Doenças reumáticas também afetam jovens; cientistas buscam amenizar dores

Também incidentes em crianças, as doenças reumáticas trazem dor, rigidez e a dificuldade de lidar com uma condição que pode desencadear graves complicações ao longo da vida. Série do Correio mostra como cientistas têm buscado amenizar essa empreitada

Carlos Drummond de Andrade definiu a infância como uma época da vida em que a felicidade está apenas em uma caixa de bombons. O aforismo do poeta brasileiro retrata esse período como ele deveria ser, menos complicado e de simples contentamento, mas, para muitas crianças, essa etapa é repleta de desafios.

Apesar de ser associada a pessoas mais velhas, as doenças reumáticas atingem muitos jovens, que precisam aprender desde cedo a lidar com  incômodos constantes, como dores no corpo. Especialistas ressaltam a necessidade de conhecer melhor essas enfermidades poucos divulgadas no Brasil, já que a detecção precoce pode evitar complicações sérias na vida adulta. Cientistas também alertam quanto à importância de medidas que impeçam o aumento dos casos.

Giovanna Fonteles foi diagnosticada com artrite idiopática juvenil (AIJ) aos nove anos. Uma dor em um dedo da mão direita fez com que sua mãe a levasse a um ortopedista. Mesmo com tratamento, o incômodo persistiu por alguns meses, até que um especialista conseguiu chegar ao diagnóstico correto. Ainda pequena, ela descobriu, aos poucos, que tinha que tomar mais cuidado com os afazeres diários, como evitar exercícios mais severos e tomar os medicamentos corretamente, para evitar danos mais graves.
“No começo, foi muito complicado, era muita informação pra lidar de uma vez”, relata a jovem, de 16 anos. “Tivemos que parar o muay thai, era a atividade que fazíamos juntas, e foi algo bem doloroso para nós duas”, conta Graciene Constancio Lima, 40 anos, mãe de Giovanna. Hoje, a jovem consegue se adaptar à nova rotina e lidar melhor com os cuidados constantes que a artrite exige.
“Eu converso muito com a minha mãe sobre isso, quero me manter firme para ter uma vida tranquila, com estabilidade. O apoio da família me ajuda muito a manter a cabeça firme e saber que é possível ter uma vida normal”, ressalta.
Para Graciene, uma das maiores lições que aprendeu durante a jornada médica da filha é o quanto as doenças reumáticas pediátricas são pouco conhecidas. “Muitas pessoas acham que a artrite só atinge pessoas mais velhas. Nós passamos muito tempo na ortopedia por causa disso. É sempre bom procurar um profissional e não esperar a dor passar, porque isso pode complicar a situação”, sugere.
Sintomas inespecíficos 
Claudio Len, pediatra e professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), destaca que danos graves podem ser gerados caso o tratamento de doenças reumáticas durante a infância não seja feito de forma adequada. “Em casos da artrite idiopática juvenil, onde ocorrem danos nas articulações dos joelhos, se eles persistirem ao longo de cerca de seis meses, a cartilagem pode ser destruída. Se não houver controle, você perde a parte nobre da articulação e, mesmo que consiga controlar a doença, a articulação não se recompõe”, explica.
Lícia Mota, coordenadora da Comissão de Artrite Reumatoide da Sociedade Brasileira de Reumatologia, ressalta que as doenças reumáticas pediátricas têm sintomas iniciais inespecíficos, o que complica ainda mais o diagnóstico. “É um problema que temos não só no Brasil, mas, aqui, isso se complica mais devido à cultura da automedicação. Se tem uma dor, muitos acham que o atendente da farmácia pode resolver”, ressalta a médica.
“A artrite idiopática juvenil e o lúpus sistêmico, por exemplo, são duas enfermidades graves, que podem gerar sequelas. Se você perde a janela de tratamento, as inflamações podem levar a uma dilatação mais rápida dos vasos sanguíneos, e isso aumenta os riscos cardiovasculares. O paciente também pode ter uma nefrite, a perda de proteína dos rins, que pode comprometer a fusão renal também”, frisa.
A reumatologista também ressalta que a falta de profissionais especializados é um dos problemas enfrentados. “Alguns hospitais têm, outros, não. Precisamos que um especialista acompanhe pelo menos os casos mais graves, e isso é necessário nas redes públicas de atendimento também. Com esse controle, é possível ter uma estrutura mais bem preparada para os tratamentos e gerar diagnósticos mais precoces”, diz Lícia Mota.
Para Claudio Len, um número maior de especialistas pode fazer com que as doenças reumáticas pediátricas sejam melhor compreendidas. “No Brasil, elas não são muito divulgadas por serem consideradas raras, e os médicos têm pouco treinamento”, afirma. O médico, que também é presidente da ONG Acredite – Amigos da criança com reumatismo, frisa a necessidade de cuidado e de um olhar clínico dos pais com as crianças.
“Criança brinca muito, pula muito e, quando apresenta uma dor, isso pode ser confundido com algo normal. É preciso ter cuidado se os incômodos persistirem. Qualquer criança que acorde de manhã com dificuldade para caminhar é necessário que seja encaminhada a um pediatra”, alerta. “É necessário frisar também que, com o tratamento correto, é possível ter qualidade de vida igual à de outras crianças.”
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