de viver com essa dor invisível me levou a uma depressão profunda.
Ela me impossibilitava de realizar as tarefas mais simples do cotidiano, como dar um passeio curto com os meus cachorros, e me fez parar de trabalhar temporariamente, porque a incerteza era tanta que eu já não sabia se conseguiria cumprir com os meus compromissos profissionais.
A reviravolta começou em 2022, quando conheci Bruno Rebouças (neurologista do Sírio Libanês). Foi ele quem juntou todas as peças soltas desse quebra-cabeça e fechou o diagnóstico definitivo: fibromialgia.
Houve um misto de alívio por finalmente ter uma explicação científica para o meu sofrimento e o peso de saber que era uma condição crônica, sem cura.
Mas eu escolhi que a fibromialgia seria apenas uma parte da minha história, nunca ela inteira. Decidi usar a dor como combustível para a minha própria transformação e mergulhei de cabeça na faculdade de Psicologia.
Sempre adorei estudar comportamentos e olhar o ser humano em sua totalidade, algo que vem tanto do meu lado artístico quanto da minha própria vivência diária com a doença. Quis a faculdade justamente para entender detalhadamente os mecanismos neurossensoriais: onde a dor começa de fato no cérebro e por que ela não tinha fim. Levei isso tão a sério que, em 2023, fiz estágio supervisionado voluntário no renomado Hospital das Clínicas, em São Paulo, vivenciando de perto a rotina de pacientes com quadros de dores extremas.
Hoje, essa busca acadêmica e pessoal se transformou em missão prática de vida. Atendo no meu consultório no Rio, com foco em acolhimento e psicologia hospitalar, especializada exatamente nos aspectos neurossensoriais da dor. Transformar o meu sofrimento em acolhimento técnico para quem hoje passa pelo desespero que eu já passei deu um novo sentido à minha trajetória.
Essa dedicação me tornou referência nacional na causa e me rendeu a Medalha Chiquinha Gonzaga, a maior honraria da Câmara Municipal do Rio, pelo meu trabalho contínuo de conscientização, em 2024.
A minha rotina atual é desenhada detalhadamente para manter a doença sob controle. Sou cuidada por uma rede de apoio multidisciplinar que inclui psiquiatra, psicólogo, neurologista e fisioterapeutas.
Faço exercícios físicos todos os dias, mas com uma consciência rígida: pratico pilates e musculação exclusivamente com fisioterapeutas especializados em dor, pois não posso me exercitar de qualquer jeito. Minha alimentação é totalmente saudável e respeito meus gatilhos, o principal deles é a imobilidade. Ficar muito tempo deitada, sentada ou em pé me faz mal, e até os meus travesseiros de precisam ser os corretos. Sei que ter acesso a tudo isso é um imenso privilégio em um país onde a saúde de qualidade é para poucos; infelizmente, essa estrutura minuciosa de cuidado está longe de ser a realidade da maioria dos brasileiros que sofrem com a dor.
Conseguir uma simples consulta pelo SUS demora meses, e manter uma equipe particular de fisioterapeutas e médicos especializados é uma realidade financeira impossível.
O tratamento exige um autoconhecimento diário e rigoroso. Não posso fazer acupuntura tradicional nem massagens fortes que me apertem.
Como sinto muita dor na mandíbula, tenho inclusive o acompanhamento constante de um fisioterapeuta bucal.
Minha rotina mudou por completo: nada de noitadas, excesso de barulho ou luzes muito fortes. E se alguma dor ameaça começar, já tomo um relaxante muscular imediatamente para evitar que vire uma crise incapacitante.
Para além dos remédios e das clínicas, entendi que preciso de contato frequente com a natureza, manejo do estresse e de tirar da minha rotina tudo o que é negativo. Fortaleci meu lado espiritual para enfrentar inclusive o preconceito e a falta de informação que, como a própria novela das nove vem mostrando, ainda cercam a doença. Tive que aprender a filtrar comentários maldosos e a blindar minhas qualidades para seguir em frente.
A dor me transformou profundamente, mas foi a recusa em me entregar que definiu quem eu sou hoje: uma mulher que escolheu usar a própria história, a arte e a ciência para iluminar o caminho de milhares de outras pessoas que buscam o direito de voltar a viver com dignidade.
Franciely Freduzeski é atriz (fez “O Clone”, “América” etc) e psicóloga, tem 47 anos. Rodou por consultórios durante quatro anos, enfrentou cirurgias desnecessárias por diagnósticos errados, o uso de remédios e uma depressão profunda até descobrir a síndrome em 2022. Desde então, tornou-se ativista da causa e trabalha no consultório Efatá Psicologia Transformadora, na Barra, principalmente para quem convive com as dores crônicas e questões de saúde mental relacionadas à fibromialgia. Ela voltou à faculdade aos 40 anos durante o tratamento.
Fonte: Veja Rio.
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