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Home Notícias

SAF: tratamento permite gravidez saudável em até 90% dos casos

por Priscila Torres
05/10/2026
em Notícias
SAF: tratamento permite gravidez saudável em até 90% dos casos

A história da carioca Úrsula Bonomo ilustra o impacto da Síndrome do Anticorpo Antifosfolípide (SAF), uma doença autoimune ainda pouco conhecida, mas considerada uma das principais causas tratáveis de perdas gestacionais recorrentes e também associada à trombose, inclusive em pessoas com menos de 50 anos. 

Na primeira gravidez, Úrsula perdeu a filha Lara com 35 semanas. Como os exames não apontavam alterações no desenvolvimento do bebê, recebeu apenas a informação de que se tratava de uma fatalidade e seguiu sendo acompanhada pela mesma obstetra na gestação seguinte. 

Na segunda gravidez, precisou interromper a gestação com 31 semanas após exames indicarem risco para o bebê. O filho, Pedro, nasceu prematuro, com 1,72 kg, permaneceu 20 dias na UTI neonatal apenas para ganhar peso e não teve sequelas. Apesar do susto, ela lembra que o sentimento predominante foi de gratidão por tê-lo nos braços. 

Foi somente após comparar os resultados das placentas das duas gestações — ambas com infartos placentários e importantes alterações — que decidiu procurar um especialista em gestação de alto risco. Uma nova bateria de exames confirmou o diagnóstico de SAF. 

À esquerda, Úrsula grávida de Lara, que perdeu com 35 semanas de gestação. À direita, com o filho Pedro, que nasceu prematuro — Foto: Arquivo pessoal / Alê Riemer 

Depois disso, Úrsula conseguiu ainda ter mais dois bebês saudáveis, com o tratamento adequado durante as gestações. 

Segundo especialistas, esse tipo de atraso no diagnóstico ainda é comum, embora a doença tenha tratamento capaz de elevar para até 90% a chance de nascimento de um bebê vivo e saudável. 

A investigação para a condição não faz parte do pré-natal de rotina quando não há histórico de perdas gestacionais ou histórico de trombose prévio. 

O que é a SAF e por que ela afeta a gravidez? 

A Síndrome do Anticorpo Antifosfolípide é uma doença autoimune em que o sistema imunológico produz anticorpos que favorecem a formação de coágulos no sangue. 

Esses trombos podem provocar trombose em veias e artérias e também comprometer a circulação da placenta durante a gestação. 

Quando os vasos placentários são obstruídos, o bebê deixa de receber sangue, oxigênio e nutrientes adequadamente. Isso aumenta o risco de aborto, morte fetal intrauterina, pré-eclâmpsia, restrição do crescimento fetal e parto prematuro, explica o professor de ginecologia da UERJ, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana e especialista em reprodução humana da Clínica Vida/FertGroup, Paulo Gallo. 

A presidente da Sociedade Paulista de Reumatologia, Danieli Andrade, acrescenta que os anticorpos também interferem na formação dos vasos da placenta, dificultando o desenvolvimento fetal. 

Além das complicações obstétricas, a SAF pode causar tromboses em diferentes partes do corpo, principalmente acidente vascular cerebral (AVC) e trombose venosa profunda. 

Estima-se que entre 1% e 5% da população possua anticorpos antifosfolípides, embora apenas uma parcela desenvolva a doença clínica. 

Quando investigar a síndrome? 

Segundo Gallo, a SAF está entre as três causas mais frequentes de abortamento recorrente. 

A investigação deve ser considerada em mulheres com perdas gestacionais repetidas, perdas fetais tardias sem causa aparente e também em pessoas que tiveram trombose em idade jovem, especialmente na ausência de fatores clássicos de risco. 

O diagnóstico é feito por exames de sangue que pesquisam três grupos de anticorpos: 

  • anticoagulante lúpico; 
  • anticardiolipina (IgG e IgM); 
  • anti-beta-2-glicoproteína I (IgG e IgM). 

Para confirmar a síndrome, é necessário que os exames alterados sejam repetidos após alguns meses. Essa investigação, porém, não faz parte do pré-natal de rotina quando não há histórico de perdas gestacionais. 

Galo explica que o há pacientes com alteração nos exames de sangue, mas sem manifestar a síndrome. Além disso, não é recomendado usar aspirina sem indicação. Isso porque, se a paciente tiver algum acidente, pode aumentar o risco de hemorragia em caso de acidente ou cirurgia de emergência. 

“Foi um alívio saber contra o que eu estava lutando” 

Úrsula conta que já conhecia a SAF, mas não imaginava que pudesse ter a doença porque havia realizado diversos exames anteriormente, inclusive para trombofilia, sem chegar ao diagnóstico. 

Quando recebeu o resultado positivo, a reação foi inesperada. “Eu senti um alívio tão grande, porque eu era assintomática (não tenha histórico prévio de trombose). Saber qual era o monstro que eu estava enfrentando e confiar que meu médico conseguiria resolver o problema me deu segurança para tentar uma nova gestação”, conta. 

A partir do teste positivo, iniciou tratamento com ácido acetilsalicílico em baixa dose e enoxaparina sódica desde o início da gravidez, conforme orientação médica. 

O medo permaneceu durante toda a gestação 

Mesmo com o tratamento, a tranquilidade nunca foi completa. Úrsula relata que fazia ultrassonografias semanais no fim da gravidez e que cada exame despertava lembranças da perda da primeira filha. 

“Toda ultrassonografia era um gatilho. Quando perdi minha bebê, fui avisada da morte justamente durante uma ultrassonografia. Eu fazia minhas orações e sempre tinha uma leve taquicardia”, lembra. 

Ela também afirma que o marido tinha receio de que a doença colocasse sua própria vida em risco, o que tornou a decisão de tentar novas gestações ainda mais difícil. 

Duas gestações a termo após o tratamento 

O tratamento mudou completamente o desfecho das gestações seguintes. Depois do diagnóstico, Úrsula teve dois filhos nascidos com 40 semanas. O contraste em relação ao nascimento prematuro anterior chamou sua atenção. 

“Passei de uma criança que nasceu com 1,720 kg e 31 semanas para uma criança de 4,2 kg, com 40 semanas. Pensei: o tratamento funcionou”, comemora Úrsula. 

Úrsula explica que uma imagem traduz o preço invisível de uma gestação de alto risco: seu terceiro filho recém-nascido, o João, rodeado de diversas seringas usadas ao longo de toda a gestação para aplicação de enoxaparina. 

João rodeado de seringas usadas no tratamento para a SAF — Foto: Fran Souza

Ela conta que as pessoas veem um bebê dormindo, mas ela vê meses de medo, de coragem e de fé: 

“Cada seringa foi um gesto de amor. Nenhuma delas simboliza dor para mim, simboliza vida. O João está cercado pelas seringas porque, de certa forma, elas ajudaram a trazê-lo até aqui. O tratamento não é a história da doença, é a história da vida que ele tornou possível”, explica Úrsula. 

Hoje ela acredita que um diagnóstico mais precoce teria mudado sua história: “Não tenho dúvida de que minha filha estaria aqui hoje. O que mais me preocupa é pensar nas mulheres que continuam sem esse diagnóstico”. 

À esquerda, Úrsula grávida de 38 semanas do Lucas e durante tratamento para a SAF. À direita, Úrsula grávida grávida do João, com marcas das injeções na barriga — Foto: Missuê Mariano 

Raquel enfrentou perdas, trombose e realizou o sonho da maternidade pela adoção 

A paulista Raquel Devisati também convive com a SAF. Após uma perda gestacional ainda jovem, engravidou novamente, desenvolveu trombose e perdeu o bebê com 14 semanas. Na terceira gestação, perdeu o filho Lorenzo com 26 semanas. 

Foi somente após essa sequência de complicações que recebeu o diagnóstico. Mesmo com tratamento, enfrentou uma quarta perda gestacional. Anos depois, realizou o sonho da maternidade por meio da adoção da filha Maitê, acolhida quando tinha dois meses de vida. 

Hoje, aos 51 anos, mantém a doença controlada com anticoagulantes, acompanhamento médico regular e leva uma vida ativa. 

Raquel Devisati com a filha Maitê — Foto: Arquivo pessoal 

Tratamento aumenta as chances de sucesso 

Segundo Gallo, o tratamento costuma combinar ácido acetilsalicílico em baixa dose e heparina de baixo peso molecular, como a enoxaparina. 

Esses medicamentos reduzem a formação de coágulos que poderiam comprometer a circulação da placenta. 

De acordo com o especialista, entre cada dez mulheres tratadas, oito ou nove conseguem levar a gestação até o nascimento de um bebê vivo e saudável. 

Andrade ressalta que também é importante controlar outros fatores de risco para trombose, como colesterol elevado, excesso de peso e tabagismo. 

Quando a SAF provoca insuficiência placentária grave e leva ao parto prematuro ou à restrição do crescimento fetal, o recém-nascido pode enfrentar complicações, como síndrome do desconforto respiratório, sepse, hipoglicemia, dificuldade para manter a temperatura corporal, icterícia e problemas para se alimentar. 

Segundo o cirurgião pediátrico e diretor médico da Werfen, Tiago Silva, esses bebês também podem apresentar maior risco de alterações do desenvolvimento neurológico e de doenças cardiovasculares e metabólicas ao longo da vida, motivo pelo qual necessitam de acompanhamento pediátrico estruturado desde o período neonatal. 

Diagnóstico ainda demora 

Apesar de ser uma doença tratável, a SAF continua sendo frequentemente subdiagnosticada. 

Segundo Gallo, isso ocorre tanto pela pouca divulgação da síndrome quanto pela dificuldade de reunir o histórico obstétrico completo das pacientes. 

Para Andrade, o custo dos exames e a falta de familiaridade de alguns profissionais com a doença também contribuem para o atraso. 

Os especialistas afirmam que reconhecer precocemente os sinais de alerta pode evitar novas perdas gestacionais, reduzir o risco de trombose e aumentar significativamente as chances de uma gravidez bem-sucedida. 

Fonte: G1. 

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