Na saúde dos rins, a ausência de dor não significa que o órgão esteja bem e protegido. Em pacientes com lúpus, uma das complicações é a nefrite lúpica, uma inflamação renal causada pela doença e que pode se desenvolver sem sintomas e comprometer a capacidade do órgão de filtrar o sangue.
Por isso, identificar o problema precocemente, controlar a inflamação e garantir a continuidade do tratamento devem ser prioridades na jornada de quem tem lúpus para preservar a função dos rins.
“Muitos pacientes chegam até nós sem saber que estão com nefrite”, afirma a reumatologista Nafice Costa Araújo. Segundo a médica, o comprometimento renal pode surgir no início do lúpus ou ao longo de sua evolução. Portanto, realizar os exames solicitados deve fazer parte da rotina do paciente, mesmo quando a pessoa se sente bem.
Como o lúpus pode afetar os rins
O lúpus eritematoso sistêmico é uma doença autoimune crônica, na qual o sistema de defesa passa a atacar estruturas do próprio organismo. Suas manifestações variam de uma pessoa para outra e podem envolver pele, articulações, células do sangue e órgãos internos. A doença alterna períodos de atividade e de remissão, no qual pode haver poucos ou nenhum sintoma.
De acordo com Dra Nafice, cerca de metade das pessoas adultas com lúpus pode apresentar nefrite. Nas crianças e nos adolescentes, o envolvimento renal é ainda mais frequente. A inflamação pode prejudicar as estruturas responsáveis pela filtração do sangue e, em casos graves, levar à perda importante da função dos rins, com necessidade de diálise ou transplante.
Essa evolução não é inevitável. O acompanhamento médico busca identificar a atividade inflamatória e tratá-la antes que se acumulem lesões permanentes. “Eu preciso, quanto mais precoce, identificar o dano, para conseguir tratar e desinflamar esse rim, para que isso não cronifique”, explica a médica.
Sinais que merecem atenção
Urina com espuma persistente, presença de sangue ou mudança de coloração, inchaço nas pernas, nos tornozelos ou ao redor dos olhos e aumento da pressão arterial são alterações que devem ser comunicadas à equipe de saúde. A espuma pode estar relacionada à perda de proteínas pela urina, chamada proteinúria, um possível indicativo de que algo não vai bem na saúde dos rins.
Contudo, é importante destacar que esses sinais não confirmam o diagnóstico isoladamente e podem ter outras causas. Também é possível haver comprometimento renal sem alterações perceptíveis na urina e no corpo.
Exames ajudam a identificar e classificar a nefrite
A investigação combina avaliação clínica e exames de sangue e urina. A equipe verifica a quantidade de proteína eliminada na urina, a presença de sangue e outros elementos no sedimento urinário, além de indicadores da função renal. Marcadores imunológicos, como o anticorpo anti-DNA e as proteínas do sistema complemento, também podem ajudar na avaliação da atividade do lúpus.
Quando necessário, o médico pode solicitar a biópsia renal, que examina uma pequena amostra do tecido dos rins. O resultado ajuda a identificar o tipo de lesão, sua atividade e os danos já presentes, orientando a melhor escolha do tratamento.
A classificação da nefrite pela biópsia e os estágios da doença renal crônica descrevem aspectos diferentes. A primeira identifica padrões de lesão no tecido, já os estágios da doença renal crônica consideram, entre outros critérios, o nível de função dos rins. Essa distinção ajuda a compreender por que controlar a inflamação e acompanhar a capacidade de filtração são objetivos relacionados, mas não equivalentes na jornada de tratamento.
O tratamento precisa ter metas
A escolha dos medicamentos depende do tipo de nefrite, da intensidade da inflamação, da perda de proteínas na urina e de outras manifestações do lúpus. As recomendações clínicas orientam as decisões, que precisam ser adaptadas à situação de cada pessoa, aos riscos do tratamento e à resposta observada.
“A gente avalia o que foi mostrado na biópsia, qual é o tipo de lúpus que esse paciente apresenta”, explica Nafice. O plano pode incluir medicamentos que controlam a resposta imune e medidas para proteger os rins. A hidroxicloroquina tem papel importante no tratamento do lúpus, quando não há contraindicação, e exige acompanhamento para possíveis efeitos adversos, incluindo avaliação oftalmológica.
Mas o tratamento não termina com a prescrição. É necessário verificar se a perda de proteínas está diminuindo, se a função renal está preservada e se a atividade da doença está sendo controlada. A frequência dos exames e das consultas deve acompanhar a condição clínica e a resposta ao tratamento.
“Todos esses medicamentos podem causar efeitos adversos. E eu tenho que saber se meu paciente está respondendo adequadamente”, ressalta a reumatologista. A meta é alcançar remissão ou baixa atividade da doença, com o menor dano possível.
Acesso ao tratamento é necessário para preservar a saúde renal
Ter opções de tratamento disponíveis é importante, mas o cuidado com a nefrite lúpica também depende de conseguir chegar ao especialista, realizar os exames e receber os medicamentos indicados de forma contínua. Essas condições influenciam tanto a escolha do tratamento quanto a possibilidade de mantê-lo ao longo do tempo.
Para orientar as equipes de saúde, especialistas elaboram documentos chamados consensos: recomendações que reúnem evidências científicas e a experiência dos profissionais sobre como investigar, tratar e acompanhar uma doença. Nafice explica que as recomendações brasileiras para nefrite lúpica, publicadas em 2024, também consideraram as dificuldades de acesso a terapias mais recentes no país.
“A nossa diferença em relação ao consenso de nefrite, tanto europeu como o americano, é que, pelas dificuldades de acesso que temos às novas terapêuticas, iniciamos ainda com os medicamentos padrão”, afirma. Ao mencionar os “medicamentos padrão”, a médica se refere a tratamentos já utilizados há mais tempo para controlar a inflamação nos rins.
Esses medicamentos continuam fazendo parte do cuidado com a nefrite lúpica. A diferença apontada por Nafice está na dificuldade de acesso às terapias mais recentes, que podem ser acrescentadas ao tratamento conforme a avaliação individual e a resposta de cada paciente. Por isso, além de conhecer os tratamentos disponíveis, é importante que o paciente entenda por que determinado medicamento foi indicado, como a equipe vai avaliar se ele está funcionando e quando pode ser necessário mudar o tratamento.
“A gente tem que chegar até a população, divulgar cada vez mais essas informações”, defende Nafice. Ter essas informações ajuda a esclarecer dúvidas nas consultas e a comunicar dificuldades, como a falta de um medicamento ou a demora para conseguir um exame. Esses problemas também podem ser relatados em consultas públicas, espaços em que pacientes e familiares podem compartilhar suas experiências e contribuir para as decisões sobre a oferta de tratamentos no sistema de saúde.
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