Em um cenário onde notícias falsas se tornaram uma indústria bilionária, especialistas e o controle social buscam estratégias para combater o avanço da desinformação, que ameaça a saúde pública, o SUS e a própria democracia. A proliferação de narrativas falsas na saúde pública, potencializada pela velocidade das redes sociais, evoluiu de um problema de comunicação para uma indústria comercial altamente lucrativa, que movimenta quase 3 bilhões de dólares anuais globalmente. Explorando a vulnerabilidade dos usuários, essa indústria promove tratamentos fraudulentos e mina a confiança em instituições científicas e no Sistema Único de Saúde (SUS). Em resposta, o Conselho Nacional de Saúde (CNS) e especialistas debatem a criação de novas regulamentações e fortalecem iniciativas como o projeto “Saúde Sem Boato”, em uma luta crucial pelo direito à informação qualificada.
A indústria da mentira: um ecossistema de fraudes digitais
Uma investigação do NetLab, o Laboratório de Pesquisa da Escola de Comunicação da UFRJ, revelou a dimensão alarmante do problema no Brasil. Em um relatório parcial lançado em dezembro de 2025, o laboratório analisou 169 mil anúncios nas plataformas da Meta (Facebook, Instagram) entre abril e maio de 2025. De uma amostra de 6.579, impressionantes 76% foram classificados como fraudulentos.
“A desinformação é uma indústria comercial orientada por dados que se nutre de dados dos usuários”, afirmou Nicole, doutora em comunicação e representante do NetLab, durante um debate no CNS em 7 de abril de 2026. As violações são sistemáticas e burlam normas da Anvisa e do Código de Defesa do Consumidor. Entre as irregularidades encontradas, destacam-se:
Promessas Falsas: 4.626 anúncios continham promessas de “resultados garantidos”.
Uso Indevido de Imagem: Figuras como o médico Drauzio Varella e instituições como a Anvisa e o Ministério da Saúde tiveram suas imagens usadas para conferir falsa credibilidade.
Produtos sem Registro: Nenhum dos 165 produtos promovidos possuía registro ativo na Anvisa.
Nicole classifica a situação como uma “falha sistêmica por parte da Meta”, cujo modelo de negócios opaco impede a fiscalização e a responsabilização dos anunciantes. O NetLab continua a investigação, já tendo coletado mais de 1 milhão de anúncios até o final de 2025.
O impacto letal e a busca por regulamentação
As consequências da desinformação são fatais. Durante a pandemia de COVID-19, entre 2020 e 2021, o Brasil registrou 750 mil mortes, número agravado, segundo especialistas, pela disseminação de narrativas que desencorajaram a vacinação e promoveram tratamentos ineficazes. Essa tragédia deixou um rastro de aproximadamente 285 mil crianças e adolescentes órfãos.
Nesse contexto, a regulamentação das plataformas digitais torna-se uma pauta urgente. A inspiração vem de vitórias passadas, como a resolução do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) que classificou a publicidade infantil como abusiva. Edgar Rebouças, professor da Universidade Federal do Espírito Santo, provocou os conselheiros de saúde a seguirem o exemplo: “O próprio conselho pode fazer uma resolução dizendo que todas essas publicidades […] sejam ilegais e que sejam combatidas”. A proposta de criar uma resolução específica contra a publicidade enganosa em saúde foi um dos principais encaminhamentos do debate no CNS.
“Saúde Sem Boato”: uma resposta estratégica do controle social
Para enfrentar esse desafio, o CNS promove a iniciativa “Saúde Sem Boato”, um projeto estruturado em três pilares fundamentais para fortalecer o controle social e criar um ecossistema de informação confiável.
1. Monitoramento e Respostas Rápidas:** O primeiro eixo foca em vigiar o ambiente digital para identificar e desmentir boatos com materiais de esclarecimento.
2. Produção de Conteúdo Qualificado:** O segundo pilar consiste na criação de um “enxoval” de materiais informativos e verificados para serem replicados por conselhos de saúde, movimentos sociais e outras entidades, unificando o combate à desinformação.
3. Educação Midiática:** O terceiro eixo aborda a necessidade de fortalecer a capacidade crítica dos cidadãos, ensinando-os a identificar sinais de descontextualização, ausência de fontes e manipulação de conteúdo, em parceria com projetos como o EducaMídia.
O caminho a seguir: furar as bolhas e fortalecer a comunicação
Especialistas e conselheiros concordam que a luta deve ser multifacetada e permanente. Márcia Gandini, da Abrasco, alerta para a complexidade do fenômeno, onde muitas pessoas que consomem notícias falsas se consideram bem-informadas, presas em bolhas algorítmicas. “Um dos nossos maiores desafios é que a imensa maioria de notícias falsas começa a partir de um fato verdadeiro”, explica.
As estratégias propostas incluem o uso de canais de grande alcance popular, como as rádios comunitárias. Ana Lúcia Paduelo e Vânia Leite, da Pastoral da Criança, destacaram a importância desses meios e sugeriram o uso de conteúdos mais visuais, com frases curtas e imagens, para maior eficácia.
Conclusão: uma luta coletiva pelo direito à verdade
O debate no Conselho Nacional de Saúde reafirmou a urgência de uma ação coordenada e robusta. A mesa diretora se comprometeu a discutir a proposta de uma resolução contra a desinformação e a criação de um Grupo de Trabalho permanente sobre comunicação.
A batalha contra a desinformação em saúde é, em essência, uma luta pelo direito humano à comunicação e à informação qualificada. Ela exige não apenas a responsabilização das grandes plataformas de tecnologia, mas também um esforço contínuo de educação midiática e o fortalecimento do controle social. Garantir o acesso à verdade é uma condição essencial não apenas para a saúde pública, mas para a própria sobrevivência da democracia.
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