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Medicamentos essenciais do futuro: debate na 79ª Assembleia Mundial da Saúde alerta que inovação só importa quando chega aos pacientes

por Priscila Torres
02/06/2026
em cns, Notícias, Participação Social, SUS
Medicamentos essenciais do futuro: debate na 79ª Assembleia Mundial da Saúde alerta que inovação só importa quando chega aos pacientes

Evento paralelo discutiu como a Lista de Medicamentos Essenciais da OMS deve responder ao avanço das terapias inovadoras, aos altos preços, às desigualdades de acesso e à necessidade de transformar evidência científica em cuidado real

Genebra, maio de 2026 — Em um cenário global marcado pelo avanço acelerado da inovação biomédica e pela persistência de profundas desigualdades no acesso a tratamentos, o evento paralelo “Futuro da Lista de Medicamentos Essenciais e a Acessibilidade de Medicamentos Inovadores”, realizado durante a 79ª Assembleia Mundial da Saúde, reuniu especialistas, representantes de governos, pesquisadores, organizações da sociedade civil e atores globais da área farmacêutica para discutir um dos temas mais estratégicos da saúde pública internacional: como garantir que medicamentos considerados essenciais sejam, de fato, acessíveis às pessoas que deles necessitam.

A discussão partiu de uma constatação comum entre os debatedores: a Lista Modelo de Medicamentos Essenciais da Organização Mundial da Saúde — OMS continua sendo uma das ferramentas mais importantes da saúde global, mas precisa evoluir para responder a uma realidade terapêutica cada vez mais complexa. Se, em sua origem, a lista foi associada a medicamentos consolidados, de grande impacto populacional e geralmente mais disponíveis, hoje ela precisa dialogar com novas gerações de terapias, incluindo imunoterapias, medicamentos biológicos, tratamentos para doenças raras, terapias gênicas e outras tecnologias inovadoras de alto custo.

A pergunta que atravessou toda a mesa foi objetiva e, ao mesmo tempo, desafiadora: como a lista pode continuar sendo uma referência científica global sem se tornar distante da vida real dos pacientes?

Uma lista que deixou de ser apenas técnica e passou a ser estratégica

Na abertura do debate, foi ressaltado que o conceito de medicamentos essenciais não perdeu relevância. Ao contrário, tornou-se ainda mais necessário em um mundo onde os sistemas de saúde enfrentam pressões crescentes por novas tecnologias, orçamentos limitados e desigualdades profundas no acesso.

A fala inicial destacou que a Lista de Medicamentos Essenciais não deve ser compreendida apenas como uma relação de produtos selecionados, mas como uma ferramenta capaz de influenciar políticas públicas, prioridades nacionais, programas de assistência farmacêutica, compras governamentais, sistemas de reembolso, estratégias de regulação e decisões sobre tecnologias em saúde.

Um dos pontos centrais foi a evolução da própria lista. Historicamente, muitos associavam medicamentos essenciais a produtos antigos, genéricos ou amplamente disponíveis. No entanto, os debatedores observaram que essa visão já não corresponde à realidade atual. A lista passou a incorporar tecnologias mais próximas do ciclo de inovação, exigindo decisões mais complexas sobre evidência, custo, disponibilidade e sustentabilidade.

Como exemplo, foi citada a área do diabetes. A evolução terapêutica passou da metformina e da insulina humana para insulinas análogas, inibidores de SGLT2 e agonistas de GLP-1, formando um cenário em que a lista precisa orientar escolhas dentro de várias gerações de medicamentos para a mesma condição. O mesmo desafio aparece na oncologia, nas doenças autoimunes e nas doenças raras, onde terapias inovadoras podem mudar desfechos clínicos, mas frequentemente chegam ao mercado com preços elevados.

A mensagem foi clara: o futuro da Lista de Medicamentos Essenciais não é apenas selecionar medicamentos, mas orientar sistemas de saúde sobre como priorizar, financiar, negociar e entregar tecnologias de forma equitativa.

 

A fala sobre a OMS: essencialidade precisa caminhar com acesso

A primeira intervenção de caráter institucional destacou que a Lista de Medicamentos Essenciais deve equilibrar três dimensões: relevância em saúde pública, evidência científica e viabilidade de acesso. O representante ressaltou que a lista moderna precisa lidar com paisagens terapêuticas complexas, em que há múltiplas opções dentro da mesma classe farmacológica e diferentes linhas de tratamento.

A fala também enfatizou que a lista não pode ser vista como uma ferramenta estática. Ela deve estimular políticas que ampliem o acesso e otimizem valor, como o uso de genéricos e biossimilares, a competição terapêutica, a substituição entre alternativas equivalentes, a diversificação geográfica da produção, a transferência de tecnologia e a adoção de mecanismos que permitam ampliar a disponibilidade de produtos prioritários.

Outro ponto relevante foi a relação entre medicamentos e diagnósticos. O debate lembrou que o acesso ao medicamento depende também de capacidade diagnóstica. Sem diagnóstico oportuno, infraestrutura laboratorial, profissionais capacitados e organização da rede, a presença de uma tecnologia em uma lista não garante cuidado efetivo.

A fala concluiu com uma mensagem importante: a inclusão na Lista de Medicamentos Essenciais é apenas um passo na direção do acesso. Para que a decisão tenha impacto real, é necessário fortalecer todos os demais elementos de implementação das políticas de saúde.

 

Dr. Hans: a lista precisa ser científica, global e mais útil para os países

O Dr. Hans, apresentado como cochair da Comissão Lancet sobre Medicamentos Essenciais, trouxe uma reflexão ampla sobre o futuro da lista diante dos novos desafios globais. Ele lembrou que o primeiro relatório da Comissão Lancet, publicado em 2017, segue sendo amplamente citado e utilizado, mas afirmou que um novo relatório está sendo preparado para 2027, ano simbólico por marcar os 50 anos da Lista Modelo da OMS.

Segundo ele, os desafios atuais são diferentes daqueles enfrentados no passado. A pandemia de Covid-19 expôs fragilidades no acesso, nas cadeias de suprimento e na dependência de produção externa. Muitos países passaram a defender produção nacional ou regional, mas o debatedor alertou que é preciso avaliar com rigor quando a produção local é, de fato, a melhor resposta e quais evidências sustentam essa decisão.

O Dr. Hans também defendeu que o futuro da lista deve incluir temas como legislação pública, transparência, práticas anticompetitivas, desigualdade, acesso tardio e mecanismos regulatórios capazes de transformar recomendações globais em mudanças concretas nos países. Para ele, uma lista global precisa ser útil especialmente para países que estão tentando expandir cobertura, proteção social e acesso a medicamentos dentro de sistemas de saúde com recursos limitados.

Uma das propostas mais fortes de sua fala foi substituir avaliações isoladas por revisões terapêuticas completas. Em vez de analisar apenas aplicações individuais, a lista deveria revisar grupos inteiros de medicamentos, comparando alternativas, identificando tecnologias obsoletas e organizando caminhos terapêuticos mais coerentes. Essa abordagem permitiria, por exemplo, apresentar opções progressivas — de medicamentos mais simples e acessíveis a terapias mais complexas — ajudando países a adaptar decisões à sua realidade.

Ele também sugeriu que a lista poderia evoluir para uma base de dados global, digital e pesquisável, permitindo consultar quando um medicamento foi avaliado, quais evidências existiam naquele momento, que argumentos foram considerados e como a decisão evoluiu ao longo do tempo. Essa modernização tornaria a lista mais transparente e útil para governos, pesquisadores, gestores e sociedade civil.

Outro ponto importante foi a defesa de estratégias de acesso antecipadas. O Dr. Hans questionou se empresas que desenvolvem novos medicamentos promissores deveriam ser avaliadas também por sua estratégia de acesso: preço, patentes, licenciamento voluntário e planos para disponibilização em diferentes países. Para ele, a discussão sobre acesso não pode começar apenas depois da aprovação ou da inclusão na lista.

 

Dr. Lorenzo: o desafio financeiro dos medicamentos inovadores

O Dr. Lorenzo, identificado na transcrição como debatedor convidado, trouxe ao painel a preocupação com o peso financeiro dos medicamentos inovadores. Sua fala, embora parcialmente prejudicada por trechos incompletos da transcrição, apontou para uma tensão recorrente: alguns países não estão em condições de incorporar facilmente todas as novas tecnologias, ainda que elas apresentem valor clínico.

Ele chamou atenção para o fato de que medicamentos inovadores podem representar avanços importantes, mas também geram desafios de financiamento para sistemas públicos e seguros de saúde. A questão colocada foi como distinguir, em um cenário de inovação acelerada, quais terapias devem ser tratadas como verdadeiramente essenciais, quais ainda precisam de mais evidência e quais dependem de melhores condições de preço e implementação para se tornarem viáveis.

A contribuição reforçou uma preocupação presente em todo o evento: o valor clínico de uma tecnologia precisa ser analisado junto com sua possibilidade real de acesso. Sem isso, a inovação corre o risco de permanecer como promessa científica, sem se converter em benefício concreto para os pacientes.

 

Larissa Kniashko: a experiência da Ucrânia na avaliação e no reembolso

A debatedora Larissa Kniashko, apresentada como diretora ligada à área de avaliação de tecnologias em saúde do Ministério da Saúde da Ucrânia, apresentou a experiência do país no uso da Lista de Medicamentos Essenciais como referência para reembolso, compras públicas, hospitais e cobertura em saúde.

Ela explicou que a Ucrânia utiliza critérios de eficácia clínica e segurança na avaliação de novas solicitações. Quando uma empresa submete um medicamento para avaliação, são analisadas as evidências clínicas, a relação de custo-efetividade e a possibilidade de oferta na realidade local.

Um dado relevante apresentado foi que, desde 2021, o país avaliou mais de 100 solicitações de novos medicamentos, sendo que cerca de 25% foram incluídos na lista nacional de medicamentos essenciais. No entanto, menos de 50% desses medicamentos foram considerados custo-efetivos para a realidade ucraniana.

A experiência da Ucrânia evidenciou a importância de ferramentas complementares para garantir acesso, como acordos de gestão, negociação de preços e mecanismos que permitam lidar com inovações de alto custo. Para Larissa, a lista deve ser acompanhada de um caminho prático de implementação, capaz de orientar como o medicamento chegará ao paciente.

Sua fala reforçou uma das ideias centrais do evento: a lista orienta, mas não executa sozinha. É preciso haver instrumentos nacionais de financiamento, negociação, avaliação e organização do sistema.

 

Representante da sociedade civil da Índia: a lista deve ser piso, não teto

Uma das falas mais contundentes veio da representante que relatou sua atuação com pacientes na Índia e com governos em temas relacionados ao acesso a medicamentos. Sua intervenção trouxe a perspectiva da sociedade civil e dos pacientes, afirmando que a Lista de Medicamentos Essenciais da OMS é um dos documentos normativos mais importantes da saúde global, mas precisa ser usada de forma mais ambiciosa pelos países.

Para ela, os governos deveriam tratar a lista como um piso, e não como um teto. Ou seja, a presença de um medicamento na lista da OMS deveria orientar sua inclusão nas políticas nacionais, mas a ausência de determinada tecnologia não deveria impedir que países adotem tratamentos necessários em suas realidades. Quando um país decide não incluir uma tecnologia considerada importante, deveria haver justificativa científica clara.

A debatedora citou a dificuldade de incorporar imunoterapias, como o pembrolizumabe, e medicamentos para doenças raras, como terapias de alto custo associadas à fibrose cística. Também chamou atenção para terapias gênicas, celulares e medicamentos transformadores que podem mudar radicalmente a vida dos pacientes, mas permanecem inacessíveis devido ao preço.

Sua fala defendeu que a inclusão de terapias inovadoras na lista deve funcionar como um gatilho para estratégias nacionais de acesso. Isso pode incluir regras de preço, esquemas públicos de cobertura, licenciamento, uso governamental, licenças compulsórias e mecanismos compassivos. A mensagem foi direta: não se trata de pedir que todos os medicamentos sejam ofertados gratuitamente sem critérios, mas de exigir que governos e empresas criem caminhos concretos para que terapias essenciais cheguem aos pacientes.

 

Representante do setor produtivo: a lista é guia, não mecanismo automático de cobertura

Outro debatedor, identificado na transcrição como Carlos, apresentou uma perspectiva mais voltada à necessidade de coerência entre a lista global, as políticas nacionais e a infraestrutura de implementação. Ele ressaltou que a Lista de Medicamentos Essenciais da OMS é uma referência importante, mas não deve ser interpretada como um mecanismo automático de obrigação de cobertura ou reembolso.

Para ele, garantir acesso exige três elementos principais: coerência política, infraestrutura adequada e sistemas de saúde preparados. Isso inclui regras claras, cadeias de suprimento resilientes, disponibilidade de matérias-primas, serviços organizados, hospitais, médicos, farmacêuticos e mecanismos capazes de acompanhar o impacto real das tecnologias.

A fala também alertou para o risco de se criar categorias demais dentro da lista, o que poderia diluir sua força normativa. Na visão apresentada, a lista deve continuar sendo uma orientação técnica, enquanto a acessibilidade deve ser enfrentada por meio de ação governamental, negociação e políticas públicas específicas.

O debatedor reconheceu a relevância das terapias gênicas e de outras tecnologias transformadoras, mas ponderou que a discussão sobre acesso deve considerar também os desafios de implementação e sustentabilidade.

 

Esteban: é preciso pensar no tempo certo de listar e agir antes da inclusão

O debatedor Esteban trouxe uma das análises mais conceituais do evento. Ele afirmou ser um defensor da Lista de Medicamentos Essenciais, mas apontou que sua importância exige também uma reflexão crítica sobre como ela pode ser modernizada.

O primeiro ponto apresentado foi o tempo. Segundo ele, há uma pergunta difícil: quando é o momento certo para considerar um medicamento essencial? Em algumas situações, os dados ainda são iniciais; em outras, esperar mais dois anos pelo ciclo regular de atualização pode significar atraso no acesso. A lista é revisada periodicamente, mas a necessidade dos pacientes e a dinâmica da inovação nem sempre seguem esse mesmo calendário.

Esteban também defendeu que o trabalho de acesso deve começar antes da inclusão formal na lista. Se um medicamento tem alto potencial de se tornar essencial, os países e organismos internacionais poderiam começar a preparar condições de acesso com antecedência, especialmente quando são necessários anos para viabilizar licenciamento, registro, produção genérica ou negociações de preço.

Outro ponto importante foi a diferença entre eficácia e custo. A eficácia de um medicamento pode evoluir com a geração de novas evidências, mas tende a ser mais comparável entre países. Já o custo varia enormemente conforme negociações, patentes, exclusividade de mercado, políticas nacionais e acordos específicos. Para ele, isso torna muito complexa a decisão global sobre essencialidade, pois a mesma tecnologia pode ser financeiramente viável em um país e inacessível em outro.

Esteban também abordou a produção local e regional. Após a Covid-19, muitos países passaram a defender a produção doméstica como estratégia de segurança sanitária. Mas ele questionou: quais produtos devem ser produzidos localmente? Por quais razões? Para melhorar preço? Para garantir segurança de abastecimento? Para ampliar autonomia? Sua fala sugeriu que essas decisões precisam ser baseadas em evidências e não apenas em respostas políticas imediatas.

Por fim, ele questionou a lógica binária da lista: estar dentro ou estar fora. Para medicamentos com evidência promissora, mas ainda com barreiras de preço ou implementação, talvez seja necessário criar mecanismos intermediários que reconheçam seu potencial e mobilizem estratégias de acesso antes que a decisão final seja tomada.

 

Arianna Jolson: quando a ausência na lista dificulta o uso de mecanismos legais de acesso

A pesquisadora Arianna Jolson, apresentada como especialista em propriedade intelectual, trouxe exemplos concretos de como a presença ou ausência de um medicamento na Lista de Medicamentos Essenciais pode influenciar mecanismos legais de acesso.

Ela relatou experiências relacionadas à pandemia de Covid-19, incluindo uma tentativa no Canadá de usar mecanismos legais para exportação de vacinas contra Covid-19 para a Bolívia, com base em regras de propriedade intelectual. Um dos entraves foi que, para acionar determinados mecanismos, o produto precisava estar listado em instrumentos legais vinculados à Lista de Medicamentos Essenciais. Como as vacinas contra Covid-19 não estavam contempladas naquele momento, a ausência dificultou o processo.

A pesquisadora também mencionou a busca por licença compulsória na República Dominicana para o Paxlovid, tratamento utilizado na resposta à Covid-19. Segundo a fala, uma listagem na EML poderia ter fortalecido o argumento sobre a importância médica do tratamento.

Arianna retomou uma proposta antiga de criar uma lista secundária ou categoria complementar para produtos considerados essenciais, mas temporariamente inacessíveis por preço ou outras barreiras. A ideia seria reconhecer que determinados medicamentos têm relevância clínica e de saúde pública, ainda que não estejam disponíveis em condições adequadas de acessibilidade.

Essa proposta abriu uma das discussões mais importantes da mesa: seria possível criar uma categoria para medicamentos “essenciais se disponíveis a preços acessíveis”? A ideia recebeu apoio parcial, mas também cautela. Alguns debatedores viram nela uma forma de pressionar por preços justos e políticas de acesso. Outros alertaram que categorias demais poderiam enfraquecer a clareza da lista.

O principal dilema: essencial, mas inacessível

A discussão sobre medicamentos “essenciais se acessíveis” revelou um dos grandes dilemas da saúde global contemporânea. Muitos medicamentos inovadores têm alto valor clínico, mas chegam ao mercado com preços incompatíveis com a realidade de sistemas públicos, especialmente em países de baixa e média renda.

Os debatedores reconheceram que preço não é um fenômeno natural e imutável. Ele é influenciado por patentes, exclusividades, políticas de governo, negociação, transparência, regulação, licenciamento e decisões comerciais. Portanto, se um medicamento é clinicamente essencial, mas inacessível, a resposta não deveria ser simplesmente excluí-lo da agenda pública. A resposta deveria ser construir mecanismos para torná-lo acessível.

Ao mesmo tempo, houve cautela para que a lista não se transforme em uma ferramenta sem força normativa ou em uma relação de desejos impossíveis de implementar. O desafio é manter rigor científico, clareza conceitual e utilidade prática.

 

Convergências do debate

Apesar das diferentes perspectivas, o evento revelou importantes pontos de convergência. O primeiro é que a Lista de Medicamentos Essenciais da OMS continua sendo uma referência fundamental para orientar políticas nacionais e decisões em saúde pública.

O segundo é que a inovação precisa ser avaliada com rigor, mas não pode ser ignorada. Medicamentos inovadores que respondem a necessidades relevantes de saúde devem entrar no debate sobre essencialidade, mesmo quando seu preço exige estratégias adicionais de negociação e acesso.

O terceiro é que a inclusão na lista não basta. É preciso transformar decisão técnica em disponibilidade concreta, o que exige financiamento, regulação, compras públicas, infraestrutura, diagnóstico, profissionais capacitados e acompanhamento dos pacientes.

O quarto é que os países precisam adaptar a lista às suas realidades, mas sem perder de vista o princípio da equidade. A lista global deve orientar prioridades, mas a implementação depende de decisões nacionais responsáveis, transparentes e baseadas em evidências.

 

Relevância para o SUS e para o controle social brasileiro

Para o Brasil, o debate dialoga diretamente com desafios vividos no Sistema Único de Saúde. A discussão sobre medicamentos essenciais se conecta à incorporação de tecnologias, à atualização de protocolos clínicos, à assistência farmacêutica, à judicialização, à produção nacional, às parcerias para o desenvolvimento produtivo, à logística de abastecimento e à necessidade de garantir que decisões técnicas se convertam em acesso real.

Na realidade brasileira, a experiência mostra que reconhecer uma tecnologia como importante não significa, automaticamente, que ela chegará ao paciente de forma oportuna. Entre a avaliação técnica e a dispensação na ponta, há etapas críticas: decisão de incorporação, pactuação, financiamento, compra, distribuição, organização dos serviços, prescrição, acompanhamento e cuidado farmacêutico.

A discussão internacional reforça, portanto, uma mensagem importante para o SUS: a essencialidade deve ser acompanhada de governança, transparência, sustentabilidade e monitoramento da jornada do medicamento.

Também há forte conexão com a agenda de doenças raras, doenças crônicas, câncer, doenças autoimunes e condições de alta complexidade, nas quais muitas tecnologias inovadoras podem representar mudança significativa de prognóstico, mas enfrentam barreiras de preço, registro, incorporação, disponibilidade e organização da rede de cuidado.

 

Participação do Conselho Nacional de Saúde

Ao final do evento, registrou-se a participação, como ouvintes, das conselheiras nacionais de saúde Ana Lúcia Paduello, da Superando Lúpus; Priscila Torres, da Biored Brasil; Silvana Nair Leite, da Enfar; e da assessora Nathalia Alvarez, do Conselho Nacional de Saúde. A presença das representantes do controle social brasileiro no evento paralelo à 79ª Assembleia Mundial da Saúde teve caráter estratégico para acompanhar debates internacionais relacionados ao acesso a medicamentos, à inovação tecnológica, à sustentabilidade dos sistemas de saúde e à equidade. O tema dialoga diretamente com a defesa do direito à saúde, com o fortalecimento do SUS e com a necessidade de ampliar a participação social nas discussões sobre incorporação, financiamento, disponibilidade e uso racional de medicamentos.

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