O fantasma das artrites

A artrite e a artrose são doenças sem cura, mas que podem ser controladas com um diagnóstico precoce. Muitas pessoas atribuem essas duas enfermidades ao envelhecimento. No entanto, embora predominem nas pessoas acima dos 60 anos, crianças, jovens e adultos também podem sofrer desses males. Para entender e esclarecer dúvidas acerca das doenças, a Entrevias conversou com a médica reumatologista e presidente da Comissão de Artrite Reumatoide da Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR), Lícia Maria Henrique da Mota. Ela explica que, apesar de essas enfermidades não terem cura, há a possibilidade de cumprimento das atividades cotidianas normais quando o indivíduo está medicado e em tratamento. “Acompanhando adequadamente o tratamento, ele leva uma vida normal. O objetivo é o controle da atividade da doença”, afirma.

 De que forma a artrite e a artrose se manifestam? Quais as características das doenças?

Lícia: A artrite é a inflamação da articulação, e várias doenças podem causar artrite. Existe uma que se chama artrite reumatoide, que é autoimune, em que as células de anticorpos atacam o próprio organismo do indivíduo, em especial o tecido que reveste as articulações. É uma inflamação num processo autoimune. Essa doença também acomete outras partes do corpo, sendo sistêmica, mas ela, geralmente, predomina nas pequenas articulações, como mãos, punhos e pés. Esse processo inflamatório, se não tratado, vai levando à destruição das articulações e a uma situação de incapacidade permanente. A artrose, por outro lado, também tem um componente inflamatório, mas ela é mais uma doença do desgaste da cartilagem, que pode fazer parte de um processo de envelhecimento e ser secundário a outras doenças, como trauma de repetição, ou a enfermidades inflamatórias, a exemplo da própria artrite. Esse processo da artrose pode acontecer em qualquer articulação, mas, em geral, é mais comum em articulações de carga, que suportam peso, como coluna, quadril e joelho. A artrite é um ataque muito agressivo às articulações, inflama, provoca muita dor, inchaço e rigidez. A artrose, geralmente, tem uma evolução mais arrastada, havendo períodos de piora de inflamação e de melhora, mas ela vai, cronicamente, levando também a uma piora cada vez maior, aumentando o grau de incapacidade da pessoa.

Há algum grupo ou faixa etária em que a incidência da artrite e da artrose é maior?

A artrite é mais frequente em mulheres. São 34 ocorrências nelas e uma neles. A doença é mais comum entre os 35 e os 50 anos, embora possa acontecer em qualquer faixa etária, em crianças e até em idosos. Na artrose, vai depender do tipo. Na degenerativa, é comum à medida que a população envelhece, sendo mais frequente a partir dos 50 anos, podendo acometer homens e mulheres.

Quais cuidados as pessoas que possuem as doenças devem ter?

A artrite é uma doença que necessita do uso de medicação. Existem várias opções terapêuticas hoje em dia. Nosso objetivo é diagnosticar o mais precocemente possível para iniciar o tratamento rapidamente. Isso ainda é uma questão primordial. Muito importante nas duas situações é termos um cuidado no fortalecimento muscular. Tanto para uma quanto para a outra, é essencial o indivíduo manter um baixo peso. Quanto mais peso sobre as articulações, pior o grau de desgaste, e, quanto mais forte a musculatura, menos carga será transmitida diretamente para a articulação. Não fumar é fundamental. Nós sabemos que o fumo piora muito a evolução sobre a artrite. Quem fuma tem uma forma muito mais grave, uma evolução mais agressiva. É importante que a pessoa tenha acompanhamento médico regular para avaliar a resposta ao tratamento.

Por que nos dois casos é preciso ter atenção quanto a diabetes e hipertensão?

A artrite aumenta a mortalidade, sobretudo por doenças cardíacas. Então, além de controlar a artrite, é necessário cuidar dessas doenças que vêm junto, como diabetes e hipertensão, que são muito frequentes na população e também aumentam o risco de morte. Trata-se de um acompanhamento multidisciplinar, com foco em medicações que são distintas nas duas situações e no manejo da qualidade de vida.

As doenças têm cura?

Não falamos em cura para esse tipo de doença. Cura seria dizer que, se a pessoa usar a medicação, a doença vai sumir e nunca mais vai voltar. Infelizmente, não temos isso ainda. Mas temos a possibilidade, principalmente no caso da artrite, da remissão, que é o desaparecimento dos sintomas. O paciente fica completamente bem usando a medicação. Ele é capaz de fazer todas as atividades do dia a dia sem dor, sem limitação. Isto é o que objetivamos hoje com o tratamento: deixar o paciente em remissão. Gosto de fazer o paralelo com o tratamento da hipertensão, do diabetes e do hipertireoidismo. O paciente tem aquela doença, vai usar a medicação continuamente e vai ficar bem. Se ele interromper o anti-hipertensivo, a pressão subirá de novo. Já a artrose é uma enfermidade de evolução mais lenta, com períodos de piora e melhora. Hoje, não falamos em remissão para ela, mas, sim, em controle dos sintomas.

“Existem várias opções terapêuticas hoje
em dia. Nosso objetivo é diagnosticar
o mais precocemente possível para
iniciar o tratamento rapidamente.”

Lícia Maria, reumatologista

Fonte: Revista Entrevias

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Social media manager, digital influencer, blogueira, youtuber e redatora, ativista em saúde motivada pelo diagnóstico de artrite reumatoide há 7 anos, patient advocacy, mobilizadora social em prol da qualidade de vida das pessoas com doenças crônicas no Brasil.

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