A esclerose me ensinou a ter limites e a respeitar o meu corpo e o tempo das coisas

E a ter um olhar amoroso para as pessoas, porque cada um tem suas lutas e dores, mesmo que externamente não demonstrem.

Eu sou uma Artista, eu danço desde os 7 anos e com 13 já viajava pelo Brasil para concursos e estudos. Poderia ter ficado na zona de conforto, mas decidi ter uma formação acadêmica extra e me tornei também Bacharel e Licenciada em Psicologia, Pós-Graduada em Arteterapia.

Da união da Dança com a Psicologia surgiram muitas obras: um livro, um projeto social que até hoje está na ativa, dez anos de produções de espetáculos, um incontável número de alunos, e há alguns anos uma bem estruturada rede de Cursos Virtuais.

Em 2012 eu comecei a lutar com meu próprio corpo: dedos sempre azulados, muito frio, falta de ar. Então começaram as dores terríveis nas articulações, quadril, coluna. Cheguei a depender de morfina. Passei por onze médicos e somente três anos depois obtive o diagnóstico dessa doença rara, não contagiosa e, no meu caso, progressiva: Esclerodermia – Esclerose Sistêmica.

Já perdi capacidade cardíaca e pulmonar, tenho inúmeras degenerações osteoarticulares, já soube o que é dor grau 10 e provavelmente passarei o resto da minha vida realizando exames de controle e alternando medicações para não atrofiar meus órgãos internos.

Imaginem o que é ter dor e limitações físicas para uma Bailarina, alguém que desde que se compreendeu ‘gente’ vive das possibilidades do corpo.

Pois a esclerose me tirou quase tudo o que eu tinha, por um período de tempo – os dois primeiros anos foram os mais difíceis. Então eu percebi que deveria aceitar a doença, mas não me render à ela. Eu cheguei primeiro, ela que deveria se adaptar a mim.

Não consigo mais dançar uma peça maior do que 5 minutos, porém consigo dançar uma de 3. Não consigo dar aulas e fazer cursos toda semana, mas ao menos a cada dois meses me desafio a participar de algo, ou aceitar o convite para um show. Não consigo mais permanecer sentada durante horas para trabalhar atendendo pacientes, então reformulei minha agenda e readaptei minha maneira de viver. O que mais me debilita é a falta de fôlego, a fadiga, mas eu não me permito ter pena de mim mesma. Eu me desafio todos os dias.

Atualmente tenho um trabalho voluntário sólido e consistente com grupos de Mulheres as quais eu oriento acerca de auto estima, cidadania e resgate do sagrado em suas vidas.
O fato de ser loira e, segundo o padrão de beleza de alguns, bonita, não deslegitima minha produção sociocultural e não me protege de estar doente e degenerar lentamente. É uma realidade.

Mas isso não me assusta nem intimidade, pelo contrário, triplica minha vontade de realizar.
Penso que minha fé e meu jeito de viver- mesmo antes da doença – foram fatores essenciais para minha adaptação. Sempre fui muito animada, festeira e devocional.

Sou voluntária da ABRAPES e todos os dias eu auxilio pessoas que estão passando pelo mesmo que eu passei.

A esclerose me ensinou a ter limites e a respeitar o meu corpo e o tempo das coisas. E a ter um olhar amoroso para as pessoas, porque cada um tem suas lutas e dores, mesmo que externamente não demonstrem.

Respeite os seus limites. Superação sempre

Me chamo, Luciana Arruda, sou Artista e Psicóloga, tenho 42 anos e há 6 convivo com esclerose sistêmica, moro em Guararapes/SP.

Comentários
if (d.getElementById(id)) {return;} js = d.createElement(s); js.id = id; js.src = "https://connect.facebook.net/en_US/sdk.js"; fjs.parentNode.insertBefore(js, fjs); }(document, 'script', 'facebook-jssdk'));
%d blogueiros gostam disto: