Estudo realizado na América Latina analisou desempenho do Brasil no controle do câncer

No Brasil, o câncer é a segunda causa de morte, e o país encontra-se entre aqueles com maior mortalidade, segundo o estudo. Pesquisadores salientam que é importante melhorar a gestão da informação sobre câncer, já que, atualmente, os registros cobrem apenas 22% da população.

O câncer é uma problemática relevante no Brasil e na América Latina. No país, é a segunda causa de morte, e em 2015 foi responsável por 17% do total dos falecimentos. Mas, embora haja avanços, os esforços realizados até o momento para implementar medidas para o controle do câncer produziram resultados díspares. Um estudo em 12 países da região, realizado pela The Economist Intelligence Unit, com o apoio da Roche América Latina, mostrou que o Brasil precisa de uma melhor gestão de informação da saúde, por meio dos registros epidemiológicos, para melhorar a efetividade das políticas de controle do câncer.

A pesquisa “Controle do câncer, acesso e desigualdade na América Latina: uma história de luz e sombra” comparou parâmetros que permitem compreender como é o desempenho de cada país no controle integral do câncer, desde a prevenção e a detecção precoce até o tratamento e os cuidados paliativos. Essa técnica, conhecida como benchmarking, permitiu elaborar uma Tabela de Pontuação de Controle do Câncer na América Latina (LACCS, sua sigla em inglês), que compara Brasil, Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, México, Panamá, Paraguai, Peru e Uruguai.

Por sua vez, a equipe da The Economist Intelligence Unit realizou 19 entrevistas em profundidade com as principais referências em câncer na região (Ver Folha de Dados do Relatório e Metodologia).

Os achados do estudo mostram que o país tem um desempenho positivo em vários aspectos: planejamento estratégico, prevenção, detecção precoce, financiamento e disponibilidade de tratamentos, mas não o suficiente. O Sistema Único de Saúde (SUS); o programa para doenças não transmissíveis, entre as quais está o câncer; as iniciativas nacionais para screening (detecção precoce) de câncer de mama e de colo do útero e outras medidas são ações que se destacam[1].

[1] “Cancer Control, Access and Inequality In Latin America -A tale of light and shadow”, The Economist Intelligence Unit, 2017

Alta mortalidade

O outro grande indicador da necessidade de atuar no controle do câncer é a elevada mortalidade registrada no Brasil, quando comparada com outras partes do mundo.

Em média, a razão entre mortalidade e incidência, que mostra quantos pacientes morrem em relação ao número de casos novos de câncer por ano, é de 0,50, maior que a europeia (0,40) e que a dos EUA (0,33). [1]

A pesquisa indicou também certos fatores que podem ser modificados para melhorar o controle do câncer. Um deles é a informação que é coletada sobre tumores no país. Estes dados são concentrados em registros epidemiológicos, que são a matéria prima para planejar e avaliar políticas. Segundo a pesquisa da The Economist, o Brasil tem boa qualidade de informação, mas a cobertura de seus registros epidemiológicos alcança apenas 22% da população.

Os obstáculos em comum com a região América Latina foram: a fragmentação dos sistemas de saúde, que no Brasil continua pronunciada; a forte desigualdade entre as áreas urbanas e rurais, e entre as zonas ricas e pobres, com recursos concentrados nas cidades e zonas prósperas; e a disparidade tanto em incidência e mortalidade como no controle do câncer.

No que se refere ao gasto com saúde, o estudo da The Economist Intelligence Unit mostra que, no Brasil, o investimento do PIB em saúde pública foi de 3,8% em 2014, abaixo da média regional de 4,6%, e longe do realizado pelos países de alta renda (a média nos países desenvolvidos é de 7,42%). O relatório agrega uma perspectiva adicional à análise do financiamento destinado ao câncer, vinculada à gestão dos recursos: como se gasta esse dinheiro, ou seja, quais são as decisões políticas.

As barreiras ao acesso no Brasil identificadas pela LACCS

Planejamento

Um Plano Nacional de Controle do Câncer (NCCP, sua sigla em inglês) é, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), “um programa de saúde pública para reduzir a incidência e mortalidade do câncer, e para melhorar a qualidade de vida dos pacientes com câncer mediante a implementação sistemática e igualitária de estratégias baseadas na evidência para a prevenção, detecção precoce, tratamento e cuidados paliativos”.

  • O plano do Brasil para doenças não transmissíveis (NCD, sua sigla em inglês) inclui o câncer e considera as desigualdades no acesso ao atendimento à saúde.
  • Apesar disso, o Brasil prova que ter uma estratégia razoavelmente boa não é suficiente para contar com boas políticas de controle do câncer.

Registros epidemiológicos

A informação é essencial para poder desenvolver um plano nacional de controle do câncer. E os registros de tumores proporcionam visibilidade aos pacientes, permitindo dimensionar o impacto da doença na população e os recursos necessários para as políticas públicas. Há registros de qualidade, que proveem de múltiplas fontes.

  • Um desempenho moderado e uma boa qualidade de informação são fatores importantes para melhorar a cobertura dos registros, os quais cobrem apenas 22% da população na coleta e análise de dados.

Prevenção e Detecção precoce

Quanto antes o câncer for detectado, maiores são as probabilidades de resultados positivos no tratamento. Segundo a OMS, entre 30 e 50% dos cânceres podem ser prevenidos ou evitados. No Brasil, a maioria dos casos chega à consulta em estágio avançado da doença.

Os dados do artigo indicam que:

  • O Brasil foi líder na redução do tabagismo como estratégia de prevenção. Em 2001, foi o primeiro país a proibir o uso de adjetivos como “light” ou “suave” na embalagem de cigarros.
  • Conta com programas de detecção precoce para câncer de mama, incluindo mamografias anuais; para câncer de colo do útero (PAP); e programas-piloto de detecção de câncer colorretal, entre outros.
  • Entretanto, há déficits no screening, e a má qualidade dos testes pode dificultar a detecção precoce: 10% dos exames de Papanicolaou são ilegíveis no país, mas o número chega a 60% em zonas rurais do Amazonas.

Orçamentos e recursos

Os orçamentos no Brasil não se adaptaram à nova realidade epidemiológica da região e continuam concentrando-se em doenças infecciosas.

Uma das metas do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) Nº 3 é reduzir as doenças não transmissíveis (DNT) como o câncer, já que estas doenças vêm aumentando de forma considerável nos últimos anos.

Segundo o estudo:

  • O financiamento disponível no Brasil está abaixo da média dos países estudados. O investimento do PIB em saúde pública é de 3,8%, uma média de 4,6% nos 12 países pesquisados, e 7,42% nos países de alta renda no mundo.
    • Os recursos humanos de oncologia são escassos e estão concentrados nas cidades. Entre 2005 e 2013, apenas 150 enfermeiras qualificaram-se como especializadas em oncologia no país; entretanto, apenas em São Paulo, são necessárias 300 enfermeiras.
    • No quesito de disponibilidade de radioterapia, obteve 1, a pontuação mais baixa. O equipamento cobre apenas 66,7% da população e conta-se com 2 radiologistas por milhão de habitantes 3 por milhão no restante dos países do estudo.
    • [No quesito de] cuidados paliativos encontra-se em penúltimo quanto à quantidade de serviços por milhão de habitantes.
    • O acesso é tão lento que, no segundo semestre de 2014, 4,8% dos pacientes recorreram aos tribunais para obter sua medicação.

Ineficiências e desigualdades

A coexistência de múltiplos subsistemas de saúde, diferentes graus de cobertura, amplitude geográfica, distribuição irregular da população e outras características regionais causam desigualdade na atenção ao câncer.

  • Apesar do Sistema Único de Saúde, no país persiste uma fragmentação com quase 1.600 prestadores de saúde privados cobrindo 25% da população.
  • As zonas rurais têm menor acesso ao screening e à atenção. Os recursos encontram-se concentrados nas cidades.

Sobre a The Economist Intelligence Unit (EIU)

The Economist é uma empresa multinacional de meios de comunicação de origem britânica especializada em negócios internacionais e assuntos globais. Possui publicações em revistas e periódicos, organiza conferências em nível mundial e realiza estudos de inteligência de mercado.

A Unidade de Inteligência da The Economist (EIU, sua sigla em inglês) é a divisão de pesquisa e análise do Economist Group, e líder global de inteligência de negócios. Fundada em 1946, tem mais de 70 anos de experiência ajudando empresas, instituições financeiras e governos a entender como o mundo está mudando e como essa mudança cria oportunidades e riscos.

Referências

[1] Ministério Da Saúde. Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) [Internet]. 2015 [citado em 10 Jan 2015]. Disponível em: http://tabnet.datasus.gov.br/cgi/deftohtm.exe?sim/cnv/obt10uf.def

 

 

 

Jornalista
Jornalista, motivada pelo diagnóstico de artrite reumatoide aos 26 anos, “Patient Advocacy”, Arthritis Consumer, presidente do Grupo EncontrAR, vice-presidente do Grupar-RP, idealizadora dos Blogueiros da Saúde, eterna mobilizadora social em prol da qualidade de vida das pessoas com doenças crônicas no Brasil.
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Jornalista Grupar EncontrAR
Jornalista, motivada pelo diagnóstico de artrite reumatoide aos 26 anos, “Patient Advocacy”, Arthritis Consumer, presidente do Grupo EncontrAR, vice-presidente do Grupar-RP, idealizadora dos Blogueiros da Saúde, eterna mobilizadora social em prol da qualidade de vida das pessoas com doenças crônicas no Brasil.
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