A síndrome dos ovários policísticos (SOP), condição que afeta cerca de 170 milhões de mulheres no mundo, passará a ter um novo nome após um consenso internacional publicado nesta terça-feira na revista científica The Lancet. A partir de agora, a doença será chamada de síndrome ovariana metabólica poliendócrina (SOMP ou PMOS, na sigla em inglês). A mudança busca corrigir o que especialistas classificam como uma “definição imprecisa e limitada” da condição.
O novo termo foi anunciado durante o Congresso Europeu de Endocrinologia, em Praga, após um processo de discussão que durou 14 anos e reuniu mais de 50 organizações médicas e grupos de pacientes de diferentes países. Entre elas, a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).
De acordo com a endocrinologista e subcoordenadora do Departamento de Endocrinologia Feminina, Andrologia e Transgeneridade da SBEM, Poli Mara Spritzer, o objetivo é corrigir uma limitação antiga do termo “ovários policísticos”, que induz à ideia de que a síndrome se resume à presença de cistos nos ovários.
“Este processo de troca de nome foi uma iniciativa global de grande magnitude e, por isso, representativa de pacientes, clínicos e agentes de políticas públicas. A denominação antiga era errônea porque focava apenas nos chamados cistos, que na verdade não são cistos, mas folículos com crescimento interrompido. Além disso, algumas mulheres com o diagnóstico nem apresentam esse aspecto nos ovários”, explica em nota.
Na prática, muitas pacientes diagnosticadas com SOP sequer apresentam cistos ovarianos. A nova denominação tenta refletir melhor a complexidade da doença. O termo “poliendócrina” destaca o envolvimento de múltiplos hormônios, enquanto “metabólica” chama atenção para alterações associadas à resistência à insulina, obesidade, diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares. Já “ovariana” permanece no nome por causa dos impactos sobre a ovulação e a fertilidade.
“A síndrome tem causas genéticas, endócrinas e metabólicas, com o comprometimento de vários hormônios, como insulina, androgênios, hormônio luteinizante (LH) e hormônio antimülleriano (AMH). O novo nome é mais abrangente e inclusivo para as mulheres que convivem com a condição”, afirma a endocrinologista.
Especialistas que redigiram o documento afirmam que a mudança pode ajudar a reduzir atrasos no diagnóstico e ampliar a compreensão sobre os efeitos sistêmicos da condição, que também pode provocar acne, excesso de pelos, queda de cabelo, alterações menstruais e impactos na saúde mental.
De acordo com o consenso publicado no The Lancet, a implementação do novo nome será gradual e deve ocorrer ao longo dos próximos três anos, até ser incorporada oficialmente às diretrizes internacionais previstas para 2028. Essa alteração, porém, não interfere nos critérios diagnósticos.
A SOMP continua sendo identificada a partir da avaliação de alterações como irregularidade menstrual ou disfunção ovulatória, hiperandrogenismo clínico ou laboratorial, achados ovarianos compatíveis ou níveis AMH alterados, conforme diretrizes internacionais. O que muda é a forma de nomear e comunicar a síndrome.
“A adoção de uma nova nomenclatura vem de um processo de reconhecimento da complexidade desta síndrome, tanto na sua etiologia quanto na sua apresentação clínica e em suas complicações cardiometabólicas. O novo nome deixa mais claro que o diagnóstico vai muito além da aparência dos ovários e que o tratamento pode exigir uma abordagem multidisciplinar e suporte farmacológico diverso”, complementa a diretora e presidente eleita da SBEM, Karen de Marca.
Fonte: O Globo.
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