Dor nas articulações, fadiga intensa, rigidez muscular e limitação de movimentos são alguns dos sintomas conhecidos, e visíveis, das doenças reumáticas. O que ainda permanece pouco discutido, dentro e fora dos consultórios médicos, é o impacto dessas doenças sobre a sexualidade e a vida afetiva dos pacientes.
Pesquisas científicas conduzidas no Brasil e no exterior mostram que disfunções sexuais são altamente prevalentes entre pessoas com doenças reumáticas inflamatórias e crônicas como artrite reumatoide, fibromialgia e lúpus. Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB), que avaliou 68 mulheres com diagnóstico de artrite reumatoide inicial mostrou um recorte da vida sexual de quem tem que driblar a dor para sentir prazer: a maioria (79,6%) admitiu ter alguma disfunção sexual.
Em um segundo estudo, que avaliou 163 pacientes com diagnósticos de doenças reumáticas diversas, incluindo 24 pacientes com diagnóstico de artrite reumatoide estabelecida, encontrou disfunção sexual em 18,4% do total de pacientes avaliadas e em 8,3% das pacientes com artrite reumatoide.
Entre os principais fatores associados às dificuldades na sexualidade estão dor, fadiga, rigidez articular, diminuição da mobilidade e da força articular, depressão, ansiedade, redução da libido, alterações hormonais, efeitos adversos de medicamentos, impacto negativo da doença sobre a autoestima e a imagem corporal e a própria dificuldade de desempenho sexual (incapacidade sexual) e a diminuição significativa do impulso sexual.
Segundo a médica reumatologista, professora e pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB), Licia Mota, a sexualidade ainda é um tema desafiador tanto para os profissionais de saúde quanto para os próprios pacientes. “Levantamentos indicam que as disfunções sexuais podem atingir até 70% das mulheres e 50% dos homens com doenças reumáticas A saúde sexual é um domínio extremamente importante da qualidade de vida, e precisa ser mais explorada dentro da medicina. Muitos pacientes convivem com dor, insegurança, medo e sofrimento emocional sem jamais conversar sobre isso durante uma consulta”, afirma.
O “silêncio” dentro e fora do consultório
De acordo com a pesquisadora Licia Mota, a dificuldade em discutir sexualidade decorre de um tabu compartilhado entre médicos e pacientes. “A sexualidade é reconhecida como um fator essencial da qualidade de vida. Porém, assim como avaliamos o nível da dor ou a intensidade da fadiga, a sexualidade é observada, principalmente, por meio do relato do paciente, o que significa que seu impacto só pode ser mensurado por meio do diálogo aberto e sem tabus entre médico e paciente. No entanto, uma lacuna importante ainda ocupa os consultórios: o silêncio. A maioria dos pacientes se sente constrangida e acaba não tocando no assunto nem com seus parceiros, nem com seu médico, o que pode impactar negativamente na saúde mental, autoestima e relacionamentos”, sinaliza Licia.
A especialista explica que, apesar da Organização Mundial da Saúde reconhecer a saúde sexual como parte essencial do bem-estar físico, mental e social, muitas vezes o paciente sente vergonha de perguntar, acha que será julgado ou acredita que sexualidade não deveria ser tema da consulta médica. “Isso precisa mudar. Um fato positivo é que estudos científicos vêm, cada vez mais, empoderando médicos a abordar o assunto de forma técnica e acolhedora. Afinal, já sabemos que estar preparado para orientar o paciente sobre libido, desconforto sexual, autoestima ou dificuldades conjugais associadas à doença faz toda a diferença e contribui para que o tema deixe de ser invisível e passe a ser tratado como essencial para quem sofre com essas doenças que têm forte impacto sobre a vida íntima”, explica.
Muito além da dor física
Segundo a professora Licia, os impactos da doença reumática sobre a sexualidade vão além da dor e da limitação funcional. Estudos mostram associação importante entre disfunção sexual e sintomas de ansiedade, depressão, isolamento emocional e crises conjugais.
“Pacientes frequentemente relatam medo de sentir dor durante a relação sexual, vergonha do próprio corpo, perda de desejo sexual, dificuldade para determinadas posições, sensação de inadequação, afastamento afetivo do parceiro, redução da autoestima e exaustão física persistente”, complementa.
Qualidade de vida também passa pela intimidade.
Conheça alguns pontos simples que podem trazer clareza e mudar o rumo do tratamento.
A pesquisadora, Licia Mota, defende que incluir sexualidade no repertório da consulta médica permite identificar presença ou não de sofrimento emocional. Ela preparou algumas sugestões de tópicos que podem ser abordados entre médicos e pacientes para facilitar a conversa:
- Você tem sentido alguma dificuldade, desconforto ou dor na relação sexual?
- A fadiga ou a rigidez matinal interferem nos seus momentos de intimidade?
- Existe medo de piora da dor durante a atividade sexual?
- Houve redução da libido após o início da doença?
- Você sente algum tipo de constrangimento em relação ao seu corpo?
- Você sente que seu relacionamento foi afetado de alguma forma pela doença?
- Você percebe sintomas de tristeza, ansiedade ou vontade de se manter mais isolado?
- Verifique com seu médico se os medicamentos atuais do tratamento podem afetar o desejo ou desempenho sexual. E pergunte se existe um horário melhor para tomar a medicação que ajude a diminuir a dor durante o sexo.
- Peça dicas de como você pode conversar com seu/sua parceiro(a) sobre suas limitações sem afetar sua intimidade.
“Quando o profissional abre espaço para o diálogo, muitas vezes surgem sintomas que o paciente nunca havia relatado. Isso melhora a relação médico-paciente e permite um cuidado mais humano e mais completo”, detalha a reumatologista.
Licia também explica que considerar a sexualidade dentro da assistência médica representa uma mudança importante na forma de cuidar. “Controlar a inflamação é fundamental, mas o paciente quer mais do que um resultado de exame normal. Ele quer voltar a dormir bem, trabalhar, se movimentar, recuperar autoestima e manter vínculos afetivos. A sexualidade faz parte disso”, ressalta.
Conheça o “ReumaSutra”: o guia de sexualidade na reumatologia que fornece estratégias e adaptações para ajudar pacientes a recuperar conforto e segurança na intimidade sexual
A partir de um conjunto de estudos conduzidos na Universidade de Brasília (UnB), pesquisadores brasileiros liderados pela reumatologista e professora Licia Mota, desenvolveram o primeiro guia educativo com orientações práticas sobre sexualidade no Brasil para pacientes com doenças reumáticas. O material ficou informalmente conhecido como “ReumaSutra”. O guia foi elaborado em parceria com profissionais da terapia ocupacional e inspirado em recomendações internacionais adaptadas à realidade dos pacientes brasileiros.
Entre as recomendações do guia, destacam-se:
- Preparação: Um banho quente antes da atividade sexual pode ajudar a relaxar a musculatura e as articulações, diminuindo a dor. Massagens suaves também podem ser benéficas. O uso de travesseiros e almofadas para apoiar as articulações pode fazer uma grande diferença no conforto durante o ato sexual.
- Organização da rotina: Planejar o sexo para horários de maior energia, dividir tarefas domésticas para evitar cansaço excessivo e fazer pausas para descanso são estratégias importantes.
- Criatividade: É muito importante o paciente ter clareza de que há outras formas de expressão de sua sexualidade como toques, carícias, beijos, o sexo oral, a masturbação e o uso de brinquedos eróticos (massageadores/vibradores) podem ser alternativas prazerosas, especialmente para quem tem dor nas mãos ou mandíbula.
- Lubrificantes: O uso de lubrificantes à base de água é recomendado para casos de secura vaginal.
Descrição das posições sexuais adaptadas:
- Apoio com joelhos dobrados
- Como é: A mulher deita de costas com os joelhos dobrados. O homem posiciona-se por cima, mantendo os braços esticados para suportar o próprio peso.
- Benefício: É indicada especialmente para quem passou por cirurgia de prótese no quadril. Pode-se usar travesseiros sob as pernas para oferecer suporte extra.
- Elevação do quadril
- Como é: A mulher deita com um travesseiro debaixo do quadril e das coxas. O homem deita por cima com as pernas abertas e suporta o peso do corpo com os braços e os joelhos.
- Benefício: Indicada para mulheres com problemas nos joelhos, nas costas ou no quadril.
- De lado com o homem por trás (conchinha)
- Como é: Os dois deitam de lado, com o homem por trás. A mulher pode colocar um travesseiro entre os joelhos, se julgar necessário.
- Benefício: Ideal para mulheres com problemas no quadril.
- Mulher de costas na beira da cama
- Como é: A mulher deita de costas na beira da cama, com os pés no chão. O homem fica de joelhos no chão.
- Benefício: Funciona bem para mulher com problemas no quadril ou nos joelhos.
- Joelhos cruzados
- Como é: A mulher deita de costas com os joelhos cruzados por cima do corpo do homem.
- Benefício: Indicada para mulheres que têm dificuldade em esticar os joelhos ou o quadril.
- Homem de costas e mulher ajoelhada
- Como é: O homem deita de costas e a mulher se ajoelha sob ele.
- Benefício: Adaptação para homens com problemas nos joelhos. Não é indicada caso a parceira tenha feito cirurgia de reposição do quadril.
- De lado, frente a frente
- Como é: Os dois se deitam de lado, um de frente para o outro. As coxas dos parceiros se cruzam.
- Benefício: Ideal para homens com problemas nas costas.
- Em pé com apoio
- Como é: Os dois parceiros ficam de pé, com a mulher de costas para o homem. Ela apoia os braços em algum móvel para ficar confortável.
- Benefício: Pensada para quem tem problemas em se ajoelhar.
- Mulher ajoelhada com tórax apoiado
- Como é: A mulher se ajoelha no chão e fica com o tórax apoiado na cama ou em algum móvel.
- Benefício: Posição ajustada para mulheres com problemas no quadril.
“O objetivo nunca foi transformar a sexualidade em algo mecânico, mas oferecer informação prática para reduzir dor, desconforto e insegurança. Compreendemos que pequenas adaptações podem melhorar muito a qualidade de vida do paciente. Esse guia é um exemplo de como a ciência pode ser aplicada de forma prática e sensível para melhorar a qualidade de vida”, finaliza Licia.
Sobre as doenças reumáticas autoimunes – As Doenças Reumáticas Autoimunes (DRAIs) são doenças crônicas nas quais o sistema imunológico do corpo ataca seus próprios tecidos, causando inflamação, dor e danos em diversas partes do organismo, como articulações, músculos, pele e órgãos internos. No Brasil, essas enfermidades afetam mais de 15 milhões de pessoas, segundo dados da Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR), impactando significativamente a qualidade de vida das pessoas devido a sintomas como dor persistente, inchaço, rigidez, fadiga extrema e, em muitos casos, incapacidade funcional, podendo levar a aposentadoria precoce e limitações severas nas atividades diárias.
Sobre a Dra. Licia Mota – médica reumatologista, orientadora do programa de pós-graduação em Ciências Médicas da Faculdade de Medicina da Universidade de Brasília (FMUnB) e médica reumatologista do Hospital Universitário de Brasília (HUB). Possui graduação em Medicina pela Universidade de Brasília (1999), residência médica em Clínica Médica (2002) e Reumatologia (2004) na Universidade de Brasília e doutorado em Ciências Médicas pela Faculdade de Medicina da Universidade de Brasília (2009). Atualmente, é diretora científica da Sociedade Brasileira de Reumatologia. Em 2026, passou a ser membro do Conselho Consultivo Editorial da Nature Reviews Rheumatology, a revista com o maior fator de impacto mundial em reumatologia. Vencedora dos prêmios: Prêmio “Ao Espírito Panamericano” da PANLAR 2026, Prêmio PANLAR Internacional Innovation Award 2025, Prêmio JK – Correio Braziliense 2025, Prêmio William Habib Chahade, Sociedade Brasileira de Reumatologia – 2024, Edgard Atra (edições 2012 e 2013), Sociedade Brasileira de Reumatologia (2012), entre outros.
Fonte: Assessoria de imprensa.
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