A EULAR – Aliança Europeia das Associações de Reumatologia — reconhece o papel dos diversos dados do mundo real como complemento ao conhecimento obtido em ensaios clínicos randomizados
Dados apresentados no Congresso Anual de 2026, em Londres, destacaram novas evidências do mundo real para pacientes com doenças reumáticas e musculoesqueléticas (RMD) — ampliando nosso entendimento desde fatores de risco até estratégias de tratamento.
Dados observacionais do mundo real, provenientes de registros, bases administrativas ou prontuários eletrônicos, permitem realizar análises em larga escala. Essas descobertas complementam os aprendizados obtidos em estudos randomizados e ajudam a melhorar o cuidado e os resultados dos pacientes.
Como exemplo, a EULAR recomenda uma estratégia chamada Treat-to-Target (T2T) para manejo da artrite reumatoide e outras doenças reumáticas, buscando remissão clínica ou baixa atividade da doença por meio de monitoramento frequente e ajustes rápidos da terapia. Entretanto, a implementação dessa estratégia na prática cotidiana ainda é pouco estudada.
AGORA, um grupo na Itália avaliou a adesão ao T2T em 1.494 consultas ambulatoriais de pessoas com:
- artrite reumatoide,
- artrite psoriásica,
- espondiloartrite.
Foi realizado um estudo retrospectivo para identificar as principais barreiras à implementação.
Os resultados mostraram que:
- A adesão geral ao T2T foi abaixo do ideal;
- Foi significativamente menor em pessoas com espondiloartrite (cerca de 40%) quando comparadas às taxas superiores a 70% em artrite reumatoide e artrite psoriásica;
- O principal obstáculo para aplicação consistente do T2T foi a ausência do registro formal da atividade da doença utilizando índices validados nos prontuários — motivo identificado em cerca de 90% dos casos de não adesão;
- Em menor proporção, a não adesão ocorreu por falha em adaptar o tratamento aos resultados da atividade da doença.
Os pesquisadores também avaliaram características clínicas associadas à adesão ao T2T.
Encontraram que:
- o tratamento com medicamentos biológicos ou DMARDs-alvo (ts/bDMARDs) esteve fortemente associado a melhor adesão;
- idade mais jovem esteve associada à maior adesão em artrite reumatoide e espondiloartrite;
- duração da doença e número de comorbidades não mostraram associação estatística.
Na conclusão, Giorgia Trignani, da Universidade de Milão (Itália), afirmou:
“Esses achados destacam possíveis dificuldades para implementar o T2T na prática clínica — e também possíveis caminhos para melhorar essa implementação e adesão.”
EVIDÊNCIAS DO MUNDO REAL EM REUMATOLOGIA
Outra recomendação central para pessoas com doenças reumáticas e musculoesqueléticas (RMD) é manter um peso saudável, já que isso pode contribuir para melhorar:
- atividade da doença,
- função física,
- e desfechos relatados pelos próprios pacientes.
Medicamentos agonistas do receptor GLP-1 (GLP-1RA), como semaglutida e tirzepatida, já são aprovados para diabetes tipo 2 e obesidade, e entender seus padrões de uso e efeitos em doenças reumáticas tornou-se uma questão importante.
Foram analisados dados de mais de 60 mil pacientes com doenças reumáticas utilizando GLP-1RA, provenientes do registro americano RISE (Rheumatology Informatics System for Effectiveness).
O estudo foi conduzido por Nick McCormick e colaboradores, com apresentação no congresso por Jeffrey Curtis.
Principais resultados:
- O IMC médio inicial foi de 36,3;
- Cerca de dois terços dos participantes tinham diabetes;
- Entre todas as doenças reumáticas, o uso de GLP-1 para perda de peso foi mais frequente em:
- artrite psoriásica,
- espondilite anquilosante,
- artrite reumatoide.
Após 12 meses:
- Pessoas sem diabetes usando tirzepatida perderam 8% do peso corporal inicial, comparado com 6% usando semaglutida;
- Pessoas com diabetes também perderam peso, mantendo o mesmo padrão de melhor desempenho da tirzepatida.
Os pesquisadores continuam avaliando:
- impacto dos GLP-1 na atividade da doença;
- função física;
- qualidade de vida relatada pelos pacientes;
- relação entre magnitude da perda de peso, dose e adesão ao tratamento.
Risco de doença pulmonar em artrite reumatoide
Pessoas com artrite reumatoide apresentam risco aumentado de desenvolver doença pulmonar intersticial associada à artrite reumatoide (RA-ILD), condição relacionada a alta mortalidade.
O estudo ANCHOR-RA é um grande estudo internacional que busca desenvolver um modelo para detectar precocemente essa complicação.
Foram incluídos:
- 1.169 participantes com artrite reumatoide
- todos apresentando pelo menos dois fatores de risco para doença pulmonar.
Resultados apresentados no Congresso EULAR 2026 mostraram:
- 9,1% tinham doença pulmonar intersticial não diagnosticada.
Fatores associados ao risco:
Fatores gerais:
- idade mais avançada;
- sexo masculino;
- maior exposição ao tabaco;
- maior atividade da artrite reumatoide.
Fatores pulmonares:
- menor saturação de oxigênio;
- alterações na difusão pulmonar;
- presença de crepitações na ausculta.
Fator genético:
- presença da variante do gene MUC5B.
Segundo Jeffrey Sparks, do Hospital Brigham and Women’s / Harvard:
“Este é o maior estudo prospectivo implementando uma estratégia de rastreamento para doença pulmonar intersticial entre pessoas com artrite reumatoide e fatores de risco. Aproximadamente 1 em cada 10 tinha doença ainda não diagnosticada.”
Os próximos passos serão validar modelos para estratificação de risco e investigar se intervenções precoces podem alterar a evolução natural da doença.
Tabagismo e artrite reumatoide: diferenças entre homens e mulheres na Suíça
Como citado anteriormente, o tabagismo está associado ao desenvolvimento de doença pulmonar intersticial na artrite reumatoide (RA-ILD).
Além disso, já se sabe que fumar é um dos principais fatores ambientais relacionados ao desenvolvimento da artrite reumatoide e também contribui fortemente para doenças cardiovasculares e pulmonares.
Embora a prevalência do tabagismo tenha diminuído na Europa na última década — especialmente entre jovens — pesquisadores da Suíça quiseram entender se essa redução também estava acontecendo entre pessoas com artrite reumatoide ou se os números gerais poderiam esconder desigualdades entre homens e mulheres.
Para isso, Eve Caroline Berthouzoz e colaboradores analisaram dados repetidos de pacientes do registro suíço SCQM (Swiss Clinical Quality Management).
Foram incluídos:
- 5.523 consultas
- envolvendo 3.983 pacientes
- com status tabagista documentado.
Resultados:
A prevalência atual de tabagismo entre pacientes suíços com artrite reumatoide acompanhou a tendência nacional de queda:
- caiu de 18,5% em 2012 para 15,1% em 2022;
Comparação com a população geral:
- população geral: 28,2% → 23,9%
Mas surgiu um dado importante:
Entre os homens com artrite reumatoide, a exposição ao tabaco ao longo da vida (já ter fumado em algum momento) aumentou entre 2012 e 2022:
- de 64,9% para 68,8%
Enquanto na população masculina geral houve redução:
- de 57,0% para 51,4%
Outro achado:
Entre mulheres com artrite reumatoide, o percentual de quem já fumou permaneceu consistentemente menor do que na população geral.
Mesmo após ajustes por idade e escolaridade, os pesquisadores confirmaram um aumento do excesso de exposição ao tabagismo ao longo da vida especificamente em homens com artrite reumatoide.
Os autores destacam que:
- esse aumento é consistente com o papel do cigarro como fator de risco para artrite reumatoide;
- os programas populacionais de prevenção ao tabagismo na Suíça podem ter sido menos efetivos entre homens que posteriormente desenvolveram artrite reumatoide.
Conclusão geral
Esses quatro estudos reforçam o valor dos dados do mundo real (real-world data) em doenças reumáticas e musculoesqueléticas.
Essas fontes de evidência estão sendo cada vez mais utilizadas para:
- orientar decisões clínicas;
- complementar estudos controlados;
- compreender melhor fatores de risco;
- avaliar resultados na prática cotidiana;
- melhorar estratégias de tratamento.
Fonte: EULAR Press Release
*Cobertura de imprensa de EULAR 2026, realizado pela jornalista, Priscila Torres com incentivo social da Abbvie do Brasil.
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