Não é igual: sintomas de artrite e artrose são parecidos e podem confundir

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A lista de doenças é imensa e muitas delas, por terem sintomas e características parecidos, acabam gerando dúvidas e até sendo constantemente confundidas, inclusive pelos próprios pacientes. Um exemplo clássico é artrite reumatoide x osteoartrite (ou artrose).

Para se ter uma ideia, uma pesquisa realizada pelo Ibope Inteligência a pedido da farmacêutica Pfizer Brasil mostra que 66% dos brasileiros acreditam elas são a mesma enfermidade. Só que não são, e tratá-las como iguais pode ser altamente prejudicial.

Para explicar melhor cada uma delas, VivaBem conversou com a reumatologista Licia Mota, coordenadora da Comissão de Artrite Reumatoide da SBR (Sociedade Brasileira de Reumatologia), diretora-científica da SRB (Sociedade de Reumatologia de Brasília) e professora da pós-graduação em ciências médicas da FM-UnB (Faculdade de Medicina da Universidade de Brasília), e Luciana Parente Costa Seguro, professora da disciplina de reumatologia da FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo).

O que é artrite reumatoide?

Trata-se de uma doença inflamatória crônica e autoimune, cuja principal característica é a inflamação das articulações. Como explica Mota, ela se dá quando o sistema imunológico passa a atacar o próprio organismo e atinge o tecido que reveste as articulações, chamado de sinóvia, em especial de mãos, punhos, pés e tornozelos.

Essa condição, que acomete cerca de 1% da população, pode ocorrer com qualquer pessoa e em qualquer faixa etária, desde crianças até idosos, mas é mais frequente em mulheres (para cada 10 portadores, de 4 a 5 são do sexo feminino) e dos 30 aos 50 anos.

Suas causas ainda não são totalmente conhecidas. “O que sabemos é que ela é multifatorial. Envolve fatores genéticos, familiares (quanto mais casos na mesma família, maiores as chances), infecciosos, hormonais (daí ser mais prevalente em mulheres), e ambientais, sendo que o tabagismo é o mais importante”, comenta a reumatologista.

Na lista de sintomas estão dor, edema, inchaço, vermelhidão e calor nas articulações, geralmente acompanhados de rigidez nas áreas inflamadas depois de um período de repouso prolongado, sobretudo ao acordar, e que vai melhorando conforme a pessoa se movimenta. Cansaço (ou fadiga) também é uma manifestação comum.

Se não tratada corretamente, a artrite reumatoide evolui de forma gradual para a destruição das articulações, resultando em deformidades e, consequentemente, em incapacidade para a realização de atividades profissionais e pessoais, inclusive de autocuidado, como tomar banho e se alimentar.

Fora isso, nos casos mais graves (e mais raros) pode haver comprometimento de outros órgãos e tecidos (pulmão, coração, olhos, rim, sistema nervoso, unhas e músculos são alguns).

Por falar em tratamento, Mota afirma que houve uma verdadeira revolução nessa área nas últimas décadas. “Há 30 ou 40 anos, a abordagem terapêutica era bem restrita. Hoje, no entanto, apesar de a patologia não ter cura, já é possível fazer o seu controle completo, evitar a progressão e atingir a remissão, assim o paciente consegue levar uma vida normal, sem sintomas e complicações.”

A escolha dos fármacos depende do estágio e da gravidade de cada caso. No geral, são utilizados anti-inflamatórios, analgésicos e corticoides para combater dores e inflamações e, junto a isso, prescritas as chamadas drogas modificadoras do curso da doença —a maior parte delas imunossupressoras—, que podem ser sintéticas ou biológicas, e orais ou injetáveis. O tempo de uso quase sempre é prolongado.

Em relação ao diagnóstico, ele é feito através de avaliação física e do histórico do paciente. Exames complementares também podem ser necessários, em especial de sangue (para verificar a atividade inflamatória e a presença de anticorpos positivos, como o fator reumatoide) e de imagem, por exemplo, radiografia, ultrassonografia, tomografia, ressonância magnética.

Seguro, da FMUSP, diz que, infelizmente, não há como evitar a artrite reumatoide. “Alguns estudos até indicam que a vitamina D poderia auxiliar na prevenção, devido às suas possíveis propriedades imunomodulatórias, de melhorar o controle do sistema imunológico, mas, por enquanto, são apenas teorias. De toda forma, é importante ter uma vida saudável, não fumar, pois o cigarro aumenta à suscetibilidade à doença, e praticar atividade física”, indica.

O que é a osteoartrite?

Mais conhecida como artrose, a osteoartrite —nomenclatura que só aumenta a confusão em relação à artrite reumatoide— ou osteoartrose, é uma doença articular degenerativa. De acordo com a SBR, no conjunto das enfermidades agrupadas sob a designação de “reumatismos”, ela é a mais frequente, representando entre 30% e 40% das consultas realizadas com reumatologistas.

“Nela, o que acontece inicialmente é o desgaste da cartilagem, tecido que reveste e protege os ossos. Devido a esse processo, é comum o paciente desenvolver lesões ósseas, chamadas de osteoses, como os populares bicos de papagaio e joanetes. Também pode haver inflamação, mas não é primordial como na artrite reumatoide”, diz a professora da USP.

Essa patologia está relacionada com a idade, portanto, é mais comum após os 55 ou 60 anos e acomete preferencialmente colunas, quadris, joelhos, mãos e pés.

Quanto às causas, a predisposição genética e o histórico familiar são importantes, sobretudo quando a doença atinge as mãos. Também pode ser um processo secundário a outras condições como traumas, sobrepeso, movimentos repetitivos, condromalácia patelar e alterações anatômicas, tais como joelho com desvios de direção (em varo ou em valgo).

Os sintomas são parecidos com os da artrite reumatoide, mais uma razão para as pessoas confundirem as duas enfermidades. De acordo com Mota, eles incluem dor, inchaço e derrame (líquido dentro da articulação), deformidades e formação de nódulos.

“Mas, neste caso, o padrão de dor é diferente. É uma dor mecânica, que se manifesta a medida em que a pessoa se movimenta ou depois que ela passa muito tempo na mesma posição ou em uma posição desconfortável.”

No geral, o diagnóstico é feito com base em exames clínicos e histórico familiar, mas exames complementares de imagem podem ser necessários. A osteoartrite também não tem cura e seu tratamento é feito basicamente para controle da dor, com o uso de analgésicos e anti-inflamatórios, e proteção da cartilagem, através dos condroprotetores —mas sua eficácia ainda é um tanto controversa, dizem as especialistas.

Além disso, é fundamental manter o peso sob controle e fazer atividade física para fortalecimento da musculatura, mas desde que não seja de impacto, principalmente correr e pular. “Em alguns casos também são recomendadas infiltração de corticoides ou ácido hialurônico e, nos quadros mais graves de quadril e joelho, cirurgia para colocação de prótese”, completa a professora Seguro.

Pesquisa traz dados preocupantes

A pesquisa “Desmistificando o reumatismo: a percepção dos brasileiros perante a artrite reumatoide e outras doenças de elevado potencial incapacitante”, realizada pelo Ibope Inteligência a pedido da Pfizer Brasil, revela ainda outros dados interessantes e, ao mesmo tempo, assustadores.

Por exemplo: 30% dos entrevistados afirmam que, caso tivessem, menosprezariam sintomas como inchaço, rigidez, aumento da temperatura e vermelhidão nas articulações e não buscariam ajuda médica, e apenas 47% dos que disseram sentir dor constante, no mesmo local e por mais de três meses, foram atrás de orientação —destes, só 4% foram a um reumatologista.

A automedicação foi a atitude mais citada para tentar solucionar o problema (40%), acompanhada da postergação do tratamento (13% não procuraram nenhuma solução e permaneceram com dor).

Quando perguntados sobre os fatores relacionados ao desenvolvimento das doenças reumáticas, 62% apontaram erroneamente a falta de cálcio, 61% o carregamento de peso e 56% estar acima do peso corporal saudável.

Quanto às consequências das patologias, 78% não sabiam das suas características incapacitantes.

E em se tratando especificamente da artrite reumatoide, a pesquisa aponta que 54% dos brasileiros não conhecem ou têm visões erradas sobre o tratamento, negando, inclusive, a possibilidade de existirem diferentes tipos de terapias.

Fonte: Viva Bem Uol.

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