O tratamento do câncer de mama avançado ou metastático com receptor hormonal positivo (RH+) e HER2 negativo pode ganhar um novo avanço terapêutico com o capivasertibe, medicamento direcionado a pacientes que apresentam alterações genéticas na via PIK3CA/AKT/PTEN. Dados apresentados em estudos clínicos internacionais apontam melhora significativa no controle da doença, especialmente após falha de terapias anteriores com inibidores de CDK4/6. Apesar disso, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) emitiu parecer preliminar desfavorável à incorporação da tecnologia ao Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde, que segue em consulta pública aberta até o dia 2 de junho. Qualquer pessoa pode participar e dizer se é favorável ou contrária à inclusão do medicamento nos planos de saúde (Saiba mais aqui).
A proposta analisada pela agência prevê o uso de capivasertibe associado ao fulvestranto para pacientes com câncer de mama avançado RH+/HER2-, com uma ou mais alterações em PIK3CA, AKT1 ou PTEN, após progressão a um inibidor de CDK4/6.
Sobre o câncer de mama
O câncer de mama é atualmente a neoplasia de maior incidência e mortalidade entre mulheres no Brasil e no mundo. Segundo dados do INCA, o país registrou mais de 94 mil novos casos e cerca de 22 mil mortes relacionadas à doença. Entre os diferentes subtipos, o RH+/HER2- é o mais frequente, representando mais da metade dos casos de câncer de mama avançado.
Embora a combinação de terapia endócrina com inibidores de CDK4/6 seja considerada padrão na primeira linha de tratamento, muitos pacientes evoluem com resistência terapêutica após progressão da doença. Nesse cenário, especialistas e diretrizes internacionais passaram a recomendar a realização de testes genéticos para identificar mutações que possam direcionar novas estratégias terapêuticas.
Entre as alterações mais relevantes estão mutações nos genes PIK3CA, AKT1 e perda de PTEN, alterações ligadas à resistência à terapia hormonal e pior prognóstico clínico. Segundo estudos, pacientes com mutação em PIK3CA têm menor sobrevida global e menor resposta ao tratamento quando comparados àqueles sem a mutação.
Como funciona o medicamento
O capivasertibe atua justamente nesse mecanismo. Trata-se de um inibidor da proteína AKT, componente central da via PIK3CA/AKT/PTEN, envolvida no crescimento tumoral e na resistência aos tratamentos hormonais.
As principais evidências vêm do estudo internacional de fase 3 CAPItello-291, que avaliou o uso de capivasertibe associado ao fulvestranto em pacientes com câncer de mama avançado RH+/HER2-. O estudo incluiu pacientes previamente tratados, sendo que cerca de 70% já haviam utilizado inibidores de CDK4/6.
Os resultados mostraram ganho importante em sobrevida livre de progressão, especialmente entre pacientes com alterações na via PIK3CA/AKT/PTEN. Nesse grupo, a mediana de sobrevida livre de progressão passou de 3,1 meses com placebo mais fulvestranto para 7,3 meses com capivasertibe associado ao fulvestranto.
Além disso, o tratamento aumentou a taxa de resposta tumoral e retardou a necessidade de início de quimioterapia. O tempo mediano até necessidade de quimioterapia também foi maior: 11 meses versus 6 meses. Outro dado relevante envolve qualidade de vida. Segundo os pesquisadores, pacientes tratados com capivasertibe apresentaram atraso no tempo para deterioração do estado global de saúde e qualidade de vida, alcançando mediana de 24,9 meses, comparada a 12 meses no grupo controle.
Em relação à segurança, os eventos adversos mais frequentes levaram à descontinuação do tratamento em 13% dos casos. Ainda assim, o estudo aponta perfil de segurança considerado manejável e consistente entre os diferentes subgrupos avaliados.
O que diz a Agência Nacional de Saúde Suplementar
Na análise preliminar da ANS, porém, a agência destacou limitações importantes nas evidências apresentadas. Segundo o parecer técnico, embora o estudo tenha demonstrado benefício em sobrevida livre de progressão com alta certeza da evidência, outros desfechos relevantes ainda apresentam incertezas. De acordo com a avaliação, a combinação de capivasertibe e fulvestranto “pode reduzir o risco de morte”, mas pode ter “pouco ou nenhum efeito na qualidade de vida”, enquanto o impacto na taxa de resposta completa permanece incerto.
Em relação à segurança, a ANS apontou que a combinação terapêutica pode aumentar a ocorrência de eventos adversos graves e elevar a proporção de pacientes com efeitos adversos em geral. A avaliação econômica também recebeu ressalvas da agência reguladora. Segundo a análise preliminar, foram identificadas limitações metodológicas importantes, incluindo o uso de dados externos para estimativa de qualidade de vida, projeções de sobrevida global baseadas em populações distintas e simplificações relacionadas aos impactos de eventos adversos. Para a ANS, essas limitações aumentam a incerteza sobre a robustez das estimativas e dificultam a generalização dos resultados para a população avaliada. O impacto orçamentário estimado pela incorporação do medicamento ao Rol da ANS foi calculado em aproximadamente R$ 302 milhões em cinco anos, com média anual de R$ 60 milhões.
Apesar do parecer preliminar desfavorável da ANS, o uso de capivasertibe associado ao fulvestranto já é recomendado por importantes diretrizes nacionais e internacionais, incluindo ASCO, ESMO, NCCN e SBOC, para pacientes com câncer de mama metastático RH+/HER2- com mutações em PIK3CA, AKT1 ou alterações em PTEN.
Como participar da Consulta Pública Nº 172
A ANS abriu a Consulta Pública 172 para receber opiniões da sociedade sobre propostas de atualização do Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde, incluindo o medicamento capivasertibe. As contribuições podem ser enviadas até 2 de junho no site da agência, onde também estão disponíveis os documentos relacionados às tecnologias em análise. Qualquer pessoa pode participar e dizer se é favorável ou contrária à inclusão do medicamento nos planos de saúde. Acesse: ANS – Consulta Publica Gov Tela Inicial
Referências:
1. International Agencyfor Research onCancer. GLOBOCAN estimatesof incidenceandmortality2025. Disponível em: https://gco.iarc.fr/today/en/dataviz/pie?mode=cancer&group_populations=1&populations=76&sexes=2&cancers=20&group_cancers=0&multiple_cancers=0. Acesso em 15/03/2026.
2. Instituto Nacional de Câncer. Controle do câncer de mama no Brasil: dados e números 2024. Disponível em: https://ninho.inca.gov.br/jspui/bitstream/123456789/17002/1/Controle%20do%20câncer%20de%20mamano%20Brasil%20-%20dados%20e%20números%202024.pdf. Acesso em 15/03/2026.
3. Reinert T, Pellegrini R, Rol R, Werutsky G, Barrios CH.
Estimation of the NumberHER2(+/-) Receptor do fator de crescimento epidérmico humano tipo 2 (positivo/negativo);Oncol. 2020;6:307-312; 2. https://seer.cancer.gov/statfacts/html/breast-subtypes.html
4. MoseleF, StefanovskaB, LusqueA, et al. Outcomeandmolecular landscapeofpatientswithPIK3CA-mutated metastaticbreastcancer. Ann Oncol. 2020;31(3):377-386;
5. FillbrunnM, SignorovitchJ, André F, et al. PIK3CA mutationstatus, progressionandsurvivalin advancedHR+/HER2-breastcancer: a meta-analysisofpublishedclinicaltrials. BMC Cancer. 2022;22(1):1002.
6. Turner NC, Oliveira M, Howell SJ, et al. Capivasertibin HormoneReceptor-Positive AdvancedBreastCancer.N EnglJ Med. 2023;388(22):2058-2070.
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